Como um burro atrás de uma cenoura
Os dias passaram e o telefone não tocou. Continuo sem ser chamado pelo hospital para completar o tratamento e a possibilidade de ter que esperar mais uma semana não está fora de questão.
Aparentemente houve uma nova dose de pessoas, inconvenientes como eu, que decidiu adoecer. Essa nova fornada saiu no entanto superior à média, demonstrando quantitativamente aquilo que já era empírico: que o serviço de hematologia dos Capuchos estava a rebentar pelas costuras, há já largos meses (ou anos?!), tendo agora entrado em falência absoluta, mascarada apenas pelo facto de dezenas de pessoas como eu estarem em casa e não acampados em tendas à porta do serviço, como aqueles alienados que queriam estar na primeira fila do concerto da Madonna.
Voltámos então claramente ao tempo da outra senhora, da pobreza envergonhada e escondida, como convém para nenhum turista deixar o País pensando que acabou de visitar o 3º Mundo … sim porque nisto o que interessa é mesmo o turista, porque todos por cá sabem que isto está tudo já algures entre a sanita e o cano do esgoto e em tendência decrescente … todos sabemos mas nada fazemos, como sempre, afinal não é por acaso que Salazar teve de morrer caindo sozinho da cadeira e mesmo assim foi preciso esperar anos para haver uma Revolução.
Tenho para mim que esta coisa de não haver mobilização para nada deriva do facto de não haver um pingo de espírito de liderança entre os quadros médios deste País. Que os quadros de topo são, na sua esmagadora maioria incompetentes e/ou corruptos e/ou desinteressados, já seria de esperar, afinal o poder total corrompe totalmente e não seriamos nós que fugiríamos a essa regra. Acho que um problema fundamental que aflige este País, é que os quadros médios aspiram a nada mais na vida do que chegarem a quadros de topo, para poderem ser plenamente arrogantes, subservientes e sabujos mas terem um certo e determinado estatuto.
No futebol, tantas vezes apontado como não sendo bom exemplo de coisa nenhuma, surgem com alguma frequência bons exemplos, quando certos e determinados treinadores apresentam a demissão por sentirem que não estão reunidas as condições para poderem ter sucesso na função … não sei se será por não aspirarem a ser presidentes dos clubes que treinam, o que é facto é fazem aquilo que muito boa gente dos quadros intermédios da função publica devia fazer neste País: pedir demissão por não estarem reunidas as condições mínimas para desempenharem a sua função.
Mas para isso era preciso tê-los no sítio e convenhamos, há falta de tomates nesta terra e os nativos só ficam alvoraçados quando alguém o diz em voz alta
Portanto cambada de ovelhas que somos, eu incluído, temos o que merecemos. Mais não digo porque não vale a pena, tantos antes de mim falaram sobre isto, há tanto tempo e tão melhor do que eu que sinceramente chego à conclusão que eu é que devo ser burro e alinhar pelo diapasão geral do silêncio e do comodismo.
Aliás, sinto-me mesmo como um burro, a quem acenam uma cenoura à frente que persigo sem conseguir alcançar. Acho que em qualquer altura do tratamento um atraso por falta de disponibilidade de camas seria muito mau, mas quando falta apenas um ciclo para acabar a coisa não é apenas muito má, assume é contornos de crueldade.
Estou cansado física e psicologicamente. Estou oficialmente num estado de ansiedade permanente, voo para o telemóvel cada vez que este toca na esperança que seja do hospital. A minha família está psicológica e emocionalmente de rastos. Eu que tenho tentado manter a calma e a serenidade, perdi completamente a paciência com tudo isto e já discuto e me exalto com quem me rodeiam por tudo e por nada. A juntar à festa, entra o medo que este atraso tenha impacto no meu tratamento, o risco existe e será tanto maior quanto maior for o atraso. Finalmente, eu que já andava a planear o meu regresso a uma vida activa, no qual tinha previsto um período de 15 dias entre sair da ressaca e voltar a trabalhar, vejo-me agora na posição de ter que tomar uma decisão bem aborrecida, entre não descansar nada e aumentar o risco de ter uma recaída e adiar o regresso à minha função e arriscar não ter função para onde voltar.
Irresponsabilidade é a coisa que me vem à cabeça insistentemente, isto tudo é de uma irresponsabilidade inconsciente a vários níveis. É também estranhamente normal, afinal por cá ninguém nunca é responsável por merda nenhuma. Vamos portanto todos fazer o exercício nacional de todos os dias, toca a fechar os olhos, estender os braços, com as palmas das mão viradas para cima e encolher os ombros repetidamente 4 ou 5 vezes.
Ontem fui novamente ao hospital, mudar o penso, fazer análises e ter consulta. Ia em brasa só de imaginar que ia ter de passar uma série de horas naquela maldita sala de espera a ouvir uma cambada a lamuriar-se disto ou daquilo ou insurgindo-se com funcionários, que têm culpa absolutamente nenhuma nas demoras no atendimento e que absolutamente nada podem fazer. Se há sitio onde o português tem dificuldade em ser silencioso e comodista é em salas de espera, para mal dos meus pecados.
Na nacional falta de hábito em procurar psicólogos para obter ajuda profissional, todos aqueles que são incapazes de sofrer em silêncio (são tantos caramba) lá acham que devem ventilar as suas desgraças onde têm audiência. Para isso a sala de espera é ideal porque pessoas como eu, que em qualquer outra circunstância as deixariam a falar sozinhas, não têm alternativa que não seja estar ali a ouvir as desgraças dos outros. Um dia destes alguém vai-me apanhar-me virado do avesso e vão ouvir o que não querem … idem aspas para todos aqueles que bufam e resmungam e se exaltam com quem não devem, para depois quando aparece o Sr. Dr ou o Sr. Engº imediatamente voltam a mostrar-se lacaios, mansos como cordeiros e recolherem a língua afiada que têm.
Felizmente estava um dia relativamente calmo e não tive de esperar muito tempo.
No fundamental, como lição a reter, apesar de ser eu que tenho leucemia, não consigo deixar de sentir imensa pena por todas as mulheres e homens que dão tudo de si naquele serviço. Eu, mais semana menos semana, hei-de me ver livre daquilo, mas eles lá irão continuar a tentar segurar as pontas de uma coisa que está em queda livre e que só irá parar num ponto tão grave que alguém irá ter que começar a tomar decisões sobre quem é para deixar morrer e quem se irá tentar tratar.
Agora peço apenas o favor de não me dizerem “tem calma” ou “tem paciência” porque é de termos todos calma e paciência a mais que este planeta está a ir todo pela pia abaixo … e agora vamos todos seguir atentamente o jornal porque não haverá certamente porcaria mais interessante a debater do que o casamento dos homossexuais.
Olá
Faço das tuas as minhas palavras.
A referência ao comportamento das pessoas nas salas de espera já me inquietou bastante.Cheguei ao ponto de pedir alto e bom som para se calarem tal era a barulheira de lamúrias que quase perfuravam meus timpanos e me impediam de ouvir a chamada para consulta… aliás, a mim e aos restantes “doentes”que me fizeram acreditar que estavam tudo menos doentes tal era o fôlego para blá blá blá.
Excelente post!
Quanto à “calma” e “paciência” é por isso que estamos como estamos.
Em situações destas ter calma ou paciência é sinónimo de burrice, na minha modesta opinião.
O país precisava, e julgo que n deve faltar muito para levantarem o rabiosque dos sofás, dum Maio 68. Se tal n acontecer passarei a ter ainda mais vergonha de ser Portuguesa!
Bjs
Michael
Cada post teu é melhor que o outro.! Excelente, uma engrenagem onde tudo se encaixa, e com tal verdade, infelizmente para todos nós, que assusta.Pior ainda é que todos, ou quase todos, sabemos para onde caminhamos,limitando-nos a assistir.Para ti um beijinho.
Zélia
Não sei o que te dizer… vc e ninguém merecem isso…Se cuida… Carla
Não digo “tem calma” mas se explodires, não o faças com que não merece
É preciso ter esperança, é bom dar uma margem, mas sem dúvida que tudo tem limites e por isso se achares que algo está errado, e levantar a voz.
Não se trata de reparar um computador avariado. São vidas que estão em jogo e por isso, sem menosprezar o esforço e dificuldades com que os profissionais se debatem, esets terão de saber gerir da melhor forma as listas de espera.
Um abraço,
Miguel
Olá Michael, provavelmente não te lembras de mim… mas já trocamos umas palavras uns dias após o teu primeiro internamento. Posso dizer que concordo em absoluto com as tuas palavras descritas neste post, isto também em grande parte por estar numa situação semelhante, estou à espera do 4º B que em circunstancias normais já deveria estar efectuado e neste momento deveria de estar à espera da febre… tenho o telemóvel sempre por perto à espera da bendita chamada, mas até agora ainda não tocou por esse motivo, a ansiedade começa a aparecer, e também a incerteza sobre se o atraso vai trazer consequências para o sucesso do tratamento…
Relativamente a fazer “barulho” sobre a situação, acho que para quem está doente pode ter uns desabafos vocais, mas não tem paciência para ir mais a fundo, pois na realidade quer é ultrapassar o problema de saúde e não se chatear com outro tipo de situações. Somos uns comodistas (os outros que se queixem). E depois existe a outra questão, vamos reclamar com quem? Com aqueles que sempre deram tudo para nos ajudar abdicando muitas vezes de almoçar ou jantar a tempo e horas? Não me parece justo!
Até porque se não fosse o grande empenho e entreajuda de todos aqueles GRANDES profissionais a situação seria mesmo caótica .
Não stresses com a situação porque eu também vou tentar, entretanto vou fazendo as minhas caminhadas e pedaladas para aliviar a cabeça e fortalecer a musculatura e espero que para a semana nos encontremos no HSAC
Cumprimentos
J.Miguel
Miguel, neste momento só pelo nome tenho dificuldade em me recordar da tua cara. Quanto a reclamar, a Direcção do Hospital seria o sitio certo onde apresentar uma reclamação … problema não é esse, problema é que para apresentar uma reclamação uma pessoa tem de acreditar que o sistema funciona … eu já deixei de acreditar.
Espero que te chamem em breve, a mim acabaram de chamar, entro hoje. Devia estar contente, mas estou tão revoltado que o maximo que consigo sentir é alivio
Michael,
Força campeão…o ultimo ciclo está já aí.Gosto de ler o que sentes….
Beijinhos
Isaura Rijo
Olá Mickael
Vim conheçer o teu blog, cheguei aqui através do meu marido , o Miguel, que neste momento também está aí a fazer o utimo tratamento…finalmente foi chamado!
Cocordo com as tuas palavras, e de facto estamos num Pais onde se cultiva o “carneirismo” e quem tenta ser diferente é apelidado de “Maluco” por querer lutar contra o que está mal.
desejo-te sorte e que tudo corra pelo melhor!
Que seja desta vez a ultima que vistas o pijama hospitalar CHSAC. Estou a torcer por isso!
Beijo e um até breve com um novo post com ainda mais qualidade que este, o qual já tem imensa!
sabes michael eu tb me revolto com todos os que reclamam com quem não tem culpa, e depois quando chega o sr. (a) Dr. (a) só não lhe lambem os pés porque não lhe pedem. Sou Recepcionista e sempre que os incompetentes dos meus colegas se atrasam porque foram lanchar, dar duas de letra… sou eu que tenho que estar a aturar pessoas arrogantes a bufar e barafustar de tal ordem que me dá azia. chegam suas excelências os solicitados, pedem desculpa pelo atraso e recebem um não sei quantos de não há problema nenhum e tal, quase que dizem que não têm pressa absolutamente alguma. e eu pergunto anda tudo doido ou serei eu que estou a enlouquecer? sorry, com tanta descarga de paleio esqueci-me da maioria da pontuação.
bjos e as melhoras.
vai tudo correr bem.
Sandra
Olá Michael,
” Quem espera desespera” mas, “Quem espera sempre alcança”, certo?
Sei que vais alcançar, tenta não desesperar no entretanto.
Já por diversas vezes referiste que a tua médica é a Dra. Madalena, Dra. Madalena Lisboa? Se sim, esta médica é 5 estrelas.
Uma VIVA!! à tua família, amigos e a ti mesmo.
Para a frente é que é o caminho.
Mais uma vez, reforço a ideia:
PENSAMENTO POSITIVO, SEMPRE!!!
Tudo de bom para ti.
Fica bem.
Beijos
Cristina
Não é o planeta que está a ir pela pia abaixo mas sim o país, talvez desde 1500, mais coisa menos coisa. Alguns séculos de má gestão.
Também não te vou dizer para teres paciência nem largar mais comentários que revelem o meu patriotismo nulo, quanto muito relembro-te que já se estava a ver que o que te saiu no fortune cookie ia dar luta, especialmente na tugolândia… no entanto, apesar do atraso do sistema socrático, o que interessa aqui é a eficiencia do sistema michaelesco… portanto caluda e continua a bater no bicho que não tarda nada tens a luta ganha de vez.
Gd Michael. Compreendo muito bem a razão para a falta de calma, temos é de agir e rápido. É preciso tomates para tomar decisões que agitem o nosso sistema pois mais dia menos dia ele vai estoirar. E serão precisas pessoas com a tua clarividencia que nos fazem pensar e nos levam a agir. bem hajas amigo.
rui piçarra
Quando será que todos percebemos que as palavras deviam passar a actos.
Estou cansado desta cultura de treinadores de bancada.
Henrique Relogio