6 Meses depois – reaprendendo a “viver”
A boa 1ª noticia é que continuo vivo. A 2ª boa noticia é que não tive recaída até ao momento.
Apesar de não poderem ser comparáveis aos meses que passei em tratamento, em termos de risco, dificuldade e dureza, não se posso no entanto dizer que foram simples ou fáceis.
Em primeiro lugar, em Janeiro tive de ser internado novamente com uma pneumonia. Essa é a realidade incontornável que me rodeia nos dias que correm, tenho um sistema imunitário frequentemente deficitário. Com alguma facilidade fico doente, e com dificuldade ultrapasso as doenças.
Com isto vem claramente associadas questões a nível de auto-confiança e de qualidade de vida. Continuo a pensar três vezes antes de sair de casa e de ir a algum lado, são muitos prós e contras em cima da mesa. A minha vida não voltou a ser o que era antes da doença, nem de perto nem de longe. Sinto-me limitado e inibido por regras intuídas (talvez por excesso?) ou aprendidas por erros próprios e não escritas em lado nenhum.
O tratamento de manutenção que faço é uma parte fundamental de toda esta equação de “vida normal”. A quantidade de quimio que continuo a ingerir, seja por comprimidos, seja por via intravenosa é ainda assinalável, e acertar na dosagem correcta não é, de todo fácil. Oscilações de peso, oscilações de nível de actividade / repouso … oscilações de sabe-se lá o quê … têm motivado vários acertos à dosagem. Recentemente andei mesmo muito preocupado com isto, na medida em que os valores do sistema imunitário andaram demasiado baixos … felizmente recuperaram.
A conclusão fundamental a que cheguei é que de todo não poderei reassumir níveis de actividade semelhantes aos que tinha antes da doença enquanto me mantiver neste tratamento de manutenção. Tendo de dedicar mais tempo ao repouso, o problema agora torna-se conciliar uma vida social com uma vida profissional … sendo a 2ª mais intransigente que a 1ª, com tristeza noto que tenho menos tempo para estar com amigos, o que me entristece profundamente.
Entristece-me profundamente muitas coisas que podia fazer e que já não posso.
Não há outra forma de encarar isto, aquilo porque passo neste momento trata-se de um processo de reaprender a viver. Não posso voltar ao que era (poderei alguma vez?). Não posso sonhar com o que sonhava. Não posso agir como agia. Todos os dias vivendo na ameaça da recaída … por mais que tente, é raro o dia em que o meu pensamento não se dirige a essa ameaça.
Uma vez por mês faço analises ao sangue … o nível de ansiedade nessa altura dispara bastante … será que a doença voltou? … se voltou, foi por causa de eu ter exigido demais de mim próprio? … ando as apalpadelas a tentar aprender o que devo fazer para evitar que a doença volte … para além de descanso e medicamentos ninguém parece ter respostas, o que me parece pouco para a quantidade de apalpadelas que dou, nestes 1001 cuidados de que me rodeio e com os quais construo as minhas muralhas, não sei até que ponto meros castelos de areia.
Infelizmente, continuo também a ter companheiros que aparecem com recaídas. Algumas situações parecem bem encaminhadas, outras parecem desesperadas. Uma delas pena-me em particular … é muito duro considerar morta uma pessoa que ainda sobrevive, especialmente quando se trata de um amigo … como visitar e falar com um amigo quando a única coisa que nos passa pela cabeça é perguntar: “sabes que estás fodido, irmão?”
É incrivelmente assustador perceber que, por mais que tentemos, não conseguimos controlar a nossa vida. Viver a vida tendo sentido na pele que todos os planos, sonhos, ambições e capacidades que tens te podem ser retirados de um momento para o outro … é algo muito pesado. Tenho pelo menos mais ano e meio de tratamento de manutenção pela frente. São 18 meses em que as minhas ambições se resumem a não ter recaída e a manter-me minimamente independente. Poucas ambições para quem tão alto sonhou.
Na verdade seria uma vida bem estúpida, se não estivesse nela a minha Marisa. Agora que reflicto nisso com mais calma, constato como é fácil perdermos de vista aquilo que realmente é importante. A nossa relação segue forte, ela com paciência inesgotável para o meu mau feitio, para a minha debilidade física, para os meus períodos de ansiedade … e eu com receio de não conseguir demonstrar como ela é importante e especial para mim. Essa é a minha verdadeira ambição agora … seguir junto com ela pelo caminho que tivermos pela frente, fazendo eu os possíveis para me libertar das ameaças e restrições que me cercam, sem esquecer quem sou, sem esquecer que lhe quero dar tudo aquilo que puder, sem esquecer que o mais importante nisto tudo é fazermo-nos mutuamente felizes.
Em jeito de conclusão, estes 6 meses não foram fáceis, parece-me que os próximos 18 também não serão melhores. A sensação que se tem é que se vive numa prisão. O tratamento da leucemia é assim uma espécie de “cela solitária”, muito duro, muito restrito e confinado. Quando começa a manutenção, a prisão já se torna mais espaçosa, há espaços de convívio, há “saídas precárias” … mas as restrições mantém-se lá, a ameaça de voltar ao buraco também e tens de lidar com isto tudo ao mesmo tempo que te reinventas para a vida, para o trabalho e para a sociedade.
Sem sombra de duvida é que a minha sorte é que faço esta estrada, rumo ao fim dos tratamento, em excelente companhia. Como é bom ter bom vento nas velas e não avançar apenas com base em mau feitio marca “Ferreira”.
“O sonho comanda a vida” dizia o outro … sonho estar curado, sonho ser diferente para melhor, sonho não perder de vista o que aprendi ser realmente importante, sonho não perder o que há muito procurava sem sucesso … sonho com um “pote de ouro” no final desta grande experiencia ou caminhada de humildade … e sonho dentro de 18 meses poder partilhar convosco mais sonhos.
Um passo de cada vez estás a dar. Já estás em casa ha algum tempo, voltaste ao trabalho, já estas com os teus amigos mais vezes que durante o internamento. Passaste por momentos difíceis, no entanto, as coisas a pouco e pouco vão melhorando. A tua menina está contigo porque gosta de ti e por isso vai com certeza continuar a estar mesmo quando dizes ter mau feitio. Há quem diga que só nos mostramos a quem realmente gostamos. Um passo de cada vez =)
Beijinho e força nisso;)
Felicidades!!!
Acreditar foi este o lema que sempre segui.
hoje passados 4 anos tenho uma vida normal retomei o trabalho e sigo em frente.
No amanhã raramente penso…fui bem ao fundo do poço,chorei muitas mortes de amigos que não deviam ter partido,mas a vida é isto mesmo.
Uma L.L.A.virou a minha vida do avesso,mas ainda aqui estou,sempre a acreditar.
Michael, é dificil o regresso á dita “vida normal”, aliás acho que nunca mais voltamos á mesma vida. Mudamos a nossa maneira de pensar e de vivermos. Pensamos sempre no nosso sistema imunitário e de que forma certos sitios nos podem afectar. Mas, com isto tudo perdemos algumas coisas, amas olha que no fim ganhámos muito mais… aprendemos a dar valor à nossa vida e a perceber o quanto tão insignificantes certas coisas se tornaram!! Viva la vida, como alguém disse!! E pensa uma batalha já foi, e mais um tempinho a guerra foi vencida!! beijocas Silvia
Olá Michael!
Encontrei o seu blog numa pesquisa sobre leucemia. Apreciei bastante o seu registo, com o qual me identifico (a cena com a enf. da gastro, revela bem o seu carácter). A vida está cheia de surpresas e nem sempre boas. Mas se você for um teimoso como eu acho que é, essa leucemia vai levar mas é uns lambadões!!! Força! Viva um dia de cada vez e sempre confiante que amanhã será um dia melhor! Melhoras e cumprimentos!
VS
Olá Michael
Foi bom saber noticias tuas! Não desanimes que são 6+18 meses na vida de uma pessoa? Força que estás no bom caminho, melhores dias vão vir, tens de pensar apenas nisso e estes 6 meses foram de certeza os mais duros agora serão certamente mais leves.
Muitos beijinhos e muita saude e sorte para o futuro.
Emilia
Que vos seja devolvida a leveza de viver. Sem medos. Sem receios.
Mana da Nídia,
Oi Michael! Lembre-se apenas que vc continua a viver e que enquanto respirar deve aproveitar cada segundo para apreciar a vida que tem. Fé é acreditar, então tenha fé, acredite na sua cura e tenha sempre a certeza que nunca estará sozinho nesta “cela” da leucemia, todos estão ao seu lado e nunca te abandonarão.
Bjs e saúde, muuita saúde!
Carla-Brasil
Sou jornalista. A sua lucidez e escrita comoveram-me.
miriamassor@yahoo.com
Miriam Assor
Humm. Acho que te faz bem voltar à escrita dps de 6 meses. Embora ver isso assim escritinho, preto no branco, custe tb de ler a quem como je vos tenta acompanhar o melhor q se consegue.
but carry on, and enjoy the momment!
Nuno
E o poker? n se arranja?
Michael, sou tia da Vitória uma menina de 5 anos , que foi diagnostica com leucemia mieloide aguda M3 , a semana passada ela estava de férias na praia, hoje no Hospital.
Estou muito triste e buscando respostas pela internet e um porquê, que vc. mesmo diz que não existe e todos os médicos por aqui também.
Foi ótimo ler sua história de luta e vc. escreve muito bem, sei que vc.é jovem e parece que 18 meses é uma vida, meus avós eram portugueses e duraram muito o sangue português é muito forte , tenho certeza que vc. sairá desta e terá uma vida plena.
Um abç
Luciane ( de São Paulo)
viva Michael!
tens um grande defeito…”bibó F.C.P”, digo eu!
Fora de brincadeiras, todos os que lutam contra uma doença cancerosa, assim como os que lhe são mais próximos, têm de ser uns verdadeiros guerreiros e já vi que tu o és. Continua a escrever, a partilhar com outros o que se passa contigo, faz-te bem a ti e a outras pessoas.
já passei por um cancro gástrico, há nove anos. Um irmão meu já partiu, vítima de um cancro na boca, há dois anos; neste momento tenho uma netinha linda de 4 meses, cuja mãe, minha filha, anda a lidar com um linfoma detectado na gravidez!
Força, sim?
bjs
Libânia Neves
Olá Michael,
Abençoado seja o dia em que descobri o teu blog há quase 1 ano atrás atrás enquanto pesquisava informações sobre a doença. Nesse mesmo dia começei a ler a tua história – as tuas crónicas- que me comoveram e não consegui parar: tive mesmo de ler até ao fim porque não consegui adiar a leitura para o dia seguinte. Tentei mas foi impossível.Adorei o estilo da tua escrita, o “humor” que apesar de tudo consegues atribuir a alguns episódios difíceis. O teu espírito de guerreiro é impressionante e acredito que a tua força de vencer contagia quem estiver a lidar com esta doença. A tua história é um grande exemplo de coragem. Por esta razão te dou os meus sinceros parabéns. Na altura que descobri o teu blog não deixei comentário por várias razões, mas hoje lembrei-me de ti (apesar de não te conhecer), e pensei cá para mim : como estará o Michael? Espero que ele esteja bem. E por isso cá estou a eu… Espero que estejas bem e que estejas a caminhar com calma rumo aos teus sonhos…
Continua a lutar porque es um vencedor nato!
E espero algum dia poder vir a ler as crónicas da tua vitória!
Um braço amical de Braga
Carpe Diem.
Valérie
Olá
Desejo um Feliz Natal na companhia de quem mais amas e um ano novo cheio de saúde e alegria:)
jokas
Olá Michael
Fiquei muito feliz, por teres aparecido:)
Desejo-te um ano cheio de saúde e alegrias.
jokas