Tuesday, August 26, 2008

Um irredutível afro-goulés e uma semana de cão

 

Na Gália ocupada por César resistiu em tempos às legiões romanas uma pequena aldeia de gauleses, alimentados pela poção mágica do druida Panoramix … assim me foi dado a acreditar desde miúdo, que fiz quase a colecção toda de Asterix e Obelix, de cada vez que era internado num hospital em miúdo, os meus pais traziam-me um livro novo quase todos os dias.

 

Nos dias modernos, à falta de druidas, legiões romanas e lideres dignos de serem comparados a César, este africano (clarinho) ainda se inspira nessa pequena aldeia e arma-se de irredutível teimosia, mau-feitio q.b. e paciência a rodos para lidar com a cabra inconveniente que me cerca.

 

Tenho a declarar oficialmente, desmentindo comentário meu no post anterior, que não interessa para nada ser um génio da matemática, esta doença de facto mexe-se de formas insondáveis … ou dito melhor, a forma como o meu corpo anda a reagir ao tratamento ainda não se estabilizou com um comportamento constante e previsível, porque a doença propriamente dita essa foi arrumada e está KO com 99,9999% de certeza.

 

Na consulta de 5ª feira de há 2 semanas ia preparado para ficar nas urgências. Para minha surpresa agradável ainda tinha sistema imunitário (pouco mas tinha), hemoglobina e plaquetas baixas mais ainda assim dentro dos limites mínimos para o meu quadro clínico. Senti-me um genuíno Hulk (aquele verde, não essa imitação roskov que equipa de azul e branco), convencido que afinal desta feita o ciclo B não me ia atirar os valores ao chão … pura ilusão.

 

De facto estou mais forte, mas isso traduziu-se apenas em as células do meu sangue resistirem mais dia e meio até começarem a cair que nem tordos aos efeitos da quimio.

 

Na noite de sexta para sábado fui-me deitar já com 37º o que foi um erro … a febre estava a caminho e devia ter-me mantido acordado e preparar-me para vir para o hospital … optei pela técnica da avestruz, dormi mal e porcamente, com receio de olhar para o termómetro e lidar com a realidade … foi uma estupidez, que perdoo a mim próprio porque pensar que já estamos safos do pior e de um momento para o outro virmos que afinal a febre nos agarrou por um pé é um golpe psicologicamente duro … na 5ª feira estava preparado para ela, na noite de 6ª feira julgava-a uma ameaça perdida no passado e sonhava já com poucas restrições, passeios e comida boa.

 

Sábado de manha, dia 16, acordei todo moído. 38,3º graus de febre exclamava o termómetro. Sai da cama e a temperatura baixou um pouco, mas manteve-se nos 38º. Fui para o hospital, desanimado, muito desanimado. E assim começou a minha semana de cão.

 

Nas urgências deram-me paracetamol, a febre que tinha subido aos 38,8º bateu em retirada. O que veio a seguir infelizmente foi desagradável mas não foi novidade, já me tinha acontecido acho que na ressaca do 2º ciclo B. Não acontece a todo o mundo, mas acontece comigo, depois dessa descida inicial da febre, quando a temperatura do corpo dita uns aceitáveis 36,6º, sinto de repente um arrepio de frio e uma ligeira tremura do corpo … a partir dai sei que tenho menos de 30 segundos para chamar uma enfermeira porque a coisa vai ficar negra, muito negra mesmo … em menos de quase nada o frio instala-se por completo e o meu corpo retesa-se completamente e dispara em tremores tão intensos, mas tão intensos que tornam o próprio acto de respirar quase impossível … dá medo de assistir, e também dá algum medo passar por isto, mesmo quando já se é veterano da coisa.

 

Felizmente há uma espécie de paracetamol ou lá o que é especifico para estas situações, o problema é que demora pelo menos dez minutos a começar a actuar … são portanto 10 minutos de alta intensidade, que recomendo a todos aqueles que acham que andar naquelas montanhas russas do tipo “kamikaze-talibomba-vertiginoso” é o máximo e adrenalina é que é … venham experimentar dez minutos disto e depois venham-me falar de “adrenalina” e “emoções fortes”.

 

Sábado foi portanto um dia rijo … os músculos doíam-me imenso por causa dos tremores, os ossos doíam-me também (já não me lembro porquê mas é normal), estava estourado por causa da febre, dos tremores, uma noite mal dormida e uma hemoglobina baixa. Transfusões de sangue, de plaquetas, antibiótico e paracetamol para cima, a coisa foi estabilizando. O implanto fixo é que começou a aparvalhar, falhando numa das suas funções que é a de se sacar sangue sempre que necessário para analises, o que forçou os enfermeiros a voltarem as picadelas nas veias. Este foi o primeiro de 7 dias consecutivos com febres.

 

No dia seguinte por momentos senti-me ok para sair do quarto e ir ao WC. Ao regressar cruzei-me no corredor com a mãe do companheiro Nuno Canhoto … infelizmente, a situação dele tinha-se deteriorado de tal forma que qualquer esperança de sobrevivência tinha já sido perdida. Não o fui ver porque os enfermeiros estavam a tratar dele … devido as febres não voltei a ter oportunidade de o ver, viria a falecer poucos dias depois. Por um lado fiquei aliviado de não o ter visto, não saberia que lhe dizer … lutou tanto aquele rapaz pela vida e sofreu imenso, não há como medir mas foi das pessoas internadas que mais vi sofrer …e o que se diz a uma pessoa que não tem hipótese? … eu que digo sempre “luta, não desistas” não tinha cara para lhe dizer isso, ele sofria demais para eu ser capaz de lhe dizer isso. Era um rapaz impecável, 29 anos apenas, muito inteligente, bom sentido de humor, de certeza que era bom filho. Fez-me lembrar alguém que um dia disse que na guerra os bons são sempre os primeiros a morrer … a enfermaria de hematologia faz-me pensar o mesmo, mas ultimamente tenho tentado pensar que talvez não seja assim, talvez apenas nos toque mais quando a morte leva uma pessoa boa do que quando leva um tinhoso qualquer que ofende a humanidade com a sua respiração. O Nuno agora descansa em paz e a família enlutada sente agora a dor de uma tortura que terminou … e os que ficam continuam em frente.

 

Os dias foram-se passando, as analises ao sangue nunca mais estavam prontas para se identificar o raio do bicho que me afligia, de maneira que as febres eram uma visita regular e os meus habituais 35,8º de temperatura corporal eram pouco mais do que uma memória de um passado recente. A febre desgasta imenso, nunca tinha tido mais de 2 dias seguidos de febre. Só me vem à cabeça a companheira Elsa que teve 18 dias consecutivos de febre, eu com sete já me estava a grizar, ela foi uma valentona na forma como aguentou os 18.

 

Dias consecutivos de febre amolecem corpo e espírito de uma pessoa de tal forma que finalmente aderi à moda de trazer o urinol para debaixo do cobertor quando precisava de me aliviar … tornei-me bastante bom nesse desporto, se algum dia for modalidade olímpica sou capaz de me bater com qualquer chinês … dêem-me um subsidio que verão a bandeira nacional e o hino a tocar, em Londres já se for possível … prometo no mínimo uma medalha … até sou capaz de trazer duas se distinguirem entre a técnica do urinol colocado meio de flanco e a técnica do urinol ao centro … se se fizer a prova de estafeta juntam-se mais três companheiros lá da enfermaria e pode ser que arranque 4 medalhas e começo a fazer um pouco de sombra ao Phelps … ah e sou menino para competir logo de manhãzinha as 8 se for preciso … alias recordo-me de garbosos eventos olímpicos relacionados com urina (alimentada a cerveja) com os meus brothers da Amadora, a altas horas da madrugada numa certa e determinada estrada nacional, algures no Alentejo, onde deixámos inscritos a “dourado” os nossos nomes e estabelecemos recordes mundiais de extensão de rasto de urina, interrompidos apenas por um ou outro inoportuno camião que teimavam em usar a estrada que tínhamos eleito para a nossa pequena competição.

 

Isto de urinóis e arrastadeiras dá pano para mangas … estava eu a ver o Sporting-Porto, aquela soberba e merecidíssima vitoria na Supertaça Cândido de Oliveira, quando se instalou uma necessidade profunda de ir ao WC … infelizmente estava com a tensão baixa, e entrei ali numa teima com os enfermeiros que me sugeriam arrastadeiras em troca de uma deslocação ao WC … “mas eu estou bem para ir ao WC” dizia eu, “a maquina de medir a tensão diz que não estás” diziam eles … “a maquina tá avariada” dizia eu, “avariado estás tu da cabeça” diziam eles …convenhamos que usam argumentos de peso, mas estavam a lidar com uma mula que por semanas respirou ar sul-africano, reconhecidamente saturado de teimosia persistente e crónica.

 

Sugeriram-me uma arrastadeira … recusei peremptoriamente, por motivos que não eles não perceberam e que não estive na altura para explicar mas que daqui a nada partilharei convosco. De seguida sugeriram levar-me de cadeira de rodas ao WC … recusei novamente, afinal sentia-me em condições de ir pelo meu próprio pé. Decidi comprar tempo, a ver se com o jogo me subia a tensão … infelizmente ou não, o jogo estava a correr de tal maneira que não me conseguia irritar logo a tensão não subiu … eventualmente na segunda parte, depois do 2-0 lá acedi contrariado a ir de cadeira de rodas ao WC, não tinha como resistir mais ao chamamento da natureza.

 

O problema das arrastadeiras, explico-vos desde já e em primeira mão para que saibam, é que é um raio de uma coisa desenhada para mulheres … não, não é machismo a falar, ergonomicamente aquela bodega está desenhada para a anatomia feminina. “Mas Michael, qual é o defeito ergonómico da arrastadeira para o seu uso por humanóides do sexo masculino?” perguntam vocês! … e eu fico contente de vocês perguntarem isso porque mais uma vez tenho a ilusão de ter descoberto uma coisa absolutamente obvia que tem iludido o resto da humanidade … a resposta é que lhe falta profundidade!

 

Falta profundidade à arrastadeira, mas antes de elaborar aviso-vos que se estiverem em vias de ir comer qualquer coisa vou-vos colocar uma imagem desagradável na mente … sou um homem de proporções absolutamente normais, não acredito que tenha testículos desmedidos nem descaídos … com aquela profundidade não há forma de não os ter a boiar no meio de urina e fezes numa questão de segundos … caso nunca tenham experimentado, não experimentem e acreditem em mim … tê-los a boiar em urina e fezes é profundamente, mas mesmo profundamente … desagradável.

 

Lanço aqui um apelo aos engenheiros portugueses que desenvolvam uma arrastadeira masculina, é todo um mercado à escala global que está órfão e ávido de oferta. Podemos tornar-nos o maior exportador de arrastadeiras versão masculina e assim resolver o problema do desemprego e talvez da fome em Portugal. Fico a aguardar pelo convite do Presidente da Republica para ir jantar lá a casa (na condição de não me cuspir bolo-rei para cima) e receber uma qualquer medalhita de uma nação agradecida e até pode ser que o Mr Nelson “Triplo Salto” Evora me venha a pedir o autografo.

 

Estou neste momento a tentar resolver o outro grande problema da nossa nação, o de arranjar um cérebro para o nosso primeiro ou uma alternativa credível na oposição, mas quer um quer outro está mais custoso do que possam supor … se bem que o Jardim com a sua ideia de um Partido Federal fez renascer em mim uma velha ideia que venho acalentando há algum tempo … uma Republica Federal Ibérica! Espanha deixa de ser uma monarquia e todos os povos irmãos da Península Ibérica se unem de uma forma espontânea em prol do benefício comum, não subjugados à tirania centralizadora e prepotente castelhana … hey, no mínimo havíamos de ganhar muitas mais medalhas nos Jogos Olímpicos, já que claramente isso é um assunto muito mais sensível e mobilizador do que por exemplo o estado (miserável) da saúde neste País.

 

Mas divaguei …

 

Voltando à crónica do internamento, 4ª feira foi um dia psicologicamente desgastante. De manhã recebi uma excelente noticia, já estava identificado o bicho que eu tinha, o antibiótico que me iam passar a dar era especifico para a bacteriazita … fixe, pensei eu, amanha já estou ok, 6ª o mais tardar estou em casa … à tarde veio a má noticia … o sacana do implanto fixo estava infestadinho de bactérias e o antibiótico não ia conseguir remove-las … mais uma vez, caso raro um implanto-fixo sub-cutaneo infectar, aqui o do vosso amigo infectou … o mais depressa possível devia ser retirado.

 

No dia seguinte lá estava eu ao meio-dia estendido na mesa de operações … isto depois de ter ido o caminho todo a barafustar ir de maca até ao bloco de operações quando podia perfeitamente ter ido e voltado pelo meu próprio pé … 30 minutos depois lá apareceu o cirurgião acompanhado pelo júnior … quem era o júnior? Presumo que seja um maçarico acabado de sair da Faculdade de Medicina, porque nem direito a nome tinha e quero iludir-me que os 30 minutos de atraso do cirurgião devem ser explicados por ele repetidamente ter questionado o júnior se iria ou não vomitar-se / cair para o lado ou de alguma outra forma perturbar a cirurgia quando visse sangue. O júnior foi um valentão e não perturbou nada, há-de se fazer dali bom cirurgião.

 

Se por acaso tens um implanto fixo, e estás com esperança de ler que tirá-lo é ainda mais fácil do que colocar, permite-me desde já que te desengane, é que não é! … custa no mínimo, três vezes mais, quer em dor quer em tempo de recuperação. Não se trata apenas de uma questão de anestesia (apesar de o cirurgião ter sido forreta na anestesia, tema ao qual voltaremos), a questão é que a porcaria do corpo ao fim de um mês já se habituou a acomodar aquela coisa estranha e inclusive já criou “laços” com o objecto … ora se colocar se trata de talhar e empurrar com cuidadinho, remover já implica talhar e arrancar para fora à bruta … é mau e acreditem que dói … essa é a má noticia …. a boa noticia é que mais dia menos dia vai ter que sair … ok, não será uma boa noticia necessariamente mas é um dado adquirido. No global e apesar da infecção continuo a recomendar que façam o implanto fixo se tiverem a oportunidade, é extremamente cómodo e bastante seguro e faz por merecer as dores que provoca ao remover.

 

Médicos forretas na anestesia não são novidade … porque motivo são forretas ilude-me, mas não vou explorar essa via, quando existe uma outra muito mais x-fileiana a ser investigada … a das perguntas que os médicos colocam quando no fundo se estão a borrifar para a nossa resposta. Não sei se se recordam disso mas já falei disso noutro post, pois então o fenómeno voltou a acontecer com este cirurgião.

 

Chegados a fase da sutura, uns bons 20 minutos (pelo menos) depois da anestesia inicial, o homem lá começa a cravar agulha e passar linha … ora bem, aquela merda doeu. Sendo um gajo da Amadora, faço os possíveis por evitar gritar com dor, afinal é todo um concelho que estou ali a representar. Aquilo que não dá para controlar é esgares de dor e espasmos de dor pelo corpo fora quando as coisas doem …e aquilo estava a doer. Doeu à primeira cravadela, doeu à segunda e à segunda lá vem a “pergunta” do cirurgião: “Então, está a doer?!” … primeiro achei curiosa a pergunta, porque só uma pessoa de elevado autismo não teria constatado isso sem ter de perguntar. De seguida, como fui bem-educado pelos meus pais, achei por bem responder ao senhor: “Sim!” …  logo ai construi a ilusão que ia receber mais anestesia … acto continuo à minha resposta o cirugião remete-se ao silêncio, dá a 3ª cravadela, pouco depois seguida da 4ª … ilusão desfeita, lide concluída, soltem o cabresto e recolham o doente aos curros. Ora bem vejamos, sigam o meu raciocínio … se ele já tinha decidido que eu ia levar os pontos a frio, para quê parar a meio para colocar aquela pergunta inútil?!

 

Desenvolvi, enquanto devorava um bife da Portugália ao jantar, uma teoria que talvez responda este mistério ou condição anómala que parece afectar parte do corpo médico nacional … a teoria é esta (não vou arranjar amigos com ela): Sindroma de Cabeleireira … há médicos que sofrem de sindroma de cabeleireira, ou seja, no fundo gostavam, ou precisam, ou sentem necessidade de estabelecer com o cliente dos seus serviços, um mínimo de conversa de circunstância enquanto efectuam os procedimentos necessários à satisfação do serviço … alguma coisa equivalente a uma cabeleireira perguntar “então, já viu o tempo estúpido que estamos a ter este Agosto?”, que como todos sabemos é uma pergunta perfeitamente plausível e que motiva ali uns bons 30 segundos de conversa com o cliente, se for homem, ou chegando mesmo a uns bons 15 minutos de conversa, se for mulher, sendo que se for mulher tem a vantagem adicional de a conversa naturalmente evoluir para um assunto em nada relacionado com meteorologia, ad continuum até que o serviço está feito, senta-se na cadeira vaga uma nova cliente e a cabeleireira pode novamente perguntar: “então, já viu o tempo estúpido que estamos a ter este Agosto?”

 

Ora bem, o problema é que os nossos senhores doutores e doutoras, lá devem achar que andaram a estudar demasiado e que têm um estatuto na sociedade que não lhes permite colocar perguntas de circunstância sequer remotamente comparáveis aos de uma cabeleireira … ora isso é problemático à brava porque convenhamos, as cabeleireiras são mestres na área das perguntas e conversa de circunstância, aquilo com elas já evolui até uma forma de arte que mais ou menos açambarca tudo o que seja mundano. Portanto os senhores doutores e doutoras colocam-se a eles próprios numa posição ingrata de se saírem com uma conversa de circunstância que nunca ocorreria a uma cabeleireira, dai se saírem com pérolas do estilo: “Então, está a doer?!” … “Sim!” vem a resposta e depois instala-se a duvida na cabeça do médico “porque raio é que uma pessoa inteligente como eu acaba de fazer uma pergunta tão otária?!”

 

Falando para a classe médica em geral, pela qual, ao contrário do que algumas coisas que aqui tenho escrito possam dar a entender, não nutro uma antipatia inata (alguns de vós já me salvaram a vida inclusive, por mais de uma vez, portanto obrigado bacanos!) tenho isto para vos dizer: eu estou apenas aqui a dar pistas e iluminar caminhos alternativos … parte de vocês mesmo pararem, reflectirem, reconhecerem que têm um problema e a partir dai procurarem ajuda. Força ai, não desanimem, deve haver uma cura … algures!

 

Esta crónica já vai extensa e sinto que estamos avançar demasiado depressa na resolução dos principais problemas da nossa sociedade, o que por si só deveria dar direito a eu receber uma multa, então daqui a nada vou mas é dormir que amanha de manha vou ter que colocar um cateter e depois iniciar o 4º ciclo A … pois é, tive alta no Sábado e amanha estou de volta à carga … não, não me sinto 100% confortável porque a ultima dose de hospital está demasiado recente e voltar às restrições após um tão curto tempo de liberdade relativa não é fácil, mas os médicos dizem que tenho valores ok e se depender de mim não vou atrasar uma semana o plano traçado pelos médicos, especialmente tratando-se de um simples ciclo A. Cerra-se os dentes e como diria o Henrique número não sei quantos, volta-se à brecha mais uma vez, imitando a pose, a ferocidade e o fulgor do tigre.

 

Despeço-me com uma dica e uma explicação

 

Dica: Como não cair no chuveiro … ok, pode haver vários motivos pelos quais um tipo cai no chuveiro, não consigo resolver todos, mas sempre me pareceu que o maior factor de risco está quando um gajo tenta calçar as calças do pijama. Ora bem, a técnica correcta a ser empregada é a seguinte: a) colocar primeiro a camisa do pijama; b) aproveitando que é suficientemente grande a camisa para evitar que o rabo sinta a humidade do azulejo, encostar o rabo à parede; c) enfiar uma perna nas calças; d) enfiar a perna remanescente … voilá!

 

Explicação: Foram vários dias sem dar noticias, alguns de vós terão ficado preocupados, gostaria de ter podido escrever algo mais cedo mas no dia em que tive alta estava ainda demasiado fraco para poder produzir uma crónica digna, e nos dois dias seguintes tive que repartir o meu tempo entre dormir, comer, tomar a medicação e ser feliz … fiel à minha nova filosofia de vida, a parte de ser feliz roubou-me imenso tempo, tanto que tive que vos deixar no suspense mais alguns dias … é que fui feliz à brava, durante bastante horas que me pareceram minutos, fazendo coisas absolutamente simples e naturais que já não fazia há um porradão de tempo, que me revigoraram a alma para mais esta etapa desta maratona que em breve terminará … atentem que isto é uma explicação, não um pedido de desculpa, se no meu lugar procedessem de outra maneira lamento informar-vos, com carácter oficial, que os prezados amigos e leitores seriam  uns autênticos e genuínos asnos.

 

Fiquem bem

PS: Não me perguntem porque motivo a fonte está a 16, o blog.com parece ter evoluído tecnologicamente mas incompatibilizado com a capacidade de aceitar ordens deste utilizador, que freneticamente tentou reduzir a fonte por varias vezes ao habitual 12 até ao ponto que pensou “aaaaah … que ça f***!”

Posted by Michael at 00:06:53 | Permalink | Comments (19)

Sunday, August 10, 2008

Status report: 10 de Agosto


Este vai ser curtinho … acabei de ter alta do meu 3º ciclo B, uma vez ultrapassada a ressaca ficarão a faltar 25% apenas desta longa maratona … Um danoninho portanto :-).

Foi um internamento tranquilo, não me dei muito mal com a comida (apesar de estar cada vez mais saturado), nao tive desconforto de maior, bons companheiros de quarto, pessoal muito tranquilo.

O implanto fixo funcionou muito bem e nao tive que me ralar com veias nem colheitas de sangue. À cautela começei já a fazer laxantes para ver se não me volta o abcesso, por enquanto tem dado bom resultado, as fezes apesar de ainda sairem duras saem menos do que duras do que era normal

Revi imenso pessoal do serviço, de vez em quando dá saudades porque é pessoal impecavel. Revi uma série de companheiros, a maior parte dos quais estão com boa cara, alguns poucos já perto de estarem livres desta

O livro que comprei aqui há coisa de uma semana, um calhamaço de toda a ordem, tenho-o devorado … “chama-se 8 lanças contra Solimão” notavelmente bem escrito por um tal de Tim Willocks … agora é uma porra encontrar outro que me apeteça igualmente ler será um sarilho … se conhecem bons romances historicos, epocas japao feudal, cruzadas, secs 16 e 17 mediterranico, vikings etc … mandem links  sff

Tudo tranquilo portanto, a ver se me aguento em casa até 5ª feira sem ter febres

Beijos e abraços, consoante :-)

Posted by Michael at 15:14:39 | Permalink | Comments (22)

Wednesday, August 6, 2008

Porque há coisas que merecem um post

Acabaram-me de enviar isto … a ultima aula de um professor americano que sabia ter apenas semanas de vida devido a um tumor no cerebro … 1h16 que vale muito, mas mesmo muito, a pena de escutar e ver

http://www.youtube.com/watch?v=ji5_MqicxSo

“Don’t bail: the best gold is at the bottom of barrels of crap”

Posted by Michael at 13:43:51 | Permalink | Comments (6)

Monday, August 4, 2008

Filosofia barata … vá … grátis, digamos

“Se o teu conselho fosse bom, tu vendia!” dizem-me ser uma expressão popular no Brasil. Sempre a achei extremamente colorida e divertida, especialmente porque sendo de profissão consultor de gestão, estou careca de vender conselhos meus, entre outros serviços.

 

Ligaram-me à pouco do hospital, amanha vou ter consulta, calculo que os valores já estão em alta, portanto o internamento para o decisivo 3º ciclo B deve acontecer ainda esta semana, o mais tardar no inicio da próxima.

 

Parece-me portanto oportuno partilhar um pouco convosco como estou a encarar isto tudo e depois vou divagar em termos abstractos (e potencialmente presunçosos) sobre o que eu penso da Vida e da Morte e de todas as coisas que vão acontecendo pelo meio … restritas ao que me conseguir ocorrer ate as 19h e picos, que quero ver o Benfica-Guimarães, estou com vontade de me rir.

 

O ponto de partida é que eu sou um fatalista tendencialmente optimista … isto consiste em acreditar em duas coisas: em primeiro lugar, acreditar que no fundo o destino de cada um de nós está traçado, a traços de pincel grosso. A única coisa que é objectivamente reconhecida é o limite desse traço, o fatídico fim que há-de chegar, sendo que se mantém em discussão, ou envolto em bruma, as tonalidades, sons, cheiros e sabores alternativos dos diferentes caminhos que mais ou menos escolhermos até atingirmos esse limite. Em segundo lugar, acreditar que apesar de o fim ser inevitavelmente trágico e triste, apesar de este Mundo estar a ir pelo ralo a grande velocidade (levando atrás … ou será à frente?! … o tecido social e humano e a mais elementar noção de Decência), o instinto de auto-preservaçao humano irá de alguma forma conseguir que a auto-destruição da espécie humana, individuo a individuo ou em grande estilo grossista, alguma vez se venha a materializar.

 

Faz sentido?! … Provavelmente ainda não, vou portanto insistir, usando-me como exemplo: Do ponto onde estou hoje na vida, até ao meu fim neste mundo, acredito que existem um conjunto de caminhos já mais ou menos pré-estabelecidos aos quais não vou poder fugir … que caminhos são esses que serão percorridos dependem, até certo ponto das decisões que tomar, com muito do que se segue a ocorrer em consequência ou como efeito da causa que o precedeu. Muito é substancialmente diferente de tudo, logo a mais ínfima margem de manobra dada à aleatoriedade é o suficiente para que o caminho pelo qual acabamos por seguir raramente ser aquele que escolhemos, sendo que não nos apercebemos disso. São as chamadas “surpresas da vida”.

 

Felizmente nem todas as “surpresas da vida” são más … e por vezes mesmo as más “surpresas da vida” vão desembocar em novos trilhos ou ramificação, onde uma boa decisão (ou um bom conjunto de decisões), em conjunto com alguma aleatoriedade favorável, podem levar uma pessoa a um sitio na sua vida ainda melhor do que pensava possível dez passos antes.

 

Todos tomamos dezenas de milhares de decisões por dia, a esmagadora maioria delas sem pensarmos que o fazemos. Como escrevi noutro post, senti isso claramente quando voltei a casa depois do meu primeiro internamento, em que a minha desabituação a estar “em casa” e o meu estado fragilizado a nível de sistema imunitário me deixaram de tal maneira perro no crânio que sentar, deitar ou estar de pé, estar na sala ou no quarto ou no computador, virar a cabeça à esquerda ou à direita, tudo isso era alvo de uma decisão consciente.

 

Ora, se tomamos dezenas de milhar de decisões por dia e, em paralelo, temos discernimento e o nosso melhor interesse como foco, não há má sorte que possa durar a vida toda. Dai o fatalismo tendencialmente optimista.

 

Isto tudo para dizer-vos que eu, por exemplo, estou neste momento num ponto da minha vida em que sinto posso vir a ser ainda mais feliz do que imaginava possível mesmo quando era saudável … chego ao ponto de dizer-vos que já não lamento a minha leucemia linfoblastica aguda, ela veio porque assim mo estava destinado, com ela trouxe um período de reflexão interior, trouxe uma revisão e apuramento das minhas prioridades, trouxe uma maior abrangência de sentimentos e sensações, trouxe um amadurecimento emocional, trouxe de dezenas de novas pessoas, fantásticas e excepcionais cada uma à sua maneira, que conferem à minha vida actual e restante uma riqueza e um potencial incomparavelmente superior ao que imaginava possível.

 

A minha doença evoluiu assim de uma cabra odiosa para uma cabra inconveniente, algo a despachar para canto à primeira oportunidade mas que ao mesmo tempo me desbloqueou uma avenida incomparavelmente mais maravilhosa do que o trilho pesado e sinuoso por onde seguia a minha vida pré-doença. Pode parecer uma loucura mas é verdade, se um génio da lâmpada me dissesse que me curava hoje desde que eu passasse uma esponja por todas as recordações destes meus meses leucemicos, iria gentilmente declinar o negócio.

 

Boas decisões, discernimento, um pouco de sorte e a ajuda de muita gente boa, foi o que bastou … ora ou sou completamente louco ou então aceitam que é possível que isto aconteça a uma pessoa que luta contra uma doença potencialmente terminal … e se pode acontecer a uma pessoa na minha situação, pode acontecer a qualquer um, seja qual for o problema ou problemas que vos aflija ou que achem demasiado poderoso, opressor ou terrível para lidar, basta que não queiram abdicar das rédeas da vossa vida.

 

Deixem-me reforçar que não estou louco … se estou, “não façam pouco desta loucura” já dizia o poeta. Por exemplo, entendo que não estou a lutar contra a Morte. Para mim a Morte faz parte da Vida. A primeira, tal como a segunda, está entre nós, a toda a nossa volta e um dia estará dentro de nós, nós é que escolhemos fazer de conta que não sabemos que ela está lá. Não, não luto contra a Morte, ou no limite não luto nem mais nem menos do que tu e todos os outros seres vivos deste planeta. Não há como lutar contra ela, é demasiado poderosa, quando quiser a nossa companhia podemos apenas a aspirar a conseguir sorrir na hora em que aceitamos o seu convite, esse pró-forma absolutamente desnecessário.

 

Eu luto contra a doença, não contra a Morte. Tenho uma profunda divergência em relação ao meio e ao timing que me poderão conduzir à recepção do tal convite funesto. A Morte é incontornável e invencível, a doença não. A Morte é eterna, a doença pode ela própria falecer … trata-se apenas de matar todas as putazinhas (sem menosprezo pela classe profissional) células cancerígenas antes que elas ou o meu tratamento me matem a mim …. e caramba, eu sou um osso duro de roer, já terão reparado.

 

Estou portanto substancialmente calmo e confiante nas vésperas daquela que elegi como sendo a batalha orgânico-quimica decisiva do meu tratamento, uma espécie de shakespereanos conjuntos de dias de S. Crispim.

Não estou completamente calmo. Apesar de o meu estado de espírito ser altamente positivo, ao sentir cada vez mais próximo o ultimo dia de tratamento começo a permitir-me tomar consciência de mais coisas, de mais opções, de mais actividades que vou poder voltar a desempenhar em breve. Já não me é possível estar completamente focado no meu processo de cura, o espírito já está desassossegado pelo que virá depois.

 

É um risco, mas é um risco calculado, não me era possível fazer a plenitude do tratamento sem em algum momento colocar as vistas para além do objectivo fundamental … curar-me mantêm-se como objectivo fundamental, mas já não é o único, começo a querer mais do que isso … afinal, se pensarem bem, nada é mais natural do que estarmos insatisfeitos com o que alcançamos, caso contrário não teríamos nunca saído das cavernas. É essa a nossa bênção e ao mesmo tempo o nosso calvário neste Mundo, aquilo que nos mete em alhadas e faz sentir infeliz, e aquilo que nos faz sair das alhadas e conhecer momentos de felicidade e realização pura.

 

Notas relevantes dos dias mais recentes (listagem não exaustiva):

 

- Ao fim de vários meses comprei e estou a ler com agrado um livro

- Revi um amigo com quem já não falava há anos

- Dancei uma kizomba e um funana, como não fazia há meses … ia perdendo o fôlego, como sempre … a “febre” de Domingo à noite do leucémico :-) não perdi os meus talentos bailarinos

- Deitei-me na relva, como não fazia há anos … estava húmida e cheirava a excrementos de cão, mas mesmo assim soube bem.

 

17h00 … abdico de continuar a dispensar filosofia grátis em favor de um refrescante duche … ou uma sesta?! … Decisões, decisões …

Posted by Michael at 17:10:12 | Permalink | Comments (11)

Thursday, July 24, 2008

O Dia D está próximo

Vai algum tempo que não escrevo, mas sosseguem isso não quer dizer que tenha estado mal, antes pelo contrário, fisicamente tenho-me sentido francamente bem.

 

Concluo formalmente amanhã o 3º ciclo A. Depois de 8 sessões de quimio em 4 dias na passada semana, amanha chega o 11º e ultimo dia do ciclo, mais uma sessão de quimio e depois é recuperar para o 3º ciclo B.

 

Bom dito desta forma obcecada até me assusto, afinal entre este ciclo e o próximo vou sair um bocado, passear, ver pessoal amigo, ir a um teatro, ou seja sair da redoma e viver uma aparente normalidade … o que é facto é que conto fazer alguma coisa, ter o que contar. Nos últimos tempos tenho reparado que a esmagadora da maioria das pessoas que me pergunta como estou e quais são as novidades, quando respondo e devolvo a pergunta não têm novidades elas próprias para me dar … sinto pena, pessoal saudável, jovem, que se deixa cair na monotonia da vida diária … espero enganar-me mas parece-me que brutas crises de meia idade estão em formação.

 

Fui ao velório da Patrícia na semana passada. Senti que devia, pela Patrícia, pela família dela, por todos os outros companheiros de quem não me pude despedir, por mim. Fez-me bem ir lá, dar um abraço e confortar na medida do possível quem tanto perdeu. Acho que ao fazer isto tomei consciência do segredo que sustenta o moral do pessoal que trabalha em Hematologia: a morte é um facto da vida, que pode ser atenuado se pudermos fazer algo pelos vivos … mesmo que esse algo seja algo tão simples como um abraço.

 

Sobre as sessões de quimio, nada de extraordinário a reportar para além da falência das minhas veias. O 2º ciclo A foi todo feito com uma veia a aguentar 4 dias, este ciclo já exigiu 3 veias distintas. É o efeito natural dos antibióticos, magnésio, potássio, morfina e afins que andei a meter para a veia naqueles quinze dias de ressaca do 2º ciclo B.

 

A surpresa mais desagradável acabou por aparecer no 4º dia, onde a meio da quimio comecei a sentir dores e um ardor na veia. A intervenção rápida do enfermeiro Gonçalo acabou por salvar o que podia ter sido uma situação bem aborrecida, o derrame de quimio para fora da veia, que iria provocar queimadura. Na minha santa ignorância da altura não me preocupei muito com a coisa, mas agora sei que em alguns casos, com quimio suficientemente tóxica e um derrame suficientemente extenso, a queimadura pode ser bastante grave e no pior cenário motivar amputações.

 

Como precaução andei a por uma pomada com cortizona durante o fim-de-semana, atento a qualquer sinal anómalo que felizmente não se verificou. Portanto mais uma de que me safei por pouco, siga a marinha.

 

Moral da história: Bendita a hora que deixei do lado o mau feitio e coloquei o implanto-fixo, pela falência das veias e pelo risco de amputação que deixo de correr já valeu a pena. Amanha em principio já entra ao serviço o implanto-fixo, assim o espero.

 

Faltam menos de dois meses para concluir os tratamentos. Pus-me o outro dia a pensar um pouco mais estrategicamente sobre o assunto e cheguei a conclusão que o dia decisivo está bem mais próximo do que isso.

Estou fisicamente óptimo (tirando as pernas parecerem uns caniços, ao ponto de ter cãibras de manha quando me espreguiço … não estou a brincar, uma simples espreguiçadela dá em cãibra), nenhum órgão tem ameaçado dar de si, tenho tido boas recuperações.

 

Pelo que me tenha apercebido, não tem havido ninguém a falecer à primeira contrariedade, por exemplo a Patrícia recuperou da primeira pneumonia, tendo falecido quando uns meses mais tarde teve pneumonia uma 2º vez. Ora os meus dois ciclos B e respectivas ressacas vieram e foram sem deixarem mazelas que perdurassem.

 

Se eu conseguir que o 3º ciclo B e a respectiva ressaca, venham e vão sem que nada de grave me toque em sorte, fica o caminho aberto para o 4º ciclo B, onde se algo acontecer posso (em principio) recuperar, na segurança e conforto de não ter de enfrentar mais ciclos B

 

Defini portanto que o dia D, para mim, será o ter alta depois da ressaca do próximo ciclo B. Se esse dia chegar sem acidentes graves de percurso, terei legitimidade para encarar o que falta do tratamento com muito mais tranquilidade e também para finalmente voltar a fazer planos concretos para o futuro

 

Este é o plano de jogo, a ver se não sai muito furado. Tem alguma dose de optimismo, poderão pensar, mas respondo-vos que o optimismo é subjectivo, afinal podemos apenas estar a valorizar de forma diferente as agruras, dificuldades e medos que me assaltam … o condicionamento psicológico a que me auto-submeti estes meses permite-me olhar exclusivamente para o objectivo fundamental, que é safar-me desta em condições mínimas para viver sem grandes dependências … o que vier para além disso será lucro.

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Wednesday, July 16, 2008

O que é que se viveu com 22 anos?

A Patrícia, a minha Nenuca, morreu esta manhã. Por muita força de vontade e energia de viver que ela tinha, objectivamente aguentar duas pneumonias em tão curto espaço de tempo foi demais.

Faleceu com 22 anos … eu com 22 anos era um garoto, não tinha visto nem vivido nada.

Não encontro palavras suficientes nem adequadas para confortar a família e o namorado, acho que não há conforto possível nestas horas.

Continuo a não conseguir chorar por ninguém. Não sei se não deva chorar, não sei se pura e simplesmente não quero.

A minha confiança no serviço de Hematologia dos Capuchos está no ponto mais baixo de sempre, não fosse a evolução francamente positiva que eu tenho tido e estaria a equacionar seriamente sair de lá para outro lado.

A infeliz, anacrónica e ineficaz “lei da rolha” imposta pelos (ou aos) médicos do serviço também não ajuda em nada, só me faz pensar que as coisas por lá podem até andar bem pior do que eu já imagino.

Aquilo que é certo é que nesta vida em geral, e em particular quem vive com esta doença, tem de conseguir aproveitar e saborear os dias bons, cada momento bom, porque são de duração demasiado curta.

Posted by Michael at 16:45:24 | Permalink | Comments (10)

Tuesday, July 15, 2008

0% … o grande O … bola, nicles, nada … zero!

 

Desde a semana passada que não me apetece escrever. Tirando uma memorável tarde e principio de noite de 6ª feira, cujos detalhes não partilharei convosco, a semana passada foi muito má, em mais coisas do que aquelas que contarei aqui.

 

Foi a semana em que faleceram os companheiros Pedro Beaumont e João Valentim. Primeiro foi o Pedro, meu companheiro de quarto durante varias semanas. Uns dias mais tarde o João foi o primeiro companheiro com quem falei, e de quem herdei o 1º bobby decente. Com ambos desenvolvi laços de amizade, as notícias caíram-me como se tivesse recebido duas valentes chapadas. Deixo aqui os pêsames às famílias enlutadas.

 

Para piorar as coisas, a Patrícia, a minha Nenuca, voltou a ter pneumonia e encontra-se novamente em coma, prognostico muito reservado. Nunca vi tanta adversidade acontecer à mesma pessoa … espero e desejo que os 22 anos da Patrícia façam a diferença e que ela vença mais esta, mas tenho de ser realista e não levantar demasiado as minhas próprias expectativas, mesmo saindo desta o cenário é demasiado negro para se poder fazer mais do que cerrar os dentes e esperar pelo melhor … se eu fosse um homem religioso rezaria, mas não sendo posso apenas fazer votos de melhoras.

 

Devo confessar que, apesar de o João e o Pedro terem doenças diferentes da minha, a sucessão de más noticias já se tornou suficientemente longa para me deixar desconfortável, bastante desconfortável. Já emergiu um padrão, um traço comum, que é o sistemático insucesso dos médicos em conseguirem recuperar aqueles cujo corpo começa a dar de si, seja por este ou aquele motivo … posso estar a ser injusto, mas que me tenha apercebido, esta é a realidade

 

De uma forma egoísta, posso dar-me satisfeito por o meu físico estar a aguentar-se bem. Apesar de sentir os desaires dos outros, tenho que egoisticamente continuar a olhar para o meu caso, para a minha situação e ficar contente quando as coisas correm bem … faço tenções de viver, tenho planos, tenho família e amigos a quem serenar sempre que possível.

 

É esse o objectivo do post de hoje, serenar ânimos e transmitir-vos a minha felicidade pelos bons resultados do 2º ciclo de quimio. Fiquei hoje a saber o resultado do mielograma que fiz ontem (isto admitindo que foi correctamente entendida o dialogo gestual que tive com a minha medica esta manhã) … tenho 0% de blastos … sendo que blastos serão alguma espécie de células cangerigenas. A cabra levou mais pancada do que eu mais uma vez, e a remissão é agora completa. Com o primeiro ciclo fui de 97% de blastos para 1% e agora foi de 1% para zero.

 

Volto a relembrar que remissão não é cura. Isto não quer dizer que não tenho células cancerígenas, quer apenas dizer que a existirem são tão poucas que já nem são detectadas pelo mielograma. Portanto seguimos em frente com mais dois ciclos de quimioterapia (comecei esta manha o 3º ciclo A) para consolidar estes ganhos, para por a cabra com dono para sempre, inshallah!

 

Foi uma excelente notícia porque ademais andava a suar à noite, o que motivava preocupação, afinal suores nocturnos são um dos principais sintomas de leucemia (no meu caso os sintomas começaram por ser cansaço, depois intensas dores ósseas – no primeiro episodio a tal ponto que me provocaram um aperto no peito, como se me fossem arrancar o coração do tórax – suores nocturnos, febres e finalmente nódoas negras inexplicáveis) … aqui há uns dias já suspeitávamos ter identificado o motivo dos suores, a forra do meu colchão que tinha um plástico, mas a possibilidade de uma recaída não era de descartar completamente.

 

A custo consegui ultrapassar o meu mau feitio (que chega a ser imenso) e acedi a fazer o implanto-fixo. Sim, depois de muita praga rogar ao serviço de Cirurgia 5, finalmente fui chamado para a operação numa altura em que tinha valores bons e os resultados de análises para o atestar. Nada me impedia de fazer a operação, a não ser algumas reservas quanto aos riscos inerentes e um imenso mau feitio. Depois de alguns dias de reflexão, e depois de colher a opinião da minha médica decidi fazer a intervenção … factor decisivo: Eu imaginar um cenário, que não era tão improvável quanto isso, de a seguir a um ciclo B, precisar de tomar antibióticos e ter as veias todas KO, e não ter plaquetas que permitissem colocarem-me um cateter de emergência. Factor coadjuvante: Não ter que voltar a estar neutropenico na sala de espera do laboratório para fazer analises, rodeado de 40 idosos com todo o tipo de doenças.

 

5ª feira fui pelo meu pé para a mesa de operações, anestesia local e passado uma hora estava a sair da mesa pelo meu próprio pé, eu numa versão revista e melhorada, agora com uma espécie de cateter enfiado debaixo da pele com tubos a ligar ao coração. Fui para casa onde fiz gelo o resto do dia, e no dia a seguir à tarde já estava a guiar. Dores foram muito poucas durante a operação, afinal a cirurgiã foi generosa nas anestesias, e no pós-operatório foram nulas, bendito gelo. Só me afligiu um pouco a colocação dos tubos a apontar ao coração, aquilo não ficou bem alinhado à primeira de maneira que senti durante alguns segundos umas arritmias enervantes … partilhei essa info com a  cirurgiã e com um realinhamento rápido a coisa passou sem voltar a manifestar-se … tenho só a pedir ao pessoal amigo que abstenham de me darem palmadas fortes nas costas ou no peito nos próximos dias, não vão os pontos rebentar e/ou o cateter sair do sitio

 

Enfim, foi bom ver a Elsa hoje (esse fungo bera há-de largar-te a braguilha), foi óptimo saber que a Joana já acabou os tratamentos (marafada, sabias que me ias aturar esta semana e deste de fuga?! … eh eh boa sorte) … registo também com agrado que há já algum tempo que não me enfiam dedos no cu, o que é globalmente positivo :-)

 

Com beijos e abraços para todos, em particular para o pessoal amigo da Novabase e da Vodafone com quem passei umas horas esta segunda, deixo-vos uma pérola que o meu amigo Alfredo me enviou esta manha … um belo faduncho, original, bem disposto e divertido, filmado nada mais nada menos do que junto à Cova da Moura e ao 6 de Maio, na freguesia da Damaia, a minha segunda casa enquanto crescia.

 

Já agora aqui fica feita também uma homenagem a muita, mas mesmo muita gente boa que mora na Damaia, mesmo nos bairros “problemáticos”, eu sei porque convivo e convivi desde sempre convosco, que vocês são uma maioria de gente simples, forte, genuína e amiga do seu amigo … já mereciam a distinção de um videoclip ai está ele, a mostrar que a Damaia é mais do que apenas marginais, droga, roubos e violência, afinal também temos belos murais, ringues de futebol 5 e … bailarinas havaianas?!

 

DÁ-LE! AH FADISTA! Cintura urbana de LX in da house! Amadora forever!

 

http://www.youtube.com/watch?v=jq1j-Dq11WQ&feature=related

Posted by Michael at 15:41:14 | Permalink | Comments (12)

Saturday, July 5, 2008

Afinal o que é isso de “ter coragem”?

 

Estava para escrever isto mais tarde, mas acabo de vir do blog da Gigi ( http://quimio-gigi.blogspot.com ) e não consigo pensar em outra coisa senão escrever este post.

 

Primeiro conheci o blog e depois a autora pessoalmente no encontro da associação de enfermeiros de oncologia … espero ter acertado no nome … isto há coisa de não sei quantas semanas, maldita morfina, já não faço a mais pequena ideia … mas lembro-me que o almoço era excelente e melhor apenas a companhia.

 

Como o mundo é pequeno, ainda por cima o marido dela é grande amigo de um grande amigo meu.

 

Já na altura a Gigi partilhou connosco que havia fortes indícios de recaída no caso dela, um linfoma de Hodgkins. Dos indícios chegou-se finalmente às certezas, com tempo de espera pelos exames que tenho dificuldade em compreender, mas devo ser meio-extraterrestre por manter ainda a capacidade de me revoltar com estas merdas.

 

No tal encontro dos enfermeiros, onde participamos num painel, mediado pela jornalista da SIC … Raquel Meirinho … acho, aaaarrgghh … maldita morfina … perguntaram-me qualquer coisa de do tipo “de onde vinha a minha coragem” para combater a doença.

 

Confesso que a pergunta me deixou meio surpreendido … quando um animal é ferido e está encurralado, o espírito de sobrevivência instala-se e esse animal, por mais manso que seja, torna-se extremamente feroz e guerreiro, enquanto lhe sobrarem energias quem o encurrala fica a saber que pagará cara a pele que quer obter … será isso coragem? … é que é assim mesmo que sinto desde o inicio, a doença feriu-me e encurralou-me a um canto, onde agora a coisa é um ou eu, ou tu, um de nós vai cessar de existir.

 

Não me sinto corajoso … e foi isso que transmiti à audiência, entendo que só é corajoso quem tem opção de retirar e opta por ficar, quem tem a opção de dar menos e dá mais … como os médicos, os enfermeiros e auxiliares dos serviços de oncologia e hematologia que, indo para além do profissionalismo, assumem o risco de se envolver e criar laços fortes de amizade com pessoas que podem perfeitamente vir a revelar-se doentes terminais.

 

Ando neste mundo da hemotologia há coisa de 4 meses e já sinto que perdi companheiros a mais, portanto corajosos são esses médicos, enfermeiros e auxiliares que há anos trabalham nesses serviços, sem criarem pele de crocodilo, sem se tornarem autómatos. Eles têm escolhas, pedir transferência de serviço, desenvolverem a tal pele de crocodilo, de criarem muralhas contra as agressões psicológicas com que lidam diariamente e optam por ser como são. Acho-os fantásticos e admiro-os por cada dia que conseguem resistir, psicologicamente irem ao fundo e voltarem a reerguer-se, cara lavada para mais 8 ou 16 horas de trabalho consecutivo.

 

São 4 meses a viver em “modo de sobrevivência” … sentidos hiper-alerta (por exemplo, o meu senso de olfacto anda apuradíssimo), passos calculistas, riscos medidos, restrições, tratamentos, medicação, planos para o futuro praticamente no congelador, dor e ansiedade gerida … não é uma vida fácil, já devem ter percebido, mas seja como for não vejo como podia continuar em “modo normal” numa situação excepcional e estar a safar-me bem (assim o sinto, saberei com mais certezas dentro de semanas)

 

Aquilo que me admira é que haja companheiros que tenham dificuldade em chegar a esse “modo de sobrevivência”. Que raio de circunstâncias inibem um animal (sim, no fundo somos animais) de apelar ao mais básico instinto de sobrevivência quando recebem a noticia de terem uma doença oncológica/hematológica … que raio de sociedade, que raio de conceitos “civilizacionais”, que raio de lavagem ao cérebro foi feita a tanta gente, que se vai abaixo das canetas, em vez de virarem a mesa, rosnarem, esmurrarem, morderem, virarem-se à cabeçada seja lá ao que for que têm pela frente.

 

Sinceramente, acho que é uma questão demasiado complexa para que eu a consiga compreender na totalidade. Acho que parte da resposta está no facto de muita gente viver presa numa espiral negativa, de problemas reais, hiperbolizados ou imaginários, em que não são capazes de reconhecer os indícios (por mais leves que sejam) de que o melhor pode ainda estar para vir, que a segunda parte do espectáculo pode ser bem melhor, até porque somos mais do que apenas “actores neste palco que é o mundo” (Shakespeare), somos protagonistas, realizadores e produtores das nossas vidas, assim tenhamos a força de vontade e de carácter para o assumir.

 

É neste ponto que amigos e família desempenham um papel fundamental num processo de tratamento. A energia positiva que transmitem, as gargalhadas partilhadas, as memorias mais felizes revisitadas, tudo aquilo que faz uma pessoa pensar que por mais merdosos momentos que a vida pode trazer, quem tem bons amigos e boa família (com mais ou menos disfunções, que todas têm) terá sempre razões para não querer trocar este mundo por outra coisa qualquer. Hão-de reparar que mesmo nas religiões que acreditam em vida depois da morte e reencarnação, há sempre algum nível de dor e luto, por se reconhecer que com “aquela” pessoa não se poderá voltar a interagir.

 

Até certo ponto compreendo melhor pessoal que a meio do tratamento desliga o “modo de sobrevivência”, por muito já terem sofrido, por não verem esperança. Não estou imune a isso, mas sei que antes de me acontecer, até à exaustão, várias vezes vou repetir a mim próprio a minha própria oração:

 

“não vieste até aqui para nada,

não fizestes todos estes sacrifícios para nada,

não fez tanta gente tanto sacrifício por ti para nada,

não vais desiludir a quem queres bem,

mandando a toalha ao chão numa briga que sabes ser até à morte”

 

Satura muito esta coisa de estar em “modo de sobrevivência”, e como escrevi noutro post, o truque agora é mesmo ter muita paciência. Ultimamente, ultrapassado este ultimo internamento, anda-me a desmontar a cabeça tomar tanta medicação, antibióticos que me provocam azia, ter tanta hora marcada para tomar a medicação. O que me anima é imaginar que a coisa podia ser pior … felizmente uma amiga enviou-me há dias um exemplo disso mesmo … imaginem que a medicação era ter de assistir a isto duas horas a fio por dia, todos os dias durante seis meses? http://www.youtube.com/watch?v=iyayw6H8wAU … falha-me poder de adjectivação, fica um sentimento … medo :-)

 

É claro que há outras alternativas que seriam bem agradáveis, por exemplo esta http://www.youtube.com/watch?v=MN6Sythj-bo&feature=related , apesar de lamentar o beijo e o anjo serem tristes em vez de alegres (andastes a ouvir fado a mais Paulo, o barco vai vazio porque está para se encher de algo, caramba)

 

E haveria uma outra ainda realçar, do Justino Madeira-Lago português, o T.T. (esse grande cromo), que só não chega lá por claramente não ter sido criada em formato kizomba de raiz http://www.youtube.com/watch?v=LIpbxnCTwBA , …  a serio, apelo a alguém que perceba do assunto, sou eu que sou duro de ouvido ou isto grita a kizomba de topo? Que alguém o mais depressa possível mostre a este “pula” como isto devia ter sido feito desde o princípio.

 

Aliviadas as imagens bélicas, que não consigo evitar de repetir, partilho convosco que estou imensamente contente por, semanas antes de ter os sintomas mais claros da doença, ter tido umas aulas de kick-boxing … sabem qual é a coisa mais difícil de fazer quando uma luva está a ir direita à vossa cara? Curiosamente, não é evitá-la (no limite desatamos a correr para longe dela), o que é realmente difícil é conseguir evitar fechar os olhos, ou fechar a guarda de tal maneira que se perde toda a visão … é uma das coisas mais difíceis e perigosas, porque normalmente não se recebe apenas um golpe, recebe-se uma combinação, se fechas os olhos ao primeiro, o segundo não vais perceber de onde vem porque já nem sabes onde o adversário está, o terceiro apenas o vais sentir a aterrar, por ai fora até que chega aquele que te põe KO, sem teres hipótese de contra-atacar com sucesso uma única vez.

 

Por isso senti, desde o inicio que tinha de encarar esta doença sempre de frente, nunca fechar os olhos aos golpes que ela me desse, saber encaixar não havendo como desviar e esperar pela minha chance de pagar-lhe em espécie … e mesmo depois de me dizerem que venci a doença, irei sempre manter-me vigilante, se tiver uma recaída, saberei reconhecer os seus sintomas cedo, tal como a Gigi o fez, mantendo a esperança tal como ela que esteja errado na minha avaliação, mas pronto a levantar a guarda a qualquer momento, tal como ela.

 

Portanto minha querida Gigi, dedico-te este post, ainda havemos de ir os dois a umas aulas de kick-boxing, vamos dar cartas nessa cena de não fechar os olhos (uma luvita não assusta quem passou o que nós passamos e vamos passar) só vamos passar mal quando deitarmos os bofes pela boca (é um dado adquirido).

 

Não, não te vou dizer “tem coragem”, nem vou dizer “tem força” … sabes o que tens a fazer, apenas te digo: vai e faz o que tem de ser feito, porque sabes como o fazer, porque sabes que vale a pena fazê-lo.

 

Posted by Michael at 16:59:56 | Permalink | Comments (3)

Thursday, July 3, 2008

Merda, sangue e pus – Parte II

Antes de recomeçar a narrativa, só para descomprimir, partilho um pequeno vídeo do youtube convosco que me foi dado a conhecer hoje ao almoço, não sem antes deixar claro que tenho todo o respeito pela comunidade gay, que não estou aqui a tentar chamar nomes a ninguém e é praticamente por mera coincidência que coloco este link num post onde falarei de toques rectais e na sequencia de um outro post onde falei de toques rectais http://www.youtube.com/watch?v=ODvHsiooCp0 … a sério ninguém leve mal, isto é apenas sentido de humor vulgar e doentio, mas é o que se pode arranjar e fez-me rir … gollum gollum

 

Volto à carga com o tema dos médicos. Ocorreu-me um pormenor importante, que devia ter colocado no post anterior. No dia em que me deram o clister, ele funcionou não de imediato, foi funcionando ao longo do dia, em conjunto com uma outra coisa que me tinha esquecido de partilhar convosco: descobri que se estivermos deitados e apoiarmos um laptop em cima do abdómen, ao fim de algum tempo, entre o peso da maquina e o calor gerado pela bateria, o meu intestino tem tendência a ser estimulado aa funcionar e as fezes tendem a sair ligeiramente mais moles (ou pelo menos assim me parece) … bem, funciona comigo, experimentem se quiserem.

 

Portanto nesse dia do clister fui a casa de banho umas 6 vezes desde o meio-dia ate à manha seguinte. A conclusão imediata da medica de serviço é que eu tinha diarreia … foi uma conclusão precipitada, que a fez retirar-me da prescrição os laxantes. Quando me apercebi disso pedi para falar com a médica, é que de facto tinha ido varias vezes ao WC, mas de cada vez tinha saído muito pouco (assim que sentia as dores não insistia mais) e as fezes eram sempre sólidas, não liquidas. Explicada a situação desta forma à médica, ela compreendeu melhor o meu estado e voltou a prescrever-me laxantes. Portanto meus caros, é nunca desligar o espírito critico e não ser acéfalos, o médico não tinha toda a informação, foi complementada essa informação com aquilo que lhe foi transmitido por mim e com base nisso evitou-se uma situação bestialmente desagradável para mim.

 

Finalmente colando a narrativa ao final do post anterior, depois do exame do proctologista, voltei ao quarto e algures a meio da tarde lá me volta a aparecer uma auxiliar com uma cadeira de rodas para o já famoso exame de raio-x … a ideia de ir neutropenico passear pelo hospital, para uma sala de espera onde o fulano ao lado pode ser um tuberculoso, para fazer um miserável raio-x de rotina, quando não tenho tosse, nem espirros nem expectoração, continuou a soar-me meio idiotica, senão mesmo irresponsável … mas tinha a “sogra” logo a viagem seria suportável e por outro lado sempre me tinham enviado ao medico especialista, logo numa lógica algures entre quid pro quo ( http://en.wikipedia.org/wiki/Quid_pro_quo ) do Hannibal Lecter com a agente Clarice no filme Hannibal, e o espírito da Máfia Siciliana, lá achei que contra o meu melhor julgamento lá devia ir fazer o estapafúrdio exame, a ver se me largavam da braguilha. Que fantástico mundo louco é este onde se mexe um doente internado nos Capuchos.

 

Bom, como já devem ter percebido, o meu estado de espírito, praticamente desde o inicio até ao fim do internamento, foi de uma crescente irritação.

 

A juntar à festa tinha ainda o tal desafio de me aguentar à bomboka com um abcesso no ânus, e correspondentes dores, sem data de fim previsível. Havia que tomar medidas.

 

Medida numero 1 – Em conjunto com o nutricionista Telmo (tipo impecável, infelizmente esticado para além do limite em termos de numero de doentes que tem de acompanhar) a minha dieta passou a ser de líquidos … sopita, bebidas e pudins de suplemento proteico, gelatina, passou a ser o núcleo central das minhas refeições. Como não me tinha sentado, ate dava mais jeito assim, fora a sopa tudo o resto conseguia meter à boca sem a ajuda da minha mãe … lado negativo … experimentem durante uma semana e descobrem rapidamente.

 

Medida numero 2 – Gestão de dor. Vou divagar agora um bocado já cá volto.

 

Não sei se já tinha contado isto, mas a seguir ao meu 1º ciclo A tive dor de cabeça durante 7 dias … sempre que me perguntavam de 1 a 10 quanto me doía, respondia 1 … má sorte a minha as dores ósseas que senti (sintoma da doença) durante o mês me terem forçado a redefinir a minha escala de dor. Resultado nesses 7 dias, por vontade própria apenas tomei uma vez um comprimido e um ou dois nolotil (analgésico intravenoso) … portanto fica estabelecido que em relação à dor não sou um caguinchas, até a tolero bastante bem … aproveito para anunciar que para além disso falo italiano fluente, com sotaque de Milão, portanto, damas, estão a ver, sou um Homem … com Classe … é a minha nova marca: HC (patent pending) … se o tony do Cristiano Ronaldo tem direito a ter marca CR eu também não faço a coisa por menos … mais, se eu tivesse o dinheiro dele não comprava um Bentley bimbo como o que ele comprou.

 

Divaguei … desta feita quando me perguntaram quanto me doía, de 1 a 10, respondi com uns sinceros 10 … aquele abcesso já me doía estivesse onde estivesse, fizesse o que fizesse, com o expoente máximo a acontecer nas mais que inevitáveis expedições ao WC.

 

Ora bem, doente com dores de nível 10 só há uma solução, ao que parece: morfina para os cornos. Tinha que levar com uma nova agulha independente da do soro, de maneira que tive dois enfermeiros de roda de mim a tentarem encontrar uma que funcione … a coisa foi meio complicada porque isto de veias anda agreste … várias tentativas até que uma teve sucesso … pelo meio algumas veias rebentadas … passados uns dias hematomas, etc … o habitual.

 

Ah, antes que me esqueça, 15 dias internado e da Cirurgia zero disponibilidade para um implanto-fixo. Vou a meio do tratamento, se o implanto-fixo não me for colocado a tempo de ser usado para o 3º ciclo A (duvido que chegue) sou eu que não vou querer mais essa maldita geringonça. Não há cão, caçarei com gato se for preciso.

 

Já duplamente entubado (por sorte no mesmo braço) lá me ligaram a uma máquina de morfina que dispensava 2 miligramas / hora. Dai para a frente tudo se torna meio confuso … aliás dai para a frente e dai para trás, porque nalgum momento a Teresa passou para outro quarto e eu fiquei com o companheiro Honorino na cama ao lado. O Honorino e eu temos a particularidade de termos o mesmo tipo de leucemia, e de andarmos a fazer exactamente o mesmo tratamento, eu avançado a ele cerca de um ciclo. É um senhor com mais alguns anos que eu, que no inicio do tratamento pensava demais e preocupava-se demais, mas que felizmente conseguiu alterar a sua atitude e tem revelado o guerreiro que há dentro dele, ajudando-se ainda ajudando quem o rodeia.

 

Tinha muito sono … quase sempre … excepto quando me irritava … e sede, muita sede, parecia que tinha sempre os lábios secos. Lapsos de memória tive n, até me esqueci de pessoas que me visitaram e que não me lembrava. Diz o Honorino que à noite por vezes não dizia coisa com coisa … adormeci várias vezes ao longo do Holanda-Russia, que era um jogo que aguardava ver com ansiedade … idem aspas na final do Euro2008, apaguei por mais de uma vez. Cheguei ao cumulo de em dez minutos ter adormecido duas vezes quando a minha tia e prima me foram visitar … levantava-me da cama, para urinar ou ir ao WC, andava meio tonto, foi uma inconsciência minha nunca ter pedido ajuda para ir ao WC, ia apoiado no bobby (diga-se de passagem que desta feita o bobby era uma classe, que maravilha, as rodas rodavam e tudo vejam lá! … todas elas!)

 

Para além do mais, a morfina não me eliminava as dores, apenas as mitigava a um ponto ao qual as conseguia suportar.

 

Em resumo, morfina é uma droga mesmo má, nem deu para ver elefantes a voar nem submarinos amarelos, nada … enfim, mais uma droga / químico no curriculum, que entre o meu pessoal amigo da Amadora me eleva a um estatuto de semi-Deus / Guru da químico-farmacologia experimental

 

Anotei com agrado que a companheira Irene me veio visitar … é claro que primeiro tive de a picar, afinal em todas as vezes que fui visitar o quarto onde ela estava apanhei-a sempre ora nas palhas deitada, ora nas palhas estendida. Caso claro que “refém da cama”, mesmo quando se podia mexer raio da rapariga deixava-se ficar na cama, na palheta com as outras, com as revistas, com a TV … enfim … por isso fiquei contente que ela tenha vindo visitar-me 2 vezes enquanto andei KO, por ter gostado da visita e porque ela sempre fez um pouco de exercício … agora só falta ela deixar de ser caguinchas em relação à punção lombar, não percebo como é uma rapariga daquelas tem mais medo de uma agulinha espetada nas costas do que de andar no comboio na linha de Sintra.

 

Divagando ligeiramente, a propósito de “reféns da cama” e juntando ao tema implanto-fixo, também continuo à espera do fisioterapeuta que iam requisitar para mim desde Março … avaliando pelo tempo mínimo (não exagero se estimar na ordem dos 5 minutos) que a fisioterapeuta que aparece lá no serviço tem para dedicar a companheiros em estado de quase imobilidade, só se pode concluir que fisioterapeutas também é produto de escassa oferta nos Capuchos. Votem Sócrates!

 

A certa altura, ao fim de vários dias, 6 ou 7, comecei a ter a sensação, quando ia ao duche, que o abcesso já não estava tão grande. As dores também me pareciam ter diminuído. Animou-me porque era sinal que o sistema imunitário estava a voltar a subir e estava a combater a infecção. Vi a luz ao fundo do túnel. Baixaram-me a morfina para apenas 1,6 miligramas / hora

 

Infelizmente pouco depois a veia que recebia a morfina deu o berro. Sem saber minimamente quantos dias ainda tinha pela frente, com escassez de veias por onde receber soro, antibióticos, magnésio, potássio e afins, tomei a decisão de pedir ao enfermeiro que não me fosse administrada mais morfina, para evitar ficar com menos uma veia disponível. Ele escalou o meu pedido ao médico de serviço, que veio perguntar-me se tinha a certeza que era isso que eu queria fazer. Confirmei-lhe a decisão, com disciplina e se necessário algum outro tipo de analgésico menos potente, ia tentar lidar com a dor.

 

Tive muita sorte porque a dor de facto estava a diminuir bastante. Tive menos sorte porque não fiz o desmame da morfina, de maneira que no dia a seguir tive uma valente de uma ressaca, mal me conseguia mexer na cama, cheio de frio, calculo que tive uma pequena amostra daquilo porque passa um toxicodependente a ressacar … garanto-vos que não é mesmo, mas mesmo nada agradável.

 

Na manha do dia seguinte fui ao WC, e para meu espanto consegui defecar sem sentir dores, e senti algo de estranho, liquido a sair-me do intestino … levantei-me e olhei para a sanita, cujas paredes estavam cheias de sangue e pus … o abcesso, qual fruto que cai maduro, tinha drenado por si mesmo … não sabia se isso era bom ou mau, não sabia se o meu sistema imunitário já estava ok, não sabia se já tinha plaquetas ok, sabia apenas que deste abcesso já me tinha livrado … de maneira foi numa mistura de medo, choque e acima de tudo alivio que voltei para a cama, pelo caminho, informando os enfermeiros que me parecia que o abcesso tinha rebentado.

 

A médica de serviço veio ver-me … não havia hemorragia, mantinha-se era a duvida se o abcesso tinha drenado por completo. Fiquei mais descansado, afinal a origem da dor que me atazanava há mais de uma semana tinha desaparecido … mas como nunca há bela sem senão nos Capuchos, tinha que ter mais um encontro com o Mr Fingers, o proctologista … “em breve há-de me ter o dedo enfiado no cu outra vez” calculei eu … e calculei bem, logo pela manha do dia seguinte.

 

Desta feita a coisa foi menos custosa, já não deu para chiar. Também não quiseram ver TV Colón, o que por mim foi noticia jóia, do best … “ah e tal, isso parece que drenou mesmo tudo, daqui por um mês era bom voltares cá para fazermos uma nova avaliação” … deve estar mas é maluco, daqui por um mês quando voltar a fazer um ciclo B só lá vou se alguém do serviço que lê este blog se chibar que fiquei voltar ao proctologista, por mim a coisa fica por aqui e já chega, boa noite e um queijo da serra … amanteigado.

 

Volto à enfermaria para descobrir que apenas esperava a confirmação do proctologista que tudo estava ok para me darem alta … oh que coisa maravilhosa porque a sério, estava saturado e irritado de ali estar, irritado com injustiças que vi, com injustiças que me foram contadas por terceiras pessoas, irritado por não poder confrontar certas pessoas com essas injustiças para não prejudicar essas terceiras pessoas, enfim, estava puto da vida com tudo aquilo, ainda mais do que estava com as dores que tinha sentido.

 

Mas enfim, o que interessa é que estou a meio do tratamento, dentro de dias saberei se a remissão já é completa, não volto a estar internado durante os próximos 30 dias calculo, sinto-me bem e feliz, o resto é conversa.

Posted by Michael at 23:50:36 | Permalink | Comments (4)

Merda, sangue e pus – parte I

Eis-me de volta, e com um titulo de post digno de Quentin Tarantino … aliás faltam-lhe os cojones para realizar um filme com um titulo destes … isso ou um pedaço de quimio ou morfina nas veias … mas não nos adiantemos demasiado, ando a tentar fazer uma serie de coisas sem me precipitar, este post é apenas mais uma dessas coisas, de longe a mais importante.

 

Pensará o leitor, será este um daqueles posts estranhos de um daqueles gajos estranhos meio para o gótico ou de alguma outra forma afectados por alguma espécie de fetiche? … respondo desde já que não, mas não resisto a dar um pouco de publicidade ao ultimo trabalho dos Moonspell, que são tugas e dão cartas no mercado deles, aqui vai: http://www.youtube.com/watch?v=ZQnnws9sq9I

 

Voltando ao tema central, eis senão que na noite do dia em que escrevi o ultimo post tive uma bela duma febre e fui de charola para os Capuchos … apenas passei 2 dias em casa depois de ter alta a seguir ao 2º ciclo B, tendo depois ficado 15 internado nos Capuchos para recuperar da ressaca da quimio.

 

Podia ser portuga e dizer “epá que galo, nada me corre bem, sou um desgraçado” mas não faz o meu género e acho que fui responsável por isto … ou se não fui cometi alguns erros na noite em que me veio a febre que devo partilhar convosco

 

Bom, como já devem ter percebido tive febre na noite de 17 para 18 de Junho. Esta febre pode ter tido duas origens:

 

A – Tinha uma infecção urinaria, que não foi detectada pelos médicos durante o internamento, nem debelada pelo meu sistema imunitário antes de ele ter ido ao ar (e foi ao ar bem cedo desta vez)

 

B – Lembram-se nas dicas de eu ter dito para não se forçar a coisa quando se está na sanita? Pois é, mea massima culpa, forcei e arranjei um belo sarilho que explorarei mais a frente e que inspira o titulo do post

 

Lições aprendidas com estes acontecimentos:

 

1 – Esta sacana desta doença é mesmo imprevisível, depois do 1º ciclo B aguentei em casa 7 dias ate chegar a zeros no sistema imunitário, desta feita aguentei apenas 4 dias ou lá o que foi. A matemática não funciona muito direita com esta cabra, deve ser de a axiomática ter sido definida Amy Winehouse ou coisa que valha, essa grandessíssima bêbeda e drogada (curtia conhece-la, deve ser uma chavala fixe para umas gargalhadas, assim apenas entre em overdose ou coma alcoólico ao pé do manager dela que é não eu para não ter de stressar com isso, já não tenho pachorra para pessoal em modo de auto-destruição)

 

2 – A seguir a um ciclo B é má ideia pedir à minha mãe para não dormir lá em casa. Andava para ter esta conversa há algum tempo com ela, afinal ao fim de 6 anos a viver praticamente sempre sozinho como um solteirão boémio, ter de encaixar voltar a viver com a mamã durante pelo menos 6 meses é algo que custa mais do que podem imaginar, por mais útil, prestável e quase invisível que a minha mãe tente ser, precisava de lhe dizer que, entre internamentos, precisava (preciso) por vezes de estar sozinho e de ter a casa toda para mim, para estar à vontade e fazer o que me dá na telha. A conversa, como imaginam, não foi fácil, deu direito até a algum stress, mas tinha de acontecer. O timing é que foi uma bela bosta, é que tive a febre quando não tinha ninguém em casa para me ajudar.

 

3 – Como da 1ª vez, vi a febre a chegar quando me fui deitar e controlei 37,8º no termómetro. Armado em parvinho, em vez de me vestir e chamar um táxi ou alguém e pôr-me a caminho do hospital, deitei-me. Fui-me controlando de hora a hora … 38.1º … 38.3º … e o tonto enroscado na cama a ver se por alguma arte magica a febre descia (afinal já sabia que ia ficar internado e não me apetecia nada que isso acontece apenas tendo estado em casa 2 dias) … 38.4º foi o meu limite, as 4 da matina liguei à minha irmã e ela veio-me buscar para me levar ao hospital. Estupidez pura e simples da minha parte … ainda por cima não sabia mas ao que parece quanto mais tempo temos febre mais as plaquetas vão ao ar.

 

Lá a meio da madrugada dei entrada nas urgência de hematologia, procedimentos habituais em vigor, esperar para ser observado pelo medico, levar raspanete por ter metido um ben-u-rom em casa para baixar a febre antes de me por a caminho do hospital, sacar sangue para hemoculturas (agricultura de bichezas estranhas que se passeiam no meu sangue), agulha no braço para receber soros e antibióticos … valentes horas de espera pela manha, tremores, suores frios, desconforto generalizado, sentado num cadeirão praticamente o dia todo ate que uma cama vagasse no SO para meter o pijama azul bebe hospitalar e instalar-me na rotina hospitalar novamente.

 

Má sorte não gostar de canja, por isso passei o dia a comer papo-secos e pão-de-leite, o que não ajudou em nada o estado de prisão de ventre que tinha começado a desenvolver.

 

Conheci o companheiro Augusto, alentejano de 50 e muitos, tipo porreiro e simples, mais um que andou meses a ser enrolado num centro de saúde qualquer a levar transfusões de sangue antes de ter aparecido alguém com 2 dedos de testa para escalar o caso para um hospital onde fizessem uma biopsia ou mielograma ao homem.

 

Lá vi a Seleção levar na pá da Alemanha, mas novamente não caio aqui na vulgaridade tuga de criticar só porque perderam, afinal não jogaram nada mal, correram, e não fosse o “empurrãozão” do Ballack e do arbitro germanófilo a coisa no mínimo ia para prolongamento e ate os comíamos. Foi chato, mas como eu já descobri há muito tempo que não há justiça no mundo, pela maior variedade de razões não existirá também no mundo do futebol, essa suposta “escola de virtudes” … e seja como for eu tenho leucemia, estou-me bem a borrifar para a Selecção, se ainda fosse o Sporting, que esse é sempre de Portugal todos os dias da sua existência, ao passo que a selecção só é nacional nos dias de jogo, que depois é cada um por si, venham os contratos milionários.

 

Só me chateia que tinha combinado ver o jogo com amigos, por isso ainda pensei em iniciar uma petição à UEFA para repetirem o Euro2008 e fazerem uma espécie de Euro2009, pode ser outra vez lá na Suíça/Áustria que é bonito e verdinho e mija chuva todos os dias no Verão que é uma maravilha … em vez disso fui dormir, afinal enquanto o seleccionador nacional não for homem do agrado do Pinto da Costa ele nunca irá enviar “fruta” da boa aos árbitros dos jogos da Selecção para ver se ganhamos uma finalmente.

 

Duas noites passadas no SO e abre vaga na enfermaria … yupiiii … vantagens da enfermaria sobre o SO, várias:

- Não se atura o granel e o barulho das urgências o dia todo

- Uma mesinha de cabeceira para as tralhas todas (laptop incluído) porque no SO só se tem direito a um banco onde pousar o telemóvel, o carregador, lenços e aguas

- Camas que sei manobrar para poder estar mais sentado/deitado consoante me apetece sem ter que chamar uma enfermeira ou auxiliar

- Last but not least, a possibilidade de escolher que raio se come … é que adivinhem lá, mais uma vez, em 3 refeições possíveis, 2 eram com arroz, e a 3ª era um peixe espada grelhado, com batata e brócolos, ao qual se esqueceram de acrescentar os brócolos … comi só o peixe, porque usando as palavras imortais do falecido companheiro Aurélio “a batata nã vale nada, é espanhola” … pois meus caros espanhóis, até podem ser campeões da Europa, mas a vossa batata não vale nada.

 

Antes de passar para a enfermaria o nutricionista passou pelo SO e prometeu que a senhora do catering que toma nota do que o pessoal pretende comer durante o fim de semana ia aparecer no SO e anotar as minhas opções … ainda bem que não sustive a respiração à espera que ela aparecesse!

 

Quando passei para a enfermaria pedi o livro de reclamações, tinha queixas a fazer sobre o catering do internamento no ciclo B e do internamento no SO. Não há livro de reclamações no serviço (o que achei meio estranho … ou será que devia achar naturalíssimo? Floribella mode, estou tão confuso) mas em compensação a enfermeira-chefe veio falar comigo, expus a situação e estou convencido que aquilo de alguma forma há-de ter servido para alguma coisa.

 

Desta feita, à semelhança do primeiro internamento, fui parar à enfermaria das mulheres. Fiquei na mesma cama onde já tinha estado, a cama onde por acaso também faleceu o companheiro Aurélio. Sei que não quer dizer nada, mas não consegui não pensar nele de vez em quando nestes 15 dias.

 

Comigo no quarto estavam as companheiras Teresa (3ª recaída, uma veterana e das valentonas), Isabel (recentemente internada) e Matilde (uma veterana do internamento, já não me consigo lembrar há quantas semanas aquela senhora ali está internada, lembro-me dela do tempo do meu primeiro internamento, façam as contas). Boas companheiras todas elas, infelizmente por um motivo ou outro, todas vomitavam varias vezes ao dia, todos os dias. A D. Isabel acho que era por causa do sistema nervoso, tal como eu estava nos primeiros dias do meu primeiro internamento. Passados uns dias acalmou-se e não voltou a vomitar.

 

Perdi mais um companheiro desta vez, o João Martins. Tipo impecável, era modelo do Nuno Gama, o estilista. Conheci o João por intermédio da amizade que as nossas mães travaram enquanto esperavam pelas horas de visita. Falei mais tempo com o João no dia em que ele soube que tinha tido uma recaída, tentei anima-lo o melhor que pude, mas ele psicologicamente estava muito na merda … não é de admirar, fez o tratamento todo, que lhe custou e muito, ao fim de 3 semanas depois de ser dado como curado a cabra voltou para o atacar. Acho que no fundo ele estava consciente que a toxicidade da quimio ia aumentar e sentia que não ia aguentar o tratamento.

 

Quando fui internado e ainda me conseguia mexer fui vê-lo no primeiro dia, mas nos seguintes já ele estava tão mal que ia vê-lo à mesma, mas optava por deixa-lo descansar e preservar as forças para falar com a família e amigos próximos. Até que houve um dia em que os enfermeiros me disseram que era melhor não o ir ver, pouco depois disso foi transferido para S. Jose, onde faleceu. Puta crueldade o que lhe aconteceu.

 

De positivo no meio disto tudo é que fiquei a saber que o Sr. Nuno Gama, para alem de patrão / cliente era um amigalhaço de primeira, perto do fim se não me engano todos os dias foi ver o João, um amigalhaço e um Senhor com S maiúsculo..

 

Fora o falecimento do João, os dias foram passando mais ou menos sem historia … passei o fim de semana a comer o que se lembravam de me trazer, não fosse a Xi (uma senhora do catering de origem macaense que é uma jóia de pessoa) ainda a ter o cuidado de me oferecer alternativas quando existiam e acho que não tinha comido nada feito pelo catering durante o fim de semana … minto, o Bacalhau à Zé do Pipo estava uma classe, recomendo. Na TV como é habito, nada de jeito, fora o futebol. Na PSP (não é a policia, é aquela consola pequenina, de jogos) joguei muito FM2008, simulador de estratégia de futebol e levei o Sporting ao título nacional. Não sei porquê não me preencheu muito esse feito.

 

Entretanto a prisão de ventre mantinha-se. Laxantes para cima e nada. Cada tentativa que fazia para ir ao WC, mais me doía o esforço de evacuar. Um belo dia acordei com uma bela dor no rabo, que de bela não tinha nada, mal me podia sentar. No duche passo mão pelo rabo e sinto um alto … pois é, tinha um sacana de um alto dentro do ânus que, sem fazer favor devia ser do tamanho de um ovo de tartaruga … se os tivesse, teria pensado para os meus botões “puta que pariu, só me faltava mais esta” … mas como estava nu, não tinha botões com os quais pensar, logo devo ter pensado apenas “ora bolas, que maçada” por isso escuso de passar por javardão neste blog outra vez, proferindo palavrões e obscenidades sem necessidade.

 

Lá informei os enfermeiros, que lá informaram a medica de serviço, que lá veio ver-me. Já não me lembro o que ela fez, sacana da morfina é do pioro para memoria (esperem la chegaremos). Deram-me uma pomada que devia aplicar internamente duas vez por dia … “porreiro, cenas para enfiar pelo rabo” pensei eu … não fez absolutamente nada a porcaria da pomada. Também fiz gelo, que fundamentalmente fez-me ter frio no rabo, sem efeito visível no alto que eu tinha … se calhar estou a ser mauzinho, afinal estava neutropenico e aquilo manteve-se sempre mais ou menos do mesmo tamanho, de maneira que gelo, pomada e antibiótico em conjunto sempre conseguiram manter a infecção controlada.

 

Vieram varias vezes perguntar-me se queria algo para as dores mas recusei sempre, não queria ir ao WC anestesiado e pôr-me a força como um animal e rebentar aquela porcaria. Acabei por aceitar apenas uma pomada anestesiante para aplicação externa, para estar menos desconfortável na cama.

 

Cada vez que me tentava sentar era umas dores que não podia. Dava-me um arranque para ir ao WC era umas dores que desistia logo de fazer qualquer tipo de esforço para evacuar. Passou um dia e o cenário repetiu-se. Alguém, deve ter sido a médica de serviço, prometeu-me que um médico especialista (proctologista) havia de me ir ver nesse mesmo dia … novamente dei-me por contente não ter sustido a respiração à espera do fulano.

 

Nesse dia, ai a meio da tarde aparece uma auxiliar com uma cadeira de rodas para ir tirar um raio-x. Só uma alma esperta é que se lembra de mandar um doente que não consegue sentar-se, ir de cadeira de rodas ate ao raio-x, esperar um boi de tempo sentado na cadeira de rodas que o raio-x esteja livre e depois regressar de cadeira de rodas, ainda por cima neutropenico logo a ideia de andar a passear pelo hospital e expor a ainda mais bactérias um doente, que não tem tosse nem expectoração, para um raio-x de rotina ao tórax, ainda mais de gente esperta parece.

 

Disse e repeti à auxiliar que não ia fazer raio-x nenhum sem um medico vir falar comigo a respeito disto. Nesse dia nunca mais vi a auxiliar, nem médica nenhuma, nem a cadeira de rodas. Acho que fiquei com fama de ser um doente “difícil”, que não “obedece” ao que o médico diz … guess what, se o médico é um abrunho a ponto de mandar fazer um exame daqueles na condição em que eu estava, sem sequer se dignar a vir explicar-me minimamente a que propósito ia fazer aquele exame, não obedeço não senhor que não sou um cão, sou leucémico mas não sou estúpido e sou um homem, e como homem digo a todos os médicos que acham que deve ser feito tudo como bem entendem, sem explicarem a ponta de um corno a um doente (lúcido e na posse das suas faculdades mentais), por mais desmiolada que a coisa soe ao doente: ide todos enfiar a merda do canudo de medicina onde o sol não brilha, seus bois/vacas de merda! E já que estão nisso, aproveitem para aprender a tocar uma gaita de beiços … pronto, tá dito, venham as consequências!

 

Prosseguiu o dia com mais laxantes para cima e nada, vinha-me a vontade de ir ao WC, fazia só um pouco de nada de força e sentia logo umas dores de parto, varias vezes vi-me quase a desmaiar na sanita com dores. Já noite dentro volto a ter dores, lá se convencem a dar-me Microlax. Pedi logo uma arrastadeira, já sei que o Microlax comigo demora pouco a dar efeito e que não ia conseguir chegar ao WC sem me borrar nas calças. Com imenso desconforto e outros pormenores que escuso repetir, não vá alguém ler isto e perder o apetite (deixo apenas como dica que ter aqueles toalhetes de limpeza dos bebes por perto dão um jeitão do catano), lá consigo fazer meia dúzia de caganitas … muito pouco para 5 dias ou lá o que era que levava sem conseguir evacuar.

 

Dia seguinte, repete-se o filme, vou ao WC, dores imensas, quase desmaio, volto ao quarto, paro no corredor perto de uma enfermeira, dobrado com as mãos apoiadas nos joelhos e as pernas a tremer ainda das dores que sentia da ultima tentativa frustrada de evacuar. Acho que comecei a alçar o tom de voz, acho não, levantei mesmo, a pedir um clister e a perguntar pela porcaria do medico que me tinham prometido no dia anterior … a sério, estava num estado que ninguém naquele serviço me reconhecia, nunca tinha levantado a voz para ninguém mas já não podia com dores.

 

Felizmente os enfermeiros, ao contrário de certos e determinados médicos, têm sensibilidade para perceber quando uma pessoa chegou ao limite. Não sei, mas cheira-me que deve-se a passarem mais do que 2 minutos por dia a falar com o doente e a perceber como ele se sente … não sei, desconfio. Isso, não terem egos do tamanho de Saturno e conseguirem ver para além do próprio umbigo.

 

Aplicaram-me o clister, precedido por um bocado de pomada anestesiante aplicada internamente e toque rectal (o primeiro de vários neste internamento) a ver se havia fezes sólidas a bloquearem a saída. Mesmo com o clister, que devia ter um efeito mais ou menos imediato, a coisa demorou imenso a actuar. Quando actuou já não senti tantas dores e consegui evacuar um pouco mais do que o habitual … mesmo assim muito pouco para tantos dias de prisão de ventre.

 

Ponto de reflexão sobre o toque rectal … não me embaraça falar sobre ele, fiz o primeiro aos 13 anos, salvou-me a vida com o diagnostico correcto de uma peritonite (apendicite em estado avançado, com perfuração do intestino e consequente risco iminente de morte) quando o medico que anteriormente me tinha visto tinha-me diagnosticado uma gastroentrite.

 

Há muito homem que vive por ai meio assustado com este fantasma de um dia, Deus nos livre, lhes enfiarem um dia um dedo no cu … são tolinhos, coitados, porque se safarem a hemorróidas, colonescopias etc …, quando chegarem ali aos 40 e qualquer coisa, em qualquer check up digno desse nome, não se safam do toque rectal para controlar volume da próstata, é um dado adquirido, a menos que não queiram saber se têm cancro da próstata até ser tarde demais, como acontece a muito infeliz.

 

A todos esses homens digo, epá no máximo tenham medo é de gostar, porque de resto, se acham que a vossa masculinidade está presa por um fio tão pequeno, é porque nunca foi grande coisa para começar.

 

A minha mãe comprou-me uma daquelas almofadas para conseguir estar sentado com um mínimo de desconforto, chamam-lhe as “sogras”, não necessariamente por causa do grau de parentesco, mas porque já aquela cenas de por na cabeça para as velhotas lá nas aldeias transportarem agua e mais não sei o que na cabeça já se chamavam “sogras”, portanto cenas almofadas em forma de donut são chamadas “sogras” independentemente da função … vendo a historia tal como a comprei, acredita quem quiser.

 

Abençoada “sogra” que me permitiu ir de cadeira de rodas ao encontro do médico proctologista, com 24 horas de atraso mas lá me mandaram ao especialista. Tipo simpático, até bastante meigo para medico … acho que o truque está em ser muito meigo antes de nos enfiarem um dedo no cu e nos porem a a chiar que nem porcos.

 

Reparei numa cena particular nos médicos, que é o de por vezes fazerem perguntas perfeitamente inúteis, às quais respondemos mas que eles desvalorizam por completo. O primeiro exemplo foi o Dr. Ernesto (tipo impecável), no primeiro dia de internamento na ala dos homens, depois de transferido da ala das mulheres. Vai-me examinar pela primeira vez e pergunta-me assim, naquele tom calmo e solene que o caracteriza “O Michael por acaso tem hemorróidas?” … Eu respondo “Não doutor” … ao que ele responde “Vire-se de lado e baixe as calças, quero dar uma espreitadela” … francamente doutor, se de qualquer maneira ia “dar uma espreitadela”, porquê fazer a pergunta se tenho hemorróidas?!

 

O 2º exemplo foi com este proctologista. Lá estou eu de 4, rabo espichado, calças em baixo, com todo o esplendor da minha base lunar alpha exposta aos elementos, vira-se o doutor e pergunta “então diga lá mais ou menos, onde tem o alto?” … começo a responder “olhe é mais do lado esquerdo” e ia a virar-me para apontar o sitio quando ele me diz para me manter na posição em que estava … ok … a cena seguinte é surreal, só vista porque contada acho que não vão acreditar … toca a enfiar o dedo e só o ouço a dizer “então está-me a dizer que o alto é mais para este lado” e acto continuo mexe o dedo contra a parede esquerda do meu cólon … começo a urrar que nem um urso “sim … fffffffoda-se …é ai mesmo” ainda digo … volta o medico à carga “então para este lado nada, certo?” e mexe o dedo para a direita … “não, ai não dói” digo eu enquanto penso “não dói em termos relativos porque estás-me abrir o olho todo do cu oh meu cabrão!” … volta ele à carga só por descargo de consciência “então é mesmo para este lado que lhe dói, certo?!” e volta a mexer o dedo para a esquerda … mais urros meus, mais altos desta vez que parece que ele não tinha percebido a dica à primeira.

 

Sai dedo, respiro de alivio, mas apenas por segundos porque ouço o medico virar-se uma medica e dizer “oh colega venha cá ver isto” … mas ver o quê porra?! Não está mais que visto?! … dedo no cu e o medico vira-se para a medica “parece-me um abcesso instalado no lado esquerdo” … foi tipo laser a teleguiar o míssil ao alvo, dedo vira logo à esquerda, o Michael urra e chia que nem um porco … “para a direita não tem nada” … dedo para a direita … valha-nos a sensibilidade das mulheres que achou desnecessário voltar outra vez à esquerda, percebeu a minha chiadeira de suíno à primeira.

 

Pensava que já estava safo, mas não estava, faltava darem uma olhada com uma câmara … “fantástico”, pensei, “mais merdas para me enfiarem na peida” … a câmara pareceu-me ser menos grossa que um dedo, mas vibrava de uma forma desagradável. Imaginei que a médica estava a fazer aquilo tudo mais ou menos como eu faço zapping cá em casa nos 4 canais aberto … merda … zap … mais merda … zap … ainda mais merda … zap … olha fixe, um abcesso … bom na verdade o mais frequente é dizer merda 4 vezes de rajada e vir para o PC, temos uma televisão muito fraquita mesmo.

 

Voltei a falar com o médico, diagnostico formal: abcesso interno … procedimento normal, lancetar e drenar … como eu estava neutropenico essa opção estava fora de questão, sob risco de a infecção, que estava contida, alastrar.

 

Opção b) cerrar os dentes e aguentar-me à bomboka, ou que os valores subissem para me lancetarem, ou que o antibiótico, pomadas e gelo resolvessem ou que o abcesso drenasse por si próprio no belo dia em que lhe apetecesse … em resumo viver com a dor, por tempo indeterminado

 

Bom, isto vai já longo e acho que só vou a meio. Parte II segue em breve. Vou dormir muito contente por causa de um sms que recebi, mas que não vou partilhar convosco. Saibam apenas que estou muito feliz :-)

Posted by Michael at 01:45:37 | Permalink | Comments (2)