A ultima ressaca num deposito de carne
Acabei o ultimo post mencionando que após uma noite passada nas urgências da Hema, foi transferido para o serviço de Gastro dos Capuchos por não haver lugar na enfermaria de Hema para ser internado.
Por aquilo que ia ouvindo aqui e ali já sabia que a enfermaria, tal como serviço de urgência estava a abarrotar, e que a probabilidade de ir parar a outro serviço era muito alta.
Fiquei muito surpreendido foi pela velocidade com que fui transferido. Autenticamente parecia que queriam salvar o pai de alguém da forca, tal era a pressão e a pressa que revelavam em mover-me da Hema para Gastro. A pressão e a pressa foi tal que não houve ninguém que se lembrasse de indicar à Gastro que medicação devia receber poder receber em caso de SOS, razão pela qual passei esse dia todo com diarreia sem que os enfermeiros de Gastro me pudessem dar seja o que for até que à noite, já sem poder aguentar mais, comecei a ameaçar levantar-me, por o soro as costas e ir bater à porta de Hematologia a reclamar que alguém me acudisse.
Nunca como nesse dia me senti tão abandonado e esquecido pelos médicos de Hematologia. A minha médica não estava de serviço e como não estava na enfermaria de Hema parece que me tinha tornado invisível, inexistente ou como diria Douglas Adams, simplesmente tinha-me tornado um SEP: “Somebody else’s problem”.
Mediante as minhas ameaças meio tresloucadas, um telefonema providencial da Gastro para a Hema resultou finalmente na recepção de uma prescrição de comprimidos contra a diarreia que me deveria ter sido passada logo pela manhã, quando fui empurrado à pressa para fora do serviço de Hema.
A pressa era tal que inclusive tive que me exaltar um pouco e perguntar se podia ao menos tomar um duche antes de ser transferido. Afinal não sabia o que ia encontrar pela frente, todos os companheiros se queixavam que os outros serviços para onde tinham sido transferidos eram francamente maus em comparação com a Hematologia, e preferia ir aviado em terra como bom marujo acautelado.
Apercebi-me rapidamente que fiz muito bem em fincar pé em pelo menos tomar um duche, porque o serviço de Gastro deixa muito a desejar e de todo não é local para um doente de Hematologia ser transferido. No serviço de Gastro pude finalmente ter a noção concreta de como o sistema nacional de saúde e os hospitais públicos estão na mais profunda decadência, desinvestimento e desinteresse.
Correntes de ar são o pão nosso de cada dia em Gastro. Vá-se lá perceber porque motivo, o acesso ao serviço está permanentemente escancarado e correntes de ar nos corredores são abundantes.
Dentro dos quartos idem aspas, basta que se abra uma janela (na Hema as janelas pura e simplesmente não são abertas, a porta do serviço está fechada só abrindo para as visitas entrarem e saírem na hora da visita).
A casa de banho e os chuveiros são constantemente varridos com correntes de ar por causa da janela que esta constantemente aberta (na Hema não há janela na casa de banho) … portanto eu sem sistema imunitário estava sempre a ver quando é eu apanhava ali uma gripe que rapidamente podia evoluir para uma pneumonia e pura e simplesmente estragar numa questão de horas o sacrifício de meses e meses de tratamento.
Optei por passar a tomar banho apenas de dois em dois dias.
Os problemas não se ficavam por aqui no entanto. Ao 3º dia de internamento tomei consciência que não aqueles chuveiros eram uma armadilha potencialmente mortal, o escoamento de agua dos duches pura e simplesmente não acontecia e um companheiro escorregou num lençol ensopado de agua que estava no chão e caiu, não tendo rachado a cabeça por pouco. Com as plaquetas nos mínimos como eu tinha nessa altura, se fosse eu a cair teria ali arranjado um belo 31.
As sanitas também eram um espectáculo, não tinham o assento de plástico, de maneira que era só a porcelana que tinha a suportar-me nas várias visitas que lá fiz devidas à diarreia que não me largava. A juntar a isto havia ainda o mau hábito (mau hábito para Hematologia, perfeitamente normal para Gastro) de se colocar nuns cestos ao pé da sanita as fraldas imundas, fedorentas e cheias de micróbios indesejáveis a menos de meio metro de quem procura aliviar-se na sanita amputada de assento.
Senti naqueles primeiros dias de Gastro que tinha ali sido deixado para morrer. N vezes me passou pela cabeça ir-me embora para casa morrer na minha cama. Mas resisti a esses pensamentos de ansiedade extrema e tentei habituar-me ao desconforto da situação. A sensação de insegurança também se alargou à possibilidade de ser assaltado, naquele serviço entra-se e sai-se sem controlo, de maneira que entre isso e o estar sem o mínimo de animo pedi à minha mãe que levasse de ao pé de mim o portátil que habitualmente me acompanhava nos internamentos.
As horas iam-se alternando, entre diarreia, cólicas e febres … já ansiava pela febre para poder levar o paracetamol para ter alivio das cólicas. O colchão da minha cama estava todo afundado, tendo entre a minha bacia e o estrado de ferro uma espessura inferior ao do meu dedo mindinho. As condições em que estava eram tão más que até a isso me habituei, dando por contente se esse fosse o maior dos meus males. Só ao fim de 3 dias não aguentei mais e queixei-me a sério do desconforto em que estava, tendo-se remediado, à portuga, uma solução de recurso com 2 cobertores a serem colocados entre o colchão e o estrado.
A juntar à festa, pouco a pouco fui tomando consciência que aquele serviço de Gastro não era de facto uma enfermaria, era antes uma espécie de UCI polivalente (como ouvi ser baptizada por uma enfermaria do serviço) que recebia corpos de toda a parte, em qualquer estado, pelo simples facto de não haver outro lugar onde enfiarem aqueles corpos. Estava internado num talho, mas respirava
No meu quarto chegou um dia, por exemplo o Sr. Zé, que veio as tantas da noite das urgências de S. José. Passadas poucas horas, na madrugada, o Sr. Zé encontrar-se-ia as portas da morte, altura em que os enfermeiros de Gastro se aperceberam que o homem tinha sido transferido sem estar sequer puncionado, altura em que o médico de serviço na Gastro, rapaz novo e com poucos conhecimentos de insuficiências cardíacas acompanhadas de dificuldades respiratórias, se apercebeu que não sabia o que havia de fazer para salvar o homem e teve de pedir ajuda a uma colega vinda sabe-se lá de onde. O Sr. Zé safou-se dessa felizmente, mas não dormi nada nessa noite tal foi o alarido no quarto, horas e horas a fio.
Duas noites depois o Sr. Zé voltaria a passar muito mal, tendo passado a noite toda com tosse convulsa, que mais uma vez não me permitiu descansar.
Apesar do pouco que dormi nessas duas noites, comecei a sentir pelo velhote um certo carinho. Homem dos seus 80 anos, tinha trabalhado ate aos 79, aos 60 tinha-se habituado a usar computador.
Possuía lucidez suficiente para ser extremamente bem educado com o staff do serviço, ao mesmo tempo que se saia com pérolas de sabedoria do género “o Presidente da Republica devia ser enrabado por não fazer nada”. Ora ali estava um velhote exemplar, que merecia ser salvo e bem tratado … era um dos meus, bem educado com quem o tratava com respeito e sem papas na língua.
Seria por causa do Sr. Zé, e não por nada que me tivessem feito a mim, que me haveria de pegar com uma enfermeira do serviço de Gastro … lá chegaremos.
Não deve ser fácil trabalhar no serviço de Gastro, especialmente para os enfermeiros. As condições materiais não são boas, aparece-lhes de tudo um pouco pela frente sem terem a formação adequada para lidarem com todas as situações, safam situações à esquerda e à direita recebendo doentes de todos os lados, nos estados mais ou menos lastimosos que se possam imaginar.
Parece-me um daqueles serviços onde rapidamente se chega à conclusão que dê lá por onde der, vai-se chegar ao final do dia com um elevado nível de stress e muita pouca realização profissional. Junte-se a isso o descontentamento por não haver carreira, por não haver aumentos há 4 anos por haver precariedade no trabalho e estão reunidas as condições para o desastre.
Seja como for, neste estado de coisas, existem ainda enfermeiros e enfermeiras que ainda não perderam de vista que o que escolheram para a sua vida é uma missão, e que não estão ali meramente para desempenhar uma função, terem um emprego ou ganharem um salário. Existem ainda na Gastro enfermeiros que mantêm esse espírito de missão e essa disponibilidade mental para em condições muito adversas darem o seu melhor para atenuar o sofrimento dos doentes … são poucos mas existem.
Tornou-se para mim uma pratica de sobrevivência estudar quem eram os enfermeiros e enfermeiras a quem valia a pena queixar-me seja do que fosse. Uma vez identificados, não passava cavaco aos outros e esperava que aparecesse um que valesse a pena. É a pena acrescida a quem trabalha bem nesta terra … ter ainda mais trabalho.
Se este é o estado de arte a nível de enfermeiros, agora imaginem a coisa a nível de auxiliares e inclusive de empregados do catering … desde doentes encharcados em urina nas fraldas há mais de meia hora a cheirarem mal nas enfermarias, até uma empregada do catering, que após 2 dias maltratar um toxicodepente que ia iniciar um processo de recuperação, ter tido a distinta e impressionante lata de dizer que “quem manda aqui sou eu e não você”, vi de tudo para me por o sangue a ferver.
O que a senhora do catering não sabia era que, para além de não ter coração e ser uma daquelas pessoas que só sente bem metendo o pé no pescoço de quem tenta sair da merda, é que o rapaz tinha tomado um brutal injecção de tramal para dormir e suportar a ressaca, e mal se tinha nas pernas … mas era ela que mandava ali, não os enfermeiros, não o chefe de turno, não o chefe do serviço de enfermagem, não os médicos, não o chefe do serviço, não senhora, quem mandava ali, na sua infinita sabedoria, era a senhora do catering.
O sangue fervia cada vez mais, mas fui fazendo a minha vida e mantendo-me na minha até que um dia não aguentei mais e mediante o que assisti tive que me insurgir.
Havia necessidade todos os dias de tirar o Sr. Zé da cama e coloca-lo num cadeirão. Parece que lhe fazia bem à respiração, acelerava a recuperação. Infelizmente o coitado do homem não se aguentava muito tempo sentado, sentia fortes dores nas nádegas até se deixar escorregar pelo cadeirão abaixo até ter o pescoço todo dobrado sobre o peito, pressionado pelas costas do cadeirão. No primeiro dia não me apercebi disto até aparecerem os enfermeiros para voltarem a colocar o homem na cama. Senti-me mal por ter ali o homem ao lado em sofrimento mas estar absorto demais pelo meu livro e pelas minhas dores para me dar conta que o homem estava a passar mesmo mal.
Jurei a mim mesmo que no dia seguinte estaria mais atento.
Assim jurei, assim fiz … no dia seguinte quando ao final de algum tempo vejo o homem na mesma posição, chamo uma enfermeira para dar um jeito ao homem, coloca-lo numa posição mais confortável. Era uma enfermeira já de cabelos grisalhos, claramente com muitos anos de casa … era também a coisa mais parecida com um autómato que tinha visto em 7 meses de Capuchos … dava toda sensação que quando mais acumulou em experiência e saber técnico ao longo de anos e anos de enfermagem, mais perdeu a nível de humanidade.
Essa sensação foi confirmada rapidamente. Expliquei-lhe que o homem não aguentava com dores nas nádegas, pedi que o colocasse numa posição mais confortável, mas não passou caso e fez menção de apenas voltar a colocar o homem direito no cadeirão, coisa que não conseguia fazer sozinha.
Insisti que o homem dai a dez minutos ia estar outra vez muito cheio de dores e na mesma posição pouco recomendável. A mulher a partir daqui lá achou que em vez de tratar do homem se impunha muito mais disparatar comigo … o que ela foi fazer, com quem ela foi-se meter.
Posta de pescada para cá, posta de pescada para lá, decidi que seria a família do Sr. Zé a colocar aquilo em pratos limpos, com todo o gosto seria testemunha caso quisessem apresentar queixa. A enfermeira abandonou o quarto deixando o Sr. Zé como o tinha encontrado, sem mais voltar para sequer o recolocar direito no cadeirão.
O Sr. Zé, já em abundante sofrimento e plenamente consciente do que se tinha ali passado, já oferecia 50 contos a quem o colocasse na cama e 1000 contos a quem o tirasse do hospital … agora imaginem como o homem passava mal.
Teve de ser o tal rapaz toxicodependente em recuperação a dirigir-se a outro enfermeiro, ao chefe de turno, e pedir que acudissem ao homem. Veio esse enfermeiro e outra colega, reclinaram o cadeirão um pouco para trás e remédio santo o homem teve paz ao ponto de ferrar o galho, tendo ficado no cadeirão pelo menos mais uma hora sem se queixar de nada.
Chegada a hora das visitas, informei a família do Sr. Zé do que se tinha passado. Com medo de “represálias” decidiram nada fazer. Anos a mais de Salarizmo, de ter calma, de não protestar, de fazer de conta que vivemos num pais do chamado 1º mundo.
Decidi que da minha parte, aquela enfermeira não me tocaria mais. Assim, algures na tarde, quando a dita enfermeira veio para me colocar medicação, arranquei-lhe bruscamente as torneiras da medicação da mão e informei-a brusca e agressivamente que em mim ela não tocava mais, nem em mim, nem na minha medicação, nem nas minhas torneiras … tomada de surpresa e ressabiada pergunta-me porquê, ao que eu respondo “porque por aquilo que vi de manhã, na forma como tratou aqui do Sr. Zé, perdi toda a confiança no seu discernimento profissional”.
Quer-me parecer que em toda a sua vida nunca ninguém lhe tinha dito nada de parecido. Pior do que uma barata sai do quarto dizendo entre dentes “você e que sabe” e vai ter com uma colega. Essa colega vem ter comigo quase de imediato a perguntar-me qual era o problema, e ai já delicadamente lhe respondi que com ela não havia problema nenhum e que estava a vontade para me administrar a medicação.
A jovem enfermeira insiste em me perguntar o que se tinha passado. Quando começo a explicar, reaparece a cusca da ressabiada que claramente se tinha deixado no corredor suficientemente perto para ouvir o que eu ia dizer, em vez de ir trabalhar e justificar o salário para outro lado.
“Diga lá à minha frente o que ia dizer nas costas se tem coragem!” diz a mal-amada … já só me apetecia rir, agora ia ouvir tudo o que tinha a dizer … não foi preciso falar muito, foi apenas necessário dizer o seguinte: “aquilo que estava a dizer à sua colega é que ela, e o chefe de turno, tiveram de dispensar por si o tempo e a energia a colocarem um doente confortável, porque você preferiu empregar o seu tempo e energia a discutir comigo em vez de fazer o seu trabalho. Como tal não tenho confiança em si para tratar de mim, logo em mim você não toca mais!” … posta de pescada para cá e para lá, bate em retirada quando finalmente percebe que dali não sairá a ganhar nada. Nunca mais palavra foi trocada entre nós, tenho a certeza que a mandei para casa nesse dia com uma dose infernal de bílis no estômago e eu passei boa parte da tarde a rir-me dessa mini-vingança por indecente e maus tratos a um idoso, que me soube que nem ginjas.
Bateu-me a curiosidade em conhecer o chefe daquele serviço de enfermagem. Sempre gostava de saber quem era a pessoa que tinha permitido que o seu serviço fosse tão disfuncional e avacalhado como é o de Gastro (e dizem-me que até não é dos piores). Apetecia-me perguntar-lhe se ainda não percebeu que tudo o que se mantém entre a falência total dos hospitais públicos são os serviços de enfermagem geridos com humanidade, brio e rigor e a manutenção dos mais elevados graus de exigência possíveis mediante as condições existentes.
Nesse dia, ou no dia seguinte, a medica de serviço da Hematologia veio ver-me para se tomar uma decisão sobre a minha alta. Antes de chegar até mim esteve durante dez minutos a ouvir reclamações de outro doente de Hematologia, do pouco que percebi parece que tinha havido erros com a medicação. Quando se chegou ao pé de mim ouviu as minhas … estando na duvida se havia ou não de me mandar para casa, mediante o ambiente péssimo onde estava lá tomou a sensata decisão de me mandar para casa, com indicação expressa de regressar caso me sentisse mal ou tivesse febre. Em tempo recorde vesti-me e abalei, firmemente decidido a não regressar mas nem que a vaca tossisse.
Estamos entregues à bicharada e não há quem nos salve. Pagamos impostos, somos mal servidos, mas mesmo assim somos cobardes e não reclamamos porque “parece mal”.
Não somos governados nem nos deixamos governar. A esmagadora maioria da classe média, protegida atrás dos seguros de saúde achasse a salvo disto tudo, de viver e conhecer esta realidade bem de perto. Um dia que percebam que os seguros não cobrem certos e determinados tipos de serviços e especialidades vão lá bater com os costados nos Capuchos, para internamentos longos e vão finalmente aperceber-se da falsa sensação de segurança em que vivem.
Da minha parte já tive a minha dose e agora em vez de passageiro frequente vou virar turista acidental. Tenciono aproveitar bem pelo menos estes próximos dez anos que não me vai suceder nada de grave, daqui para a frente já pouco me assusta, já vi tudo o que tinha a ver.
Com este triste e longo relato dou por findo o blog, reservando-me despoticamente o direito de o reabrir se assim me der na real gana. Voltei hoje a sentir o prazer de fazer a barba com uma lamina de barbear … amanha almoço com amigos, com sorte visito a Companheira Elsa que está nos quartos isolados de Santa Maria a fazer transplante … fim de semana revejo família … próxima semana abalo uns dias com a namorada para uma região do Alentejo que nunca tive oportunidade de conhecer. Calma e paulatinamente vou fechando capítulos e abrindo novos.