Monday, September 1, 2008

Estou meio Martim Moniz

 

A vários níveis sinto-me hoje comparável a este herói mítico da “Reconquista” do nosso cantinho da Península … a que propósito nos decidimos “reconquistar” territórios governados por uma civilização (à época) claramente mais avançada, esclarecida, tolerante e humana é algo que me ilude … imagino um general qualquer de Afonso Henriques, uma figura desdentada, elmo arranhado, sorriso meio embaraçado, centelhas esparsas de inteligência a percorrerem-lhe os olhos, a atravessar as brumas do tempo até aos dias de hoje e a ver tudo o que aconteceu ao mundo desde as Cruzadas … teria de lhe colocar a pergunta: “Mas … porquê?!” … será que teria a sinceridade de me responder “bem, na verdade pareceu-nos uma ideia bastante bestial na altura” em vez de um lacónico “Deus Vult!”?

 

Divagando, é uma coisa que me irrita nos pacifistas, é que chegaram muito tarde à festa, mas mesmo muito tarde. A sério, no mínimo do tipo 8 a 9 séculos de atraso, é considerável, quer dizer 8 a 9 séculos, que raio andaram vocês a fazer este tempo todo? E agora querem fazer o quê?! Paz no Mundo, agora?! Mas não vêm como isso é inoportuno?!

 

É uma figura admirável o nosso Martim Moniz, um marco histórico numa longa serie de feitos de armas e de navegação, de admirável heroísmo, sacrifício e abnegação, que partilham também do facto de terem sido absolutamente contraproducentes e potencialmente crimes de lesa-pátria bem vistas as coisas, mas pronto, tudo tem de ser visto à luz das circunstâncias, afinal as situações em geral tendem a complicar-se sempre bem mais do que pensamos, não é?! Afinal, quem manda entregar a liderança a híbridos Franco-Castelhanos como o nosso Afonso Henriques, ahn?! Tinha de dar barracada!

 

A primeira razão pela qual hoje me identifico com o Martim Moniz é que me sentia entalado … ele numa porta do Castelo S. Jorge, eu no processo criativo de escrever algo. É notório que estou entalado quando começo a divagar logo ao 2º parágrafo.

 

A segunda razão (meio forçada) prende-se com o “atirar-me à brecha” ao melhor jeito shakespereano do ultimo post … o Martim Moniz pagou com a cabeça, eu felizmente paguei apenas com cansaço. Essa tem sido a nota dominante da semana, cansaço acima da média para um ciclo A. Nada de dramático, em vez de imitar o tigre tenho imitado um belo de um gato persa, bem anafadito, que pouco mais faz do que comer, dormir e largar pelo por toda a casa … e a fazer prrrrrrr se a ocasião se apresentar propicia.

 

A terceira razão (a do alucinio) tem a haver com o facto de apenas faltar talharem-me o pescoço para o picotado de cicatrizes finalmente me cobrir, praticamente do ombro direito até ao ombro esquerdo, sem interrupções … esta coisa de ter pensos e suturas dos dois lados é bestialmente aborrecida e pouco pratica … felizmente conto amanha ir retirar os pontos e o penso do implanto fixo.

 

De resto os dias vão passando, 6ª feira concluo o ciclo A, uma semana depois calculo que esteja internado ou em vias disso para começar o derradeiro ciclo B.

 

Tenho a agradecer ao pessoal da faculdade que veio cá a casa na 5ª feira passada, apesar de estar estourado, de me terem bebido todo o vinho e cerveja que tinha em casa e de terem incomodado os vizinhos todos da rua até à uma da matina, soube-me extremamente bem ter-vos cá e termo-nos rido que nem uns perdidos foi extremamente benéfico para mim.

 

Este fim-de-semana perdi mais um companheiro, o André Campos. Falámos uma única vez, no dia em que os médicos dos Capuchos o informaram de como era desesperada a situação dele. Tínhamos amigos em comum, falámos sobre isso, sobre os amigos em comum e como o Mundo é pequeno. Mais uma pessoa que tenho imensa pena de só ter conhecido numa cama dos Capuchos. No dia a seguir a termos conversado ele foi para Santa Maria, começar a preparação para tentar uma técnica inovadora mas de alto risco que infelizmente não foi eficaz. Nunca mais falei com ele, apesar de torcer por ele e de ir sabendo noticias. Infelizmente a vida não é como nos filmes e as coisas por vezes (demais) não correm bem no final. Se algum dia quiserem fazer um filme sobre alguém que lutou, se sacrificou e suportou coisas horríveis até ao limite da sua resistência para conseguir vencer, podem ter a certeza que o filme se podia basear nele.

 

De resto vou fazendo aquilo que devo fazer, para que com um pouco de sorte em breve encontre um final feliz para o meu filme.

Posted by Michael at 19:09:54
Comments

12 Responses to “Estou meio Martim Moniz”

  1. Vera Rodrigues says:

    Olá Michael. Faz já imenso tempo que ando para te escrever um comentário.
    Acho o teu blog absolutamente fantástico e inspirador. Foi sem dúvida a descoberta mais maravilhosa que fiz nestes últimos tempos… Felizmente, para além do teu blog, tive a oportunidade de te ouvir falar ao vivo na 1ª Reunião Nacional Da Associação de Enfermagem Oncológica Portuguesa e já nesse dia te achei um Lutador nato e sei, sem sombra de dúvidas, que vais sair vitorioso desta batalha… porque pessoas com a tua força e vontade de viver têm, e merecem, ganhar!
    Desejo-te tudo de bom e que esta prova termine rapidamente!
    UM BEIJO
    VERA RODRIGUES

  2. Anonymous says:

    Oi Michael! A única diferença entre vc e Martim Moniz é que pelo pouco que sei ele é uma lenda portuguesa e vc é bem real, no meu caso, virtual hehe, mas com certeza pode ser comparado a ele com sua garra e bravura. E depois diz que este blog n.é cultura?! Estou até aprendendo um pouco mais sobre Portugal e seus costumes hehe nada mau heim!
    bjs e que bom que vc está bem, fico muito mas muito feliz mesmo. Diretamente daqui do outro lado do oceano…
    Carla heheh

  3. Anonymous says:

    O Sporting tá a ganhar …
    Não incomodem o Martim Moniz que ele está a vêr o jogo … calem-se!

    Ps Michael … podes fazer um desenho do que escreveste? Sempre que te leio fico atrofiada da cabeça! Se continuo a vir cá ainda perco o único neurónio que tenho!
    Intervalo eh eh ! sporting UUUUM!!!!

  4. Anonymous says:

    Hello Michael,

    Posso desfazer o lapso? Repara bem quem escreveu no blog o excerto de Fernando Pessoa…
    Eu não estou do outro lado do Atlântico, estou bem perto, embora não te conheça pessoalmente, conheço um amigo teu, que pos sinal fala muito de ti e por fim, embora o meu nome seja com as mm letras, a ordem inverte-se. Quando tiveres algum tempo lê o que te escrevi hoje (comentario 13).
    Beijinhos e vive momentos inesquecíveis!!
    Clara

  5. Anonymous says:

    Então estamos contentes do nosso sporting.
    Ontem comecei a ler te, mas, nao consegui ir ate ao fim.Estou sempre contigo na tua luta.
    bjinhos com muito carinho da
    Zélia

  6. madalena says:

    Vou passando por aqui e admiro a tua atitude. Só queria dizer-te isto. Beijinhos Michael

  7. Anonymous says:

    Olá Michael
    Depois de ter desfeito o lapso de ontem, eu sou a Clara e não a Carla e vivo mm aqui em Lx city, vou deixar-te um poema de Fernando António Nogueira Pessoa, o qual espero que gostes tanto como eu gostei ao lê-lo:
    “A coragem de Pessoa”
    “Posso ter defeitos, viver ansioso
    e ficar irritado algumas vezes mas
    não esqueço de que minha vida é a
    maior empresa do mundo, e posso
    evitar que ela vá à falência.
    Ser feliz é reconhecer que vale
    a pena viver apesar de todos os
    desafios, incompreensões e períodos
    de crise.
    Ser feliz é deixar de ser vítima dos
    problemas e se tornar um autor
    da própria história. É atravessar
    desertos fora de si, mas ser capaz de
    encontrar um oásis no recôndito da
    sua alma.
    É agradecer a Deus a cada manhã
    pelo milagre da vida.
    Ser feliz é não ter medo dos próprios
    sentimentos.
    É saber falar de si mesmo.
    É ter coragem para ouvir um “não”.
    É ter segurança para receber uma
    crítica, mesmo que injusta.

    Pedras no caminho?
    Guardo todas, um dia vou construir
    um castelo”

    Beijinhos para ti Michael. Um dia também tu irás construir um castelo…
    Clara

  8. Anonymous says:

    Já falta mesmo muito pouco. Depois temos de combinar uma jantarada. A raquel marinho falou comigo e queria jantar connosco. Expliquei-lhe que por hora comigo não podia contar.Aguardo resposta.

    Beijocas.

  9. Anonymous says:

    O anínimo sou eu a GIgi

  10. Anonymous says:

    ola Michael, estou há imenso tempo para visitar o teu blog, mas claro há sempre qq coisa que aparece para fazer. Agora, e porque a situação da minha irmã piorou bastante, necessitei encontrar algum apoio e resolvi arranjar o tal tempinho, que achava que não tinha (será egoísmo!). Fiquei pasmada com a tua maneira de escrever, conseguiste fazer-me rir numa altura em que já não acredito em nada e onde a revolta é o sentimento mais presente.
    A minha irmã, que também já esteve ao teu lado, nos Capuchos (Teresa), está neste momento nos cuidados intensivos, toda a sua força e vontade de viver parece que desapareceu, está cansada, e não consigo aceitar que queira desistir agora e depois de tanto sofrimento. Onde estão todos aqueles seres em que ela acredita e que lhe transmitiam tanta luz?
    Por favor Michael, nunca desistas de lutar e continua a escrever por ti e por nós. Tenho a certeza que o teu filme terá um final feliz.
    Beijinho Sílvia

  11. Anonymous says:

    Silvia, nestas alturas é complicado dizer seja o que for, estou a enviar toda a força à Teresa, mas tem de ser ela a querer resistir e aguentar. Calculo que deve estar a sofrer imenso mas tem que lutar com tudo o que tem para dar. Deve custar imenso a todos, mas agarro-me à ideia que cada dia que passa é mais um dia que os medicos têm de a estabilizar. Ela que nao desista, tenha fé, seres luz ou seres de trevas, nada disso importa, so importa ela recuperar. Fiz a ultima quimio ontem, diz-lhe que exijo ve-la em pe e em forma um dia destes, vale um almoço. Bj para voces e muita força

  12. drivers tag says:

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