Na terra de ninguém, pelo meio do arame farpado
O 4º ciclo B está feito. Levei a ultima quimio na passada madrugada de quarta para quinta feira e estou agora em casa à espera da ressaca. Gostava de dizer que estou em casa tranquilamente à espera da ressaca, mas este é sempre assunto demasiado sério para se conseguir estar muito tranquilo.
Estou moderadamente tranquilo. Estou aliviado porque dê lá por onde der, não há volta a dar … “Alea Jacta Est” diria o Júlio, as pontes para trás estão queimadas, logo só há caminho para a frente. Acho mesmo que a tranquilidade modesta que sinto vem mesmo do facto de nestas ocasiões não haver opção, preparar para o pior esperando o melhor e avançar
As coisas lá no hospital correram dentro da normalidade, só preocupa é que de facto o serviço continua completamente submergido em doentes, quase todos os dias dei um salto as urgências visitar companheiros, todos os dias deparei com as camas da urgência ocupadas a 100% e doentes em macas.
Há doentes de hematologia espalhados por quase todos os serviços do Hospital, o que não ajuda nada em termos logísticos e preocupa bastante porque pelas historias que se contam do tratamento dado nesses outros serviços, desde o desleixo do pessoal até à falta de condições (fala-se em baratas a cirandar pelos cantos, doentes com 40º de febre a quem só são dadas duas garrafas de agua por dia por doente, pensos a serem mudados sem que os profissionais coloquem mascaras, etc…) faz-me concluir que a imagem que tenho dos Capuchos é muito superior à que realmente merece, fui (felizmente até ao momento) muito pouco exposto à totalidade da bruta realidade.
Uma das coisas que me chocou foi ter ouvido que há “senhoras” enfermeiras de outros serviços que já se terão saído com comentários do género “os doentes de hematologia são uns privilegiados” … rais’ma partam se não dá vontade de ver lá uma delas ou alguém delas próximas com uma leucemia ou um linfoma meses a fio, entre a vida e a morte, para provarem do próprio veneno e/ou dor de corno.
Infelizmente é a mentalidade que temos, de onde deriva a sociedade que temos.
Mas não me vou deter mais nisso, é gente que tem o que merece, vivem amargurados e conformados dentro do mundo que criaram e das escolhas que fizeram, à sua maneira também sofrem, estou convencido que se olham ao espelho e não gostam do que vêm.
Falemos de coisas mais positivas, falemos de boas iniciativas. Como por exemplo esta http://www.igc.gulbenkian.pt/investigadores2008/index.php?option=com_content&task=view&id=41&Itemid=59 uma caminhada pela Ciência, que irá angariar fundos para a investigação à leucemia a decorrer amanha no CCB entre as 14h00 e as 24h00. Eu sei que é um bocado em cima da hora, mas para quem poder ir lá parece-me bem meritório. Gostava de lá ir mas já entrei na fase da “cagunfa”, nesta fase do campeonato não vou arriscar nem dar a mínima abébia.
A semana passada ou lá o que foi a praxe da faculdade de Santa Maria aos caloiros do 1º ano também foi simpática, foram para o Terreiro do Paço tentar angariar dadores de medula óssea. Quando se fala tanto contra e a favor de praxes e se vêm iniciativas destas só apetece dizer que praxes destas venham e muitas.
A doação de medula óssea é algo que já devia ter abordado aqui há algum tempo e ainda não o fiz. Ainda ontem soube que um companheiro, um moço impecável de vinte e poucos anos, que já teve uma recaída, não conseguiu colher células suficientes para o auto-transplante. Há outros casos, alguns de pessoas que conheço, a esmagadora maioria não, de pessoas que precisam de encontrar um dador compatível para poderem sobreviver.
Não se trata de um dia um de vós estar em posição de ajudar alguém, ou de minorar o sofrimento de outra … estamos a falar de vocês, por dedicarem um momento da vossa vida poderem vir a salvar uma vida humana … não vos falo de uma vida humana qualquer, falo-vos de uma vida de alguém que sem sombra de duvida se têm batido por ela com todas as forças que tem, que merece uma segunda oportunidade na vida.
Existem 3 centros (Porto, Coimbra e Lisboa) onde quem quiser se pode tornar dador. Do que me dizem todos eles procuram dar todas as condições e informações para que o processo de registo se efectue de uma forma rápida, bem informada e um mínimo de inconveniente. Deixo aqui o link de um desses centros, com as moradas dos restantes http://www.chnorte.min-saude.pt/ser_dador.php bem como as palavras da Dirª do Centro Histocompatibilidade do Norte:
“Ser dador de Medula é antes de mais uma INTENÇÃO DE SALVAR alguém. SALVAR em qualquer sitio do mundo, onde a idade, o género, a raça, a cor, a religião, a condição social, o credo politico ou qualquer outra divergência não fazem qualquer diferença nem dividem os homens.
Porque há valores que se sobrepõem as discrepâncias de opinião e as diferenças que as culturas, as religiões ou a política parecem trazer entre os homens.
Porque a VIDA é um bem sagrado que nos foi concedido e confiado.
A VIDA é o que os homens se empenham em preservar quando, para além das guerras, dos conflitos, das calamidades, se mantêm solidários na doação anónima e universal da Medula Óssea.
A VIDA é a causa da luta e da união mundial contra a ameaça da leucemia. SER DADOR DE MEDULA ÓSSEA é ser combatente, é ser militante em torno da protecção do valor supremo que é a VIDA.
O Registo Mundial de dadores de Medula Óssea é o “Corpo dos companheiros” nesta luta.
Os Registos Nacionais são as primeiras correntes de união destes elos salvadores, que se entrelaçam atravessando fronteiras, esbatendo serras e ligando planuras, cruzando oceanos e unindo continentes, ligando num abraço o mundo inteiro.
Nesta corrente, neste abraço faz-se o colo da esperança, que teima em fugir das famílias e dos doentes.
Quanto maior o abraço, maior será espaço para a esperança. Quanto maior a rede de dadores, maior será a bóia de salvação a quem podem agarrar-se as famílias e os doentes, maior será o espaço para caber mais um, maior será a probabilidade de encontrar algum.
Qualquer dúvida adicional pode ser esclarecida junto dos três Centros de Histocompatibilidade.
Em torno desta luta e, numa solidariedade exemplar têm-se unido em Portugal doentes, famílias, profissionais de saúde, escolas, associações de doentes e de dadores de sangue, paróquias, grupos de escuteiros, empresários, instituições publicas e privadas das mais diversas, grupos financeiros, políticos, autarquias, pessoas das mais variadas profissões e condições, cada um contribuindo como pode para aumentar o número de dadores e a esperança dos doentes que aguardam transplante de medula óssea.
Contribua com o seu esforço, sendo dador ou ajudando a que outros que possam o venham a ser.”
Olá Michael, mais uma etapa concluída, fico muito feliz por vc, vai sair desta bem breve tenho certeza. Queria te fazer uma pergunta, vc precisou ou irá precisar fazer transplante de medula? ou no seu caso somente a quimio já traz resultados? Aqui na cidade onde moro as campanhas para doação de sangue e medula são constantes,porém poucos comparecem… no entanto, uma vez cadastrados a doação torna-se de nível nacional o que agiliza o processo. Abraços Carla
Oi Carla. Eu não vou, em principio, precisar nem de auto-transplante nem muito menos de transplante, os médicos estão apostados em conseguir que eu tenha uma remissão simples que mantenha essa doença longe de mim. So se houver recaida um dia mais tarde é que esse cenario poderá ser colocado em equaçao, esperemos que nao. Bj
Olá Michael!
Obrigada pela dica sobre o evento no CCB.
Passarei por lá.
Lurdes.
Olá Michael, espero q esteja a correr tudo bem. A minha irmã Lígia (que conheces melhor, nós só nos vimos 1 vez), deu o teu recado e parece q resultou. A médica disse que a infecção está controlada e baixou a ventilação, está praticamente a respirar por ela, no entanto ainda está inconsciente. Temos q viver um dia de cada vez e cada dia que passa é uma vitória.
Parece que vamos ter almoço ;P
Um beijinho, obrigada pelas tuas palavras e muita força para ti. Sílvia
Silvia, fico imensamente contente, a Teresa que não pregue mais partidas dessas. Agora é ter calma e dar tempo ao tempo que ela desta está safa. Almoçarada à vista portanto, a combinar
Olá Michael
Desejo que encontres a TUA Terra, e saias do arame farpado. Excelente titulo, como sempre.
E vais sair. beijinho da amiga
Zélia
Olá Michael – (sou a Ana Paula amiga da tua irmã).
Hoje, entre outras vezes, passei por aqui, … mas hoje, decide escrever-te,…hoje, quis deixar-te um beijo, desejar-te uma infinda felicidade. Que este tratamento te dê toda a paz, toda felicidade e alegria que mereces, junto daqueles que idolatras e te amam
26-9-2008 Ana Paula
Podiam ter umas T-shirts.
Eu sou …. dador de medula.
è um assunto importante e que não custa.
Abraço
Henrique
Oi Michael! Obrigada por ter respondido! Que bom que não precisou passar por um transplante.Vc não irá ter recaídas e não será preciso ter outros tipos de tratamento. Espero que esteja se recuperado bem da última quimio…
Abraços Carla
Espero que estajas a reagir á ressaca como um herói que tens sido. Tudo de bom para o futuro. Bjs
Emília
Olá Michael.
Escrevi aqui um grande texo,mas na hora de enviar…sumiu!
Vi o teu blog, no da Sofia(o marido J.tem o mesmo problema de saúde).
Sou enfermeira no Stº Antonio-PORTO, há 32 anos, mas muito revoltada com o sistema de saude que temos (apesar do Stº Antonio não ser dos piores).
Não tem qualquer cabimento doentes com as vossas patologias irem para serviços onde não há condições. O sistema himunitário precisa de condições proprias.
As minhas colegas que têm frases infelizes, deviam pensar bem, porque a falta de saúde toca a todos.
És forte, vais conseguir. Basta ler as coisas que escreves.
UM GRANDE ABRAÇO e AS TUAS MELHORAS
Eu volto.
alice (olhardebiju.blogspot.com)
Olá Michael, hj não te vou chatear com as minhas lamentações, apenas gostava de saber se está tudo a correr bem contigo. Um Beijo cheio de força. Sílvia
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