Os dias depois do Dia V
Voltar a uma vida “normal” … eh eh … a coisa tem que levar aspas porque já não sei mais o que é normal ou anormal.
Primeiro foi o cansaço pos-alta de uma fase de ressaca no serviço de Gastro dos Capuchos, que foi tudo menos repousante.
Seguiram-se uns dias bem simpáticos, divididos entre namorar, ver família (missão incompleta até à data) e amigos (missão igualmente incompleta até à data).
Mais recentes tive que passar uma quantidade assinalável de horas no hospital, a fazer exames, que confirmaram que a fase de tratamento foi um êxito e que deram luz verde ao arranque do tratamento de manutenção.
Descobri finalmente o que seria o tratamento de manutenção … 2 anos a tomar comprimidos de quimio em cima de comprimidos de quimio. Neste momento o máximo é 15 comprimidos de quimio num dia por semana, mais 3 por dia todos os dias, mais quimio injectável uma vez por mês, mais cortizona, mais comprimidos anti-enjoo.
Se por um lado neste momento enterrei todas as duvidas que tinham em relação a vir a ter uma ressaca (com tanta quimio e com a nova atitude que tenho em relação à vida não me parece de todo possível que a doença regresse), por outro estou a sentir na pele o peso desta carga química (que provavelmente poderá ter de ser reduzida assim se verifique que me atira os valores do sangue demasiado para baixo) e crescem os receios do efeito desta exposição de 2 anos a um tratamento químico com efeitos por determinar a nível dos meus órgãos internos e da minha fertilidade.
Mas nada há a fazer excepto fazer o que tem de se feito, ter juízo e suportar esta semi-pena de prisão domiciliária.
Finalmente de assinalar, de um ponto de vista negativo, foi a confirmação que tive esta semana que fui estúpido todos os dias de ter dado à minha actividade profissional a importância que dei desde sempre, que foi tolice total colocar nela a intensidade que coloquei … bastaram 6 / 7 meses de afastamento dela e estão completamente postos de lado todos os planos e objectivos que tinha delineado para mim próprio … cai da carroça e agora vou ter que estar na “corrida das ratazanas”, neste pais merdoso e periférico, a mercê de governantes corruptos e inaptos.
O que vale é que o sol ainda brilha e o mar é lindo … apesar de não me poder banhar ao sol …. apesar de não poder velejar. A vida não pára até que se extinga, leva-se socos, encaixa-se, segue-se em frente … em todos os momentos, por mais que custe ou não apeteça ou pareça improvável que algo corra bem, resta-nos ser positivo e dar o nosso melhor para que a vida nos sorria um pouco mais do que sorriu ontem.
Decidi passar por aqui hoje…so para ver.
Fiquei surpresa por ver posts novos…
Tao lindo este post!
“resta-nos ser positivos e dar o nosso melhor…” e a vida flui!
Como eu sei o que sentes…eu aprendi-o de outra forma…mais suave…tambem nao tenho 1/10 da tua forca!
Mais dois anos de “quimio de manutencao” e chato, muito chato mas sei que iras passar por eles com a mesma forca e optimismo.
Um grande beijinho,
Silvia
I admire your work,can you teach me how to write such a nice article