Thursday, October 16, 2008

A ultima ressaca num deposito de carne

Acabei o ultimo post mencionando que após uma noite passada nas urgências da Hema, foi transferido para o serviço de Gastro dos Capuchos por não haver lugar na enfermaria de Hema para ser internado.

 

Por aquilo que ia ouvindo aqui e ali já sabia que a enfermaria, tal como serviço de urgência estava a abarrotar, e que a probabilidade de ir parar a outro serviço era muito alta.

 

Fiquei muito surpreendido foi pela velocidade com que fui transferido. Autenticamente parecia que queriam salvar o pai de alguém da forca, tal era a pressão e a pressa que revelavam em mover-me da Hema para Gastro. A pressão e a pressa foi tal que não houve ninguém que se lembrasse de indicar à Gastro que medicação devia receber poder receber em caso de SOS, razão pela qual passei esse dia todo com diarreia sem que os enfermeiros de Gastro me pudessem dar seja o que for até que à noite, já sem poder aguentar mais, comecei a ameaçar levantar-me, por o soro as costas e ir bater à porta de Hematologia a reclamar que alguém me acudisse.

 

Nunca como nesse dia me senti tão abandonado e esquecido pelos médicos de Hematologia. A minha médica não estava de serviço e como não estava na enfermaria de Hema parece que me tinha tornado invisível, inexistente ou como diria Douglas Adams, simplesmente tinha-me tornado um SEP: “Somebody else’s problem”.

 

Mediante as minhas ameaças meio tresloucadas, um telefonema providencial da Gastro para a Hema resultou finalmente na recepção de uma prescrição de comprimidos contra a diarreia que me deveria ter sido passada logo pela manhã, quando fui empurrado à pressa para fora do serviço de Hema.

 

A pressa era tal que inclusive tive que me exaltar um pouco e perguntar se podia ao menos tomar um duche antes de ser transferido. Afinal não sabia o que ia encontrar pela frente, todos os companheiros se queixavam que os outros serviços para onde tinham sido transferidos eram francamente maus em comparação com a Hematologia, e preferia ir aviado em terra como bom marujo acautelado.

 

Apercebi-me rapidamente que fiz muito bem em fincar pé em pelo menos tomar um duche, porque o serviço de Gastro deixa muito a desejar e de todo não é local para um doente de Hematologia ser transferido. No serviço de Gastro pude finalmente ter a noção concreta de como o sistema nacional de saúde e os hospitais públicos estão na mais profunda decadência, desinvestimento e desinteresse.

 

Correntes de ar são o pão nosso de cada dia em Gastro. Vá-se lá perceber porque motivo, o acesso ao serviço está permanentemente escancarado e correntes de ar nos corredores são abundantes.

 

Dentro dos quartos idem aspas, basta que se abra uma janela (na Hema as janelas pura e simplesmente não são abertas, a porta do serviço está fechada só abrindo para as visitas entrarem e saírem na hora da visita).

 

A casa de banho e os chuveiros são constantemente varridos com correntes de ar por causa da janela que esta constantemente aberta (na Hema não há janela na casa de banho) … portanto eu sem sistema imunitário estava sempre a ver quando é eu apanhava ali uma gripe que rapidamente podia evoluir para uma pneumonia e pura e simplesmente estragar numa questão de horas o sacrifício de meses e meses de tratamento.

 

Optei por passar a tomar banho apenas de dois em dois dias.

 

Os problemas não se ficavam por aqui no entanto. Ao 3º dia de internamento tomei consciência que não aqueles chuveiros eram uma armadilha potencialmente mortal, o escoamento de agua dos duches pura e simplesmente não acontecia e um companheiro escorregou num lençol ensopado de agua que estava no chão e caiu, não tendo rachado a cabeça por pouco. Com as plaquetas nos mínimos como eu tinha nessa altura, se fosse eu a cair teria ali arranjado um belo 31.

 

As sanitas também eram um espectáculo, não tinham o assento de plástico, de maneira que era só a porcelana que tinha a suportar-me nas várias visitas que lá fiz devidas à diarreia que não me largava. A juntar a isto havia ainda o mau hábito (mau hábito para Hematologia, perfeitamente normal para Gastro) de se colocar nuns cestos ao pé da sanita as fraldas imundas, fedorentas e cheias de micróbios indesejáveis a menos de meio metro de quem procura aliviar-se na sanita amputada de assento.

 

Senti naqueles primeiros dias de Gastro que tinha ali sido deixado para morrer. N vezes me passou pela cabeça ir-me embora para casa morrer na minha cama. Mas resisti a esses pensamentos de ansiedade extrema e tentei habituar-me ao desconforto da situação. A sensação de insegurança também se alargou à possibilidade de ser assaltado, naquele serviço entra-se e sai-se sem controlo, de maneira que entre isso e o estar sem o mínimo de animo pedi à minha mãe que levasse de ao pé de mim o portátil que habitualmente me acompanhava nos internamentos.

 

As horas iam-se alternando, entre diarreia, cólicas e febres … já ansiava pela febre para poder levar o paracetamol para ter alivio das cólicas. O colchão da minha cama estava todo afundado, tendo entre a minha bacia e o estrado de ferro uma espessura inferior ao do meu dedo mindinho. As condições em que estava eram tão más que até a isso me habituei, dando por contente se esse fosse o maior dos meus males. Só ao fim de 3 dias não aguentei mais e queixei-me a sério do desconforto em que estava, tendo-se remediado, à portuga, uma solução de recurso com 2 cobertores a serem colocados entre o colchão e o estrado.

 

A juntar à festa, pouco a pouco fui tomando consciência que aquele serviço de Gastro não era de facto uma enfermaria, era antes uma espécie de UCI polivalente (como ouvi ser baptizada por uma enfermaria do serviço) que recebia corpos de toda a parte, em qualquer estado, pelo simples facto de não haver outro lugar onde enfiarem aqueles corpos. Estava internado num talho, mas respirava

 

No meu quarto chegou um dia, por exemplo o Sr. Zé, que veio as tantas da noite das urgências de S. José. Passadas poucas horas, na madrugada, o Sr. Zé encontrar-se-ia as portas da morte, altura em que os enfermeiros de Gastro se aperceberam que o homem tinha sido transferido sem estar sequer puncionado, altura em que o médico de serviço na Gastro, rapaz novo e com poucos conhecimentos de insuficiências cardíacas acompanhadas de dificuldades respiratórias, se apercebeu que não sabia o que havia de fazer para salvar o homem e teve de pedir ajuda a uma colega vinda sabe-se lá de onde. O Sr. Zé safou-se dessa felizmente, mas não dormi nada nessa noite tal foi o alarido no quarto, horas e horas a fio.

 

Duas noites depois o Sr. Zé voltaria a passar muito mal, tendo passado a noite toda com tosse convulsa, que mais uma vez não me permitiu descansar.

 

Apesar do pouco que dormi nessas duas noites, comecei a sentir pelo velhote um certo carinho. Homem dos seus 80 anos, tinha trabalhado ate aos 79, aos 60 tinha-se habituado a usar computador.

 

Possuía lucidez suficiente para ser extremamente bem educado com o staff do serviço, ao mesmo tempo que se saia com pérolas de sabedoria do género “o Presidente da Republica devia ser enrabado por não fazer nada”. Ora ali estava um velhote exemplar, que merecia ser salvo e bem tratado … era um dos meus, bem educado com quem o tratava com respeito e sem papas na língua.

 

Seria por causa do Sr. Zé, e não por nada que me tivessem feito a mim, que me haveria de pegar com uma enfermeira do serviço de Gastro … lá chegaremos.

 

Não deve ser fácil trabalhar no serviço de Gastro, especialmente para os enfermeiros. As condições materiais não são boas, aparece-lhes de tudo um pouco pela frente sem terem a formação adequada para lidarem com todas as situações, safam situações à esquerda e à direita recebendo doentes de todos os lados, nos estados mais ou menos lastimosos que se possam imaginar.

 

Parece-me um daqueles serviços onde rapidamente se chega à conclusão que dê lá por onde der, vai-se chegar ao final do dia com um elevado nível de stress e muita pouca realização profissional. Junte-se a isso o descontentamento por não haver carreira, por não haver aumentos há 4 anos por haver precariedade no trabalho e estão reunidas as condições para o desastre.

 

Seja como for, neste estado de coisas, existem ainda enfermeiros e enfermeiras que ainda não perderam de vista que o que escolheram para a sua vida é uma missão, e que não estão ali meramente para desempenhar uma função, terem um emprego ou ganharem um salário. Existem ainda na Gastro enfermeiros que mantêm esse espírito de missão e essa disponibilidade mental para em condições muito adversas darem o seu melhor para atenuar o sofrimento dos doentes … são poucos mas existem.

 

Tornou-se para mim uma pratica de sobrevivência estudar quem eram os enfermeiros e enfermeiras a quem valia a pena queixar-me seja do que fosse. Uma vez identificados, não passava cavaco aos outros e esperava que aparecesse um que valesse a pena. É a pena acrescida a quem trabalha bem nesta terra … ter ainda mais trabalho.

 

Se este é o estado de arte a nível de enfermeiros, agora imaginem a coisa a nível de auxiliares e inclusive de empregados do catering … desde doentes encharcados em urina nas fraldas há mais de meia hora a cheirarem mal nas enfermarias, até uma empregada do catering, que após 2 dias maltratar um toxicodepente que ia iniciar um processo de recuperação, ter tido a distinta e impressionante lata de dizer que “quem manda aqui sou eu e não você”, vi de tudo para me por o sangue a ferver.

 

O que a senhora do catering não sabia era que, para além de não ter coração e ser uma daquelas pessoas que só sente bem metendo o pé no pescoço de quem tenta sair da merda, é que o rapaz tinha tomado um brutal injecção de tramal para dormir e suportar a ressaca, e mal se tinha nas pernas … mas era ela que mandava ali, não os enfermeiros, não o chefe de turno, não o chefe do serviço de enfermagem, não os médicos, não o chefe do serviço, não senhora, quem mandava ali, na sua infinita sabedoria, era a senhora do catering.

 

O sangue fervia cada vez mais, mas fui fazendo a minha vida e mantendo-me na minha até que um dia não aguentei mais e mediante o que assisti tive que me insurgir.

 

Havia necessidade todos os dias de tirar o Sr. Zé da cama e coloca-lo num cadeirão. Parece que lhe fazia bem à respiração, acelerava a recuperação. Infelizmente o coitado do homem não se aguentava muito tempo sentado, sentia fortes dores nas nádegas até se deixar escorregar pelo cadeirão abaixo até ter o pescoço todo dobrado sobre o peito, pressionado pelas costas do cadeirão. No primeiro dia não me apercebi disto até aparecerem os enfermeiros para voltarem a colocar o homem na cama. Senti-me mal por ter ali o homem ao lado em sofrimento mas estar absorto demais pelo meu livro e pelas minhas dores para me dar conta que o homem estava a passar mesmo mal.

 

Jurei a mim mesmo que no dia seguinte estaria mais atento.

 

Assim jurei, assim fiz … no dia seguinte quando ao final de algum tempo vejo o homem na mesma posição, chamo uma enfermeira para dar um jeito ao homem, coloca-lo numa posição mais confortável. Era uma enfermeira já de cabelos grisalhos, claramente com muitos anos de casa … era também a coisa mais parecida com um autómato que tinha visto em 7 meses de Capuchos … dava toda sensação que quando mais acumulou em experiência e saber técnico ao longo de anos e anos de enfermagem, mais perdeu a nível de humanidade.

 

Essa sensação foi confirmada rapidamente. Expliquei-lhe que o homem não aguentava com dores nas nádegas, pedi que o colocasse numa posição mais confortável, mas não passou caso e fez menção de apenas voltar a colocar o homem direito no cadeirão, coisa que não conseguia fazer sozinha.

 

Insisti que o homem dai a dez minutos ia estar outra vez muito cheio de dores e na mesma posição pouco recomendável. A mulher a partir daqui lá achou que em vez de tratar do homem se impunha muito mais disparatar comigo … o que ela foi fazer, com quem ela foi-se meter.

 

Posta de pescada para cá, posta de pescada para lá, decidi que seria a família do Sr. Zé a colocar aquilo em pratos limpos, com todo o gosto seria testemunha caso quisessem apresentar queixa. A enfermeira abandonou o quarto deixando o Sr. Zé como o tinha encontrado, sem mais voltar para sequer o recolocar direito no cadeirão.

 

O Sr. Zé, já em abundante sofrimento e plenamente consciente do que se tinha ali passado, já oferecia 50 contos a quem o colocasse na cama e 1000 contos a quem o tirasse do hospital … agora imaginem como o homem passava mal.

 

Teve de ser o tal rapaz toxicodependente em recuperação a dirigir-se a outro enfermeiro, ao chefe de turno, e pedir que acudissem ao homem. Veio esse enfermeiro e outra colega, reclinaram o cadeirão um pouco para trás e remédio santo o homem teve paz ao ponto de ferrar o galho, tendo ficado no cadeirão pelo menos mais uma hora sem se queixar de nada.

 

Chegada a hora das visitas, informei a família do Sr. Zé do que se tinha passado. Com medo de “represálias” decidiram nada fazer. Anos a mais de Salarizmo, de ter calma, de não protestar, de fazer de conta que vivemos num pais do chamado 1º mundo.

 

Decidi que da minha parte, aquela enfermeira não me tocaria mais. Assim, algures na tarde, quando a dita enfermeira veio para me colocar medicação, arranquei-lhe bruscamente as torneiras da medicação da mão e informei-a brusca e agressivamente que em mim ela não tocava mais, nem em mim, nem na minha medicação, nem nas minhas torneiras … tomada de surpresa e ressabiada pergunta-me porquê, ao que eu respondo “porque por aquilo que vi de manhã, na forma como tratou aqui do Sr. Zé, perdi toda a confiança no seu discernimento profissional”.

 

Quer-me parecer que em toda a sua vida nunca ninguém lhe tinha dito nada de parecido. Pior do que uma barata sai do quarto dizendo entre dentes “você e que sabe” e vai ter com uma colega. Essa colega vem ter comigo quase de imediato a perguntar-me qual era o problema, e ai já delicadamente lhe respondi que com ela não havia problema nenhum e que estava a vontade para me administrar a medicação.

 

A jovem enfermeira insiste em me perguntar o que se tinha passado. Quando começo a explicar, reaparece a cusca da ressabiada que claramente se tinha deixado no corredor suficientemente perto para ouvir o que eu ia dizer, em vez de ir trabalhar e justificar o salário para outro lado.

 

“Diga lá à minha frente o que ia dizer nas costas se tem coragem!” diz a mal-amada … já só me apetecia rir, agora ia ouvir tudo o que tinha a dizer … não foi preciso falar muito, foi apenas necessário dizer o seguinte: “aquilo que estava a dizer à sua colega é que ela, e o chefe de turno, tiveram de dispensar por si o tempo e a energia a colocarem um doente confortável, porque você preferiu empregar o seu tempo e energia a discutir comigo em vez de fazer o seu trabalho. Como tal não tenho confiança em si para tratar de mim, logo em mim você não toca mais!” … posta de pescada para cá e para lá, bate em retirada quando finalmente percebe que dali não sairá a ganhar nada. Nunca mais palavra foi trocada entre nós, tenho a certeza que a mandei para casa nesse dia com uma dose infernal de bílis no estômago e eu passei boa parte da tarde a rir-me dessa mini-vingança por indecente e maus tratos a um idoso, que me soube que nem ginjas.

 

Bateu-me a curiosidade em conhecer o chefe daquele serviço de enfermagem. Sempre gostava de saber quem era a pessoa que tinha permitido que o seu serviço fosse tão disfuncional e avacalhado como é o de Gastro (e dizem-me que até não é dos piores). Apetecia-me perguntar-lhe se ainda não percebeu que tudo o que se mantém entre a falência total dos hospitais públicos são os serviços de enfermagem geridos com humanidade, brio e rigor e a manutenção dos mais elevados graus de exigência possíveis mediante as condições existentes.

 

Nesse dia, ou no dia seguinte, a medica de serviço da Hematologia veio ver-me para se tomar uma decisão sobre a minha alta. Antes de chegar até mim esteve durante dez minutos a ouvir reclamações de outro doente de Hematologia, do pouco que percebi parece que tinha havido erros com a medicação. Quando se chegou ao pé de mim ouviu as minhas … estando na duvida se havia ou não de me mandar para casa, mediante o ambiente péssimo onde estava lá tomou a sensata decisão de me mandar para casa, com indicação expressa de regressar caso me sentisse mal ou tivesse febre. Em tempo recorde vesti-me e abalei, firmemente decidido a não regressar mas nem que a vaca tossisse.

 

Estamos entregues à bicharada e não há quem nos salve. Pagamos impostos, somos mal servidos, mas mesmo assim somos cobardes e não reclamamos porque “parece mal”.

 

Não somos governados nem nos deixamos governar. A esmagadora maioria da classe média, protegida atrás dos seguros de saúde achasse a salvo disto tudo, de viver e conhecer esta realidade bem de perto. Um dia que percebam que os seguros não cobrem certos e determinados tipos de serviços e especialidades vão lá bater com os costados nos Capuchos, para internamentos longos e vão finalmente aperceber-se da falsa sensação de segurança em que vivem.

 

Da minha parte já tive a minha dose e agora em vez de passageiro frequente vou virar turista acidental. Tenciono aproveitar bem pelo menos estes próximos dez anos que não me vai suceder nada de grave, daqui para a frente já pouco me assusta, já vi tudo o que tinha a ver.

 

Com este triste e longo relato dou por findo o blog, reservando-me despoticamente o direito de o reabrir se assim me der na real gana. Voltei hoje a sentir o prazer de fazer a barba com uma lamina de barbear … amanha almoço com amigos, com sorte visito a Companheira Elsa que está nos quartos isolados de Santa Maria a fazer transplante … fim de semana revejo família … próxima semana abalo uns dias com a namorada para uma região do Alentejo que nunca tive oportunidade de conhecer. Calma e paulatinamente vou fechando capítulos e abrindo novos.

Posted by Michael at 19:33:04 | Permalink | Comments (11)

“É hoje que me passo”

Há uma série de anos (pelo menos dez), aconteceu-me uma situação que até hoje não sei bem o que pensar dela. Estava com dois amigos e colegas à época, íamos a entrar no meu bogas, junto à faculdade. Um deles estava a acabar de fumar o cigarro no passeio, virado para a estrada, quando decidiu abrir a porta de trás do carro. Nisto vinha uma senhora idosa (teria entre 60 e 70 anos, mas nada de muletas nem nada disso, tinha-se bem nas duas pernas), pelo passeio afora, caminhando, indo à sua vidinha. Raio de sorte ou azar, a senhora idosa passa por trás do meu amigo no milésimo de segundo preciso em que ele abre a porta do carro, escancarada para cima do passeio. Ditaram as leis da física que a minha porta acertasse na senhora idosa de uma forma algo enérgica. Ditou a humanidade que para além do toque que levou da porta, a senhora se terá assustado, tendo-se quedado boquiaberta e muito atarantada com esta aventura.

 

De imediato, mas mesmo de imediato, o meu amigo (vamos chamar-lhe, por exemplo Pedro) pediu desculpas num tom de voz cordato, afável e diria até meigo, de tal forma meigo que fiquei a pensar que raça extraterrestre teria raptado o meu amigo, que sempre tive por gajo profundamente nervoso, conflituoso (se provocado) e com mau feitio (mais do que eu, imaginem).

 

De onde tinha saído aquele tom de voz meigo e apaziguador, que faria inveja ao próprio Dalai Lama?! É que o rapaz tinha mesmo mau feitio, aliás tinha mau feitio ao ponto de ser ter pegado à chapada com outro amigo meu numa festa de aniversário ali na Falagueira (em sua defesa tenho a dizer que ele nada tinha a haver com a rolha de champagne que era arremessada violentamente entre os convivas do canto oposto da mesa, quando esta inusitadamente decidiu viajar uns bons 6 metros e fazer contacto com o olho direito do Pedro)

 

Dessa noite retirei duas lições. A primeira é que as tropas da ONU nunca devem andar ébrias. Um ébrio e enfurecido Pedro passou por mim, na jornada a pé de 6 metros que encetou para se ir virar ao tabefe com o emissor do projéctil (igualmente ébrio e crescentemente enfurecido), e eu, ebriamente sem me conseguir levantar, ebriamente pensei “que se lixe, a coisa já acalma, claro que não se vão pegar ao tabefe” … lição nº 2, duvidar do meu discernimento quando estou ébrio.

 

Ao contrário dos filmes de Hollywood, houve apenas uns socos e pontapés, mas nem mobília da casa nem a louça emprestada foi partida, portando foi uma noite de pouca despesa (como se recomenda na linha de Sintra, porque dinheiro para avarias não havia), o aniversário foi celebrado meio ao estilo sérvio mas no final da noite fomos todos para casa sem problemas de maior (o  Pedro com hematoma no olho da rolha, o meu outro amigo com hematomas nas pernas das botas de biqueira de aço do Pedro), com excepção do tecto do meu quarto que não parava de rodopiar.

 

Mas divaguei ….

 

Quando o Pedro pede desculpas, a reacção da senhora idosa foi de desbloquear do estado congelado em que se encontrava e começar a dizer porcaria do género “os jovens de hoje em dia, bla bla bla” … bla bla bla porque é uma lenga lenga tão clássica de idoso frustrado que já não havia pachorra, de maneira que desenvolvi a capacidade de deixar de ouvir o resto da incontinência verbal que por vezes se apodera da terceira idade em momentos de fúria vingativa.

 

Nisto só ouço o Pedro a levantar a voz e gritar “VAI PÓ C*****O, VELHA DO C*****O!” … o que teve o efeito milagroso de fazer a idosa calar-se e afastar-se com celeridade do local. Neste momento fiquei aliviado que o Pedro não tinha sido raptado por extraterrestres, metemo-nos no carro e fomos embora.

 

Há dias em que acordo e penso que o Pedro estava bastante ao coberto da razão … há outros em que acordo e penso que terá sido demasiado agressivo e exagerado na sua reacção.

 

Poucos dias depois de findo o 4º ultimo ciclo B, em plena ressaca, acordei pensado que o Pedro estava coberto de razão. Isso era sinal que estava de mau feitio … mau feitio reforçado por saber que tinha de ir à consulta nesse dia.

 

Já no hospital, na sala de espera do Hospital de Dia de Hema, ia-me passando à séria com uma velha. Como pessoa civilizada e ordeira, cheguei lá, tirei a minha senha e sentei-me à espera de ser chamado. A sala de espera estava cheia, a arrebentar pelas costuras … seria um dia tão complicado que ao final de 5 horas de espera não conseguiria mais do que tirar sangue e mudar o penso do cateter.

 

Ao fim de uma quinzena de minutos reparo na tal velha que entra, armada em saloia vinda das berças, borrifa-se de alto para sacar uma senha e começa a fazer marcação individual ao guichet de atendimento, intrometendo-se lá entre todos os outros idosos ansiosos, que mesmo tendo senha lá acham que por via das duvidas mais vale fazerem também marcação ao guichet para evitar serem passados para trás por chicos e chicas espertas que abundam neste país piolhoso.

 

Começa-me a ferver o sangue. Estamos no Sec. XXI … aquela velha sabe de certeza que há senhas … só não sabe se não quer, porque se lhe for pedir os resumos das 30 novelas que todos os dias empestam os 4 canais de televisão grátis e poluída de certeza que mos debita melhor do que a tabuada dos dois, devidamente intercalados por todos os mexericos da rua dela e das vizinhas todas.

 

Odeio este género de gente, que permitiram décadas de Salazar, anos de Marcelo Caetano, Ramalho Eanes, Mário Soares por ai fora até chegar ao Sócrates, em quem votam porque tem um sorriso bonito e o cacique lá da aldeia mandou. O voto destas pessoas vale tanto como o meu … esse é o mal da democracia.

 

Irrita-me solenemente que estas pessoas, com este baixo nível intelectual e cultural, tenham tido a lata de criticar a minha geração, que foi a ultima que protagonizou um movimento estudantil cívico contestatário ao ataque que foi feito ao ensino superior publico, tendo nos chamado “geração rasca” … mas quantas dezenas de gerações bem mais rascas do que a minha não poluem esta terra à muito mais tempo do que a minha?

 

O que é facto é que depois dos movimentos estudantis do inicio dos 90, os da “geração rasca” nunca mais se viram movimentos contestatários da sociedade civil que levantassem a voz contra a delapidação do país e dos direitos dos cidadãos … protestar tornou-se sinónimo de algo sujo e indigno … rasca. Na onda do social-porreirismo cabe a cada português suportar os desvarios todos de governantes e compatriotas com doses tibetanas de paciência e resignação.

 

Comigo não … muito menos naquele dia. Quando chega perto da minha vez de se chamado também me levanto e começo a fazer marcação à velha, que fingindo-se de autista se mantém a fazer marcação ao guichet. Poucos minutos passam e quando está o meu numero para surgir já a velha está junto ao guichet a embaciar o vidro … chamam o meu numero e ela tem a distinta lata de meter a papelada dela pela ranhura do guichet … não fui de modas, agressivamente coloquei a minha papelada em cima da dela, acompanhada da senha que me assistia razão, e falei-lhe alto e bem duro “Com licença minha senhora, mas a vez é minha!” … fiquei à espera que houvesse protesto para a poder enviar, à semelhança do meu amigo dez anos antes, para o c*****o, mas de facto a velha deu mostras de ser tudo menos estúpida e refugiou-se atrás de um sorriso amarelo saloio e de um passo atrás.

 

Entre a fase da ressaca, o meu mau feitio, o cansaço do tempo que passei nesse dia no hospital, o stress que lá passei mais uma vez e uma paragem de digestão, estavam reunidas as condições para vir a febre … que me apanhou nesse mesmo dia, a meio de escrever este post e me fez regressar as urgências de Hema à hora do jantar. Com muito malabarismo lá foi possível passar essa primeira noite nas urgências, com uma febre não muito alta mas com diarreia, tendo sido despejado apenas no dia seguinte dali para fora e para o serviço de Gastro … esse episodio merece um post próprio

Posted by Michael at 15:03:59 | Permalink | Comments (2)

Os dias depois do Dia V

Voltar a uma vida “normal” … eh eh … a coisa tem que levar aspas porque já não sei mais o que é normal ou anormal.

 

Primeiro foi o cansaço pos-alta de uma fase de ressaca no serviço de Gastro dos Capuchos, que foi tudo menos repousante.

 

Seguiram-se uns dias bem simpáticos, divididos entre namorar, ver família (missão incompleta até à data) e amigos (missão igualmente incompleta até à data).

 

Mais recentes tive que passar uma quantidade assinalável de horas no hospital, a fazer exames, que confirmaram que a fase de tratamento foi um êxito e que deram luz verde ao arranque do tratamento de manutenção.

 

Descobri finalmente o que seria o tratamento de manutenção … 2 anos a tomar comprimidos de quimio em cima de comprimidos de quimio. Neste momento o máximo é 15 comprimidos de quimio num dia por semana, mais 3 por dia todos os dias, mais quimio injectável uma vez por mês, mais cortizona, mais comprimidos anti-enjoo.

 

Se por um lado neste momento enterrei todas as duvidas que tinham em relação a vir a ter uma ressaca (com tanta quimio e com a nova atitude que tenho em relação à vida não me parece de todo possível que a doença regresse), por outro estou a sentir na pele o peso desta carga química (que provavelmente poderá ter de ser reduzida assim se verifique que me atira os valores do sangue demasiado para baixo) e crescem os receios do efeito desta exposição de 2 anos a um tratamento químico com efeitos por determinar a nível dos meus órgãos internos e da minha fertilidade.

 

Mas nada há a fazer excepto fazer o que tem de se feito, ter juízo e suportar esta semi-pena de prisão domiciliária.

 

Finalmente de assinalar, de um ponto de vista negativo, foi a confirmação que tive esta semana que fui estúpido todos os dias de ter dado à minha actividade profissional a importância que dei desde sempre, que foi tolice total colocar nela a intensidade que coloquei … bastaram 6 / 7 meses de afastamento dela e estão completamente postos de lado todos os planos e objectivos que tinha delineado para mim próprio … cai da carroça e agora vou ter que estar na “corrida das ratazanas”, neste pais merdoso e periférico, a mercê de governantes corruptos e inaptos.

 

O que vale é que o sol ainda brilha e o mar é lindo … apesar de não me poder banhar ao sol …. apesar de não poder velejar. A vida não pára até que se extinga, leva-se socos, encaixa-se, segue-se em frente … em todos os momentos, por mais que custe ou não apeteça ou pareça improvável que algo corra bem, resta-nos ser positivo e dar o nosso melhor para que a vida nos sorria um pouco mais do que sorriu ontem.

Posted by Michael at 14:05:18 | Permalink | Comments (2)

Sunday, October 5, 2008

Dia V – 4 de Outubro

Dia V, dia da Vitoria, foi ontem, dia 4 de Outubro de 2008. Acabou. Acabaram as quimios e as ressacas. Acabaram as febres, os antibióticos, soros, internamentos e afins. Acabou-se a comida do hospital. Desta estou safo, agora é fazer por não me meter noutra, se tal for possível.

 

Como bom republicano, até preferia que fosse a 5 de Outubro, mas por motivos dos quais falarei mais a frente, e em maior detalhe noutro dia, fico satisfeito assim mesmo.

 

Estava precisamente a escrever um post na 2ª feira à noite, quando as febres me agarraram pelo pé e me puxaram até ao Hospital dos Capuchos. O serviço de urgência de Hematologia estava, mais uma vez, apinhado de gente, mas com muito malabarismo e algumas macas, a falta de camas foi superada.

 

Na 3ª feira fui transferido, não para a enfermaria de Hematologia (que não tinha vaga), mas para o serviço de Gastro dos Capuchos. Lá pude testemunhar, em primeira mão, o estado miserável do sistema nacional de saúde. O que passei por lá foi tão bom ou tão mau que tendo tido alta, a única coisa que me ocorreu foi ir para casa, ficar quietinho, deitar-me cedo e dormir 12 horas seguidas para recuperar destes dias passados na Gastro.

 

Assim sendo, a alegria que sinto nem pode ser celebrada efusivamente, restando apenas uma sensação de alivio muito grande que me preenche, por tudo ter acabado.

 

Agora regularmente hei-de ter que ir ao hospital fazer consultas e exames de rotina, hei-de ter que tomar medicação e fazer quimio de prevenção em doses mínimas muito de vez em quando, para evitar surpresas desagradáveis.

 

Quanto à minha vida profissional, a menos que haja uma coisa fantástica onde embarcar, planeio passar um mês de férias ou de actividade profissional reduzida, ao mesmo tempo que vou analisar a melhor forma de voltar à “corrida de ratazanas” do chamado “mundo real” … mas isso de voltar não será assim de forma inocente … vou-me inspirar no Pinto da Costa e tratar de entornar o campo um pouco mais a meu favor antes de entrar em campo … afinal não planeio passar o resto da vida a responder à pergunta “sou um homem ou um rato?!” com um monossilábico “hic!”

 

Queria, por agora, deixar apenas alguns pensamentos e agradecimentos.

 

A todos as pessoas, anónimos, conhecidos ou amigos, que deram sangue por mim, que me deixaram palavras de apoio, que rezaram por mim, que apoiaram a minha família, nesta época que foi a mais difícil pela qual passei (apesar de já ter tido outras bem beras). Agradeço e planeio retribuir sendo uma pessoa melhor do que era.

 

À minha família, em particular os meus pais, não tenho como agradecer, foram essenciais e imprescindíveis no meu processo de recuperação, não consigo imaginar como teria sido possível suportar o que eu suportei sem eles estarem lá para me ajudar. O meu pai é o Homem do século XX (2º lugar para o Che Guevara) e do século XXI (2º lugar por atribuir). Para a minha mãe nem há palavras suficientes para descrever o que ela fez por mim. Diz o povo “desgraçado aquele que não tem mãe”, o povo por vezes é sábio. Acho que ao longo destes 6 meses ela me deu à luz uma segunda vez, só que desta vez dei-lhe coices ainda mais fortes nos meus períodos de mau-humor.

 

Ao meu anjo, à minha flor, à melhor coisa que me aconteceu este ano, à mulher pela qual valeu a pena contrair leucemia para a conhecer, tenho também muito a agradecer e a desejar que nada, nunca, nos separe. Esta é para ti: http://www.youtube.com/watch?v=e7pS7LPzR1g

 

A todo o pessoal do serviço de Hematologia, vocês são uns grandes, já o disse previamente, sou vosso fã e estarei para sempre reconhecido do papel que desempenharam na minha cura … continuo avariado da cabeça mas isso é estrutural, não se preocupem.

 

A todos os companheiros que continuam em tratamento, desejo-vos toda a sorte e muita força. Não sou homem de rezas, se fosse rezava por todos. Esta vida pode ser bonita se assim o quisermos, por isso vale a pena lutar por ela até ao limite das nossas forças. Façam a vossa parte, que médicos e enfermeiros irão fazer a deles, inshallah (“oxalá” para os laicos, “se Deus quiser” para os outros) em conjunto, tal como no meu caso, essa cabra dessa doença vai levar uma coça que até vai andar de lado.

 

Às famílias daqueles que continuam em tratamento, não se esqueçam de nunca perder a esperança num desfecho favorável. Não faltem as forças a quem está internado, não permitam que ela vos falte a vós. Quando as coisas estiverem negras, procurem ajuda, procurem apoio onde sentirem que o podem encontrar. Em cada visita mandem energia positiva a quem está internado, por muito que vos custe. Se custar demasiado, inventem uma desculpa plausível e falhem uma visita ou duas, peçam a alaguem, amigo ou familiar que visite em vosso lugar.

 

Às famílias daqueles que não resistiram à doença ou ao tratamento, posso apenas desejar que o vosso sofrimento lentamente se transforme em melancólicas e bonitas recordações daqueles que partiram. Se são pessoas com uma elevada espiritualidade, religiosa ou outra, e acreditam que de alguma forma a vida não acaba na forma humana, apenas se transforma, então sejam consistentes no vosso sistema de crenças … qualquer pecado deste mundo foi pago nele antes de partirem, os vossos entes queridos estão certamente nalgum sitio melhor. Se, tal como eu, acreditam que a coisa fica mesmo por aqui e a vida é curta, que vos traga conforto saberem que agora quem muito sofreu, não mais sentirá dor nem conhecerá o sofrimento.

 

Tenho um par de posts por colocar antes de dar por encerrado este blog, até lá fiquem bem.

Posted by Michael at 14:23:08 | Permalink | Comments (17)