Thursday, October 16, 2008

“É hoje que me passo”

Há uma série de anos (pelo menos dez), aconteceu-me uma situação que até hoje não sei bem o que pensar dela. Estava com dois amigos e colegas à época, íamos a entrar no meu bogas, junto à faculdade. Um deles estava a acabar de fumar o cigarro no passeio, virado para a estrada, quando decidiu abrir a porta de trás do carro. Nisto vinha uma senhora idosa (teria entre 60 e 70 anos, mas nada de muletas nem nada disso, tinha-se bem nas duas pernas), pelo passeio afora, caminhando, indo à sua vidinha. Raio de sorte ou azar, a senhora idosa passa por trás do meu amigo no milésimo de segundo preciso em que ele abre a porta do carro, escancarada para cima do passeio. Ditaram as leis da física que a minha porta acertasse na senhora idosa de uma forma algo enérgica. Ditou a humanidade que para além do toque que levou da porta, a senhora se terá assustado, tendo-se quedado boquiaberta e muito atarantada com esta aventura.

 

De imediato, mas mesmo de imediato, o meu amigo (vamos chamar-lhe, por exemplo Pedro) pediu desculpas num tom de voz cordato, afável e diria até meigo, de tal forma meigo que fiquei a pensar que raça extraterrestre teria raptado o meu amigo, que sempre tive por gajo profundamente nervoso, conflituoso (se provocado) e com mau feitio (mais do que eu, imaginem).

 

De onde tinha saído aquele tom de voz meigo e apaziguador, que faria inveja ao próprio Dalai Lama?! É que o rapaz tinha mesmo mau feitio, aliás tinha mau feitio ao ponto de ser ter pegado à chapada com outro amigo meu numa festa de aniversário ali na Falagueira (em sua defesa tenho a dizer que ele nada tinha a haver com a rolha de champagne que era arremessada violentamente entre os convivas do canto oposto da mesa, quando esta inusitadamente decidiu viajar uns bons 6 metros e fazer contacto com o olho direito do Pedro)

 

Dessa noite retirei duas lições. A primeira é que as tropas da ONU nunca devem andar ébrias. Um ébrio e enfurecido Pedro passou por mim, na jornada a pé de 6 metros que encetou para se ir virar ao tabefe com o emissor do projéctil (igualmente ébrio e crescentemente enfurecido), e eu, ebriamente sem me conseguir levantar, ebriamente pensei “que se lixe, a coisa já acalma, claro que não se vão pegar ao tabefe” … lição nº 2, duvidar do meu discernimento quando estou ébrio.

 

Ao contrário dos filmes de Hollywood, houve apenas uns socos e pontapés, mas nem mobília da casa nem a louça emprestada foi partida, portando foi uma noite de pouca despesa (como se recomenda na linha de Sintra, porque dinheiro para avarias não havia), o aniversário foi celebrado meio ao estilo sérvio mas no final da noite fomos todos para casa sem problemas de maior (o  Pedro com hematoma no olho da rolha, o meu outro amigo com hematomas nas pernas das botas de biqueira de aço do Pedro), com excepção do tecto do meu quarto que não parava de rodopiar.

 

Mas divaguei ….

 

Quando o Pedro pede desculpas, a reacção da senhora idosa foi de desbloquear do estado congelado em que se encontrava e começar a dizer porcaria do género “os jovens de hoje em dia, bla bla bla” … bla bla bla porque é uma lenga lenga tão clássica de idoso frustrado que já não havia pachorra, de maneira que desenvolvi a capacidade de deixar de ouvir o resto da incontinência verbal que por vezes se apodera da terceira idade em momentos de fúria vingativa.

 

Nisto só ouço o Pedro a levantar a voz e gritar “VAI PÓ C*****O, VELHA DO C*****O!” … o que teve o efeito milagroso de fazer a idosa calar-se e afastar-se com celeridade do local. Neste momento fiquei aliviado que o Pedro não tinha sido raptado por extraterrestres, metemo-nos no carro e fomos embora.

 

Há dias em que acordo e penso que o Pedro estava bastante ao coberto da razão … há outros em que acordo e penso que terá sido demasiado agressivo e exagerado na sua reacção.

 

Poucos dias depois de findo o 4º ultimo ciclo B, em plena ressaca, acordei pensado que o Pedro estava coberto de razão. Isso era sinal que estava de mau feitio … mau feitio reforçado por saber que tinha de ir à consulta nesse dia.

 

Já no hospital, na sala de espera do Hospital de Dia de Hema, ia-me passando à séria com uma velha. Como pessoa civilizada e ordeira, cheguei lá, tirei a minha senha e sentei-me à espera de ser chamado. A sala de espera estava cheia, a arrebentar pelas costuras … seria um dia tão complicado que ao final de 5 horas de espera não conseguiria mais do que tirar sangue e mudar o penso do cateter.

 

Ao fim de uma quinzena de minutos reparo na tal velha que entra, armada em saloia vinda das berças, borrifa-se de alto para sacar uma senha e começa a fazer marcação individual ao guichet de atendimento, intrometendo-se lá entre todos os outros idosos ansiosos, que mesmo tendo senha lá acham que por via das duvidas mais vale fazerem também marcação ao guichet para evitar serem passados para trás por chicos e chicas espertas que abundam neste país piolhoso.

 

Começa-me a ferver o sangue. Estamos no Sec. XXI … aquela velha sabe de certeza que há senhas … só não sabe se não quer, porque se lhe for pedir os resumos das 30 novelas que todos os dias empestam os 4 canais de televisão grátis e poluída de certeza que mos debita melhor do que a tabuada dos dois, devidamente intercalados por todos os mexericos da rua dela e das vizinhas todas.

 

Odeio este género de gente, que permitiram décadas de Salazar, anos de Marcelo Caetano, Ramalho Eanes, Mário Soares por ai fora até chegar ao Sócrates, em quem votam porque tem um sorriso bonito e o cacique lá da aldeia mandou. O voto destas pessoas vale tanto como o meu … esse é o mal da democracia.

 

Irrita-me solenemente que estas pessoas, com este baixo nível intelectual e cultural, tenham tido a lata de criticar a minha geração, que foi a ultima que protagonizou um movimento estudantil cívico contestatário ao ataque que foi feito ao ensino superior publico, tendo nos chamado “geração rasca” … mas quantas dezenas de gerações bem mais rascas do que a minha não poluem esta terra à muito mais tempo do que a minha?

 

O que é facto é que depois dos movimentos estudantis do inicio dos 90, os da “geração rasca” nunca mais se viram movimentos contestatários da sociedade civil que levantassem a voz contra a delapidação do país e dos direitos dos cidadãos … protestar tornou-se sinónimo de algo sujo e indigno … rasca. Na onda do social-porreirismo cabe a cada português suportar os desvarios todos de governantes e compatriotas com doses tibetanas de paciência e resignação.

 

Comigo não … muito menos naquele dia. Quando chega perto da minha vez de se chamado também me levanto e começo a fazer marcação à velha, que fingindo-se de autista se mantém a fazer marcação ao guichet. Poucos minutos passam e quando está o meu numero para surgir já a velha está junto ao guichet a embaciar o vidro … chamam o meu numero e ela tem a distinta lata de meter a papelada dela pela ranhura do guichet … não fui de modas, agressivamente coloquei a minha papelada em cima da dela, acompanhada da senha que me assistia razão, e falei-lhe alto e bem duro “Com licença minha senhora, mas a vez é minha!” … fiquei à espera que houvesse protesto para a poder enviar, à semelhança do meu amigo dez anos antes, para o c*****o, mas de facto a velha deu mostras de ser tudo menos estúpida e refugiou-se atrás de um sorriso amarelo saloio e de um passo atrás.

 

Entre a fase da ressaca, o meu mau feitio, o cansaço do tempo que passei nesse dia no hospital, o stress que lá passei mais uma vez e uma paragem de digestão, estavam reunidas as condições para vir a febre … que me apanhou nesse mesmo dia, a meio de escrever este post e me fez regressar as urgências de Hema à hora do jantar. Com muito malabarismo lá foi possível passar essa primeira noite nas urgências, com uma febre não muito alta mas com diarreia, tendo sido despejado apenas no dia seguinte dali para fora e para o serviço de Gastro … esse episodio merece um post próprio

Posted by Michael at 15:03:59
Comments

2 Responses to ““É hoje que me passo””

  1. Anonymous says:

    Olá Michael..

    Antes de deixar aqui escrito umas palavras…sem tentar divagar muito..quero dizer-te que espero que tenhas dado a volta à p**a da doença e que estejas melhor que nunca.

    Encontrei ontem o teu blog por acaso, através de um blog, entrei noutro, e nesse em outro e por ai fora, até encontrar o teu. Consumi-o todo…eram 4h da manhã quando acabei.

    É fácil quando lemos o que seja, que nos faça estar a ver, a sentir e a realizar nas nossas cabeças o que vais escrevendo. Foi fácil transformar letras em imagens.

    Eu também travei uma luta ingrata que me foi imposta.. um Linfoma de Hodgkin.. assim de repente como se nada fosse, levo esta chapada acabadinha de fazer 25 anos..que merd*! É só o que me ocorre dizê-lo. Soube na véspera de Natal em 2005, e andei a lutar o 2006 todo. Entre quimioterapias que me iam matando e radioterapias psicologicamente devastadoras, consegui que me dessem aquela notícia fantástica: REMISSÃO…enfim… concordo contigo…remissão não é cura! Porque será que todos os outros…os não doentes, ficam contentes e felizes e não realizam que na nossa cabeça fica a maior das inseguranças e incertezas.. e o pânico da próxima consulta..enfim…remissão.. já não é mau.

    Também fui sempre tratada nos Capuchos… os teus últimos post’s onde falas na “categoria” do serviço eu sou obrigada a concordar.. acredito também que o Estado deve ter muitos mais sítios onde gastar dinheiro, como em estádios de futebol… que interessa para quem não precisa de hospitais públicos saber não há condições para doentes fragilizados??…que quando se vai ao RX parece que entrámos na morgue, devido ao gelo que está??… que o anexo onde se faz quimioterapia em ambulatório seja parecida com um depósito de carecas ao molho e fé em Deus, sem resguardar o estado dos doentes… será assim tão normal estar a fazer um tratamento e o parceiro do lado, que divide o bobby comigo morre em pleno tratamento?.. ou ainda…para quem precisa de uma transfusão de sangue urgente, tem que ser passeada pela rua em pleno mês de fevereiro com o frio que lhe é característico?

    Michael… tinha tantas questões para fazer, e tu também… e todos que já por lá passaram também…mas adianta? enfim…

    Deves ter estado internado com uma moça de santo andré, a Liliana, mais conhecida por Lili, que tinha um Linfoma de não Hodgkin, foi a minha grande companheira de guerra…infelismente deixou-me em Dezembro passado… esta luta injusta, onde só os valentes a conseguem vencer. Espero que seja o teu caso.

    Com estas reclamações todas, parece que em bebé engoli um livro de reclamações.. mas não posso deixar aqui um testemunho, que seja um alerta para quem possa vir a ler este comment… durante 3 meses, e já num estado avançado a médica que o hospital disponibilizou para me curar foi uma estagiária… sim, uma estagiária… sozinha..sim, sozinha… foi preciso um dia, ter chegado ao limite, e ter tido a sorte, de a directora do serviço de hematologia pegar no meu dossier, e reparar q entrava nas urgencias vezes a mais, para me mandar internar de urgencia para levar transfusoes de sangue, porque senao, ja nao passava dessa noite.. parece uma novela daquelas rascas não é?… mas infelismente passou-me comigo…ainda hoje há frases que não me podem dizer como eu queixar-me de tudo e mais alguma coisa e dizerem me: É NORMAL..TENS QUE AGUENTAR!… ninguém merece, ter um volvo intestinal, usar um clister de 2 litros de água a ferver com parafina durante semanas…. deixar de respirar com bolhas gigantes na boca… ter queimaduras internas na pele, com marcas para toda a vida..entre muitas outras coisas, que poderiam ter sido evitadas, se me tivessem ouvido, escutado.. se me tivessem considerado um ser humano que merecia respeito, um ser humano doente, fraco, mas consciente das suas queixas…tudo teria sido diferente…mas não foi, e é esta a história que tenho para contar.
    Depois deixei de ser vista pela estagiária, e passei a ser vista pela directora do serviço…foi uma forma de me mandarem areia para os olhos… quis reclamar, quis fazer queixa, queria olhar nos olhos dessa estagiária e explicar-lhe que não se brinca com a vida de uma miúda de 25 anos.. mas a pedido dos meus pais…secalhar como tu dizes, ainda recalcados com o tempo salazarista…acharam melhor não, porque afinal a culpa era tanto da estagiária como da directora de serviço que permitiu que ela me tratasse por sua conta e risco, até me deixar numa cadeira de rodas a pesar 37 kilos…e entre a vida e a morte só havia um fio de nylon que engrossava ou esticava até partir com a ajuda essa nova médica, a directora. Portanto, com algum … mentira Michael… com muito arrependimento meu, não fiz queixa contra essa estagiária, e ainda hoje cada mÊs que vou aos Capuchos e a vejo lá, apetece-me chegar-lhe com as mãos ao pescoço e abaná-la até me esquecer…mas ainda não o fiz…talvez nem o faça…não por falta de vontade, mas porque já basta o que ela sente ao encontrar-me…serra de imediato o olhar no chão…e tenta nunca chegar perto de onde estou…pesa..estas coisas pesam na consciencia.

    Tinha muito mais para dizer… mas nem sei se ainda lês os comments deste teu blog que gostei muito de ler.

    Espero sinceramente que estejas livre dessa leucemia maldita.

    Saúde e paz
    Bjs,

    Sónia
    soniafcarvalho@gmail.com

  2. download says:

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