Tuesday, August 26, 2008

Um irredutível afro-goulés e uma semana de cão

 

Na Gália ocupada por César resistiu em tempos às legiões romanas uma pequena aldeia de gauleses, alimentados pela poção mágica do druida Panoramix … assim me foi dado a acreditar desde miúdo, que fiz quase a colecção toda de Asterix e Obelix, de cada vez que era internado num hospital em miúdo, os meus pais traziam-me um livro novo quase todos os dias.

 

Nos dias modernos, à falta de druidas, legiões romanas e lideres dignos de serem comparados a César, este africano (clarinho) ainda se inspira nessa pequena aldeia e arma-se de irredutível teimosia, mau-feitio q.b. e paciência a rodos para lidar com a cabra inconveniente que me cerca.

 

Tenho a declarar oficialmente, desmentindo comentário meu no post anterior, que não interessa para nada ser um génio da matemática, esta doença de facto mexe-se de formas insondáveis … ou dito melhor, a forma como o meu corpo anda a reagir ao tratamento ainda não se estabilizou com um comportamento constante e previsível, porque a doença propriamente dita essa foi arrumada e está KO com 99,9999% de certeza.

 

Na consulta de 5ª feira de há 2 semanas ia preparado para ficar nas urgências. Para minha surpresa agradável ainda tinha sistema imunitário (pouco mas tinha), hemoglobina e plaquetas baixas mais ainda assim dentro dos limites mínimos para o meu quadro clínico. Senti-me um genuíno Hulk (aquele verde, não essa imitação roskov que equipa de azul e branco), convencido que afinal desta feita o ciclo B não me ia atirar os valores ao chão … pura ilusão.

 

De facto estou mais forte, mas isso traduziu-se apenas em as células do meu sangue resistirem mais dia e meio até começarem a cair que nem tordos aos efeitos da quimio.

 

Na noite de sexta para sábado fui-me deitar já com 37º o que foi um erro … a febre estava a caminho e devia ter-me mantido acordado e preparar-me para vir para o hospital … optei pela técnica da avestruz, dormi mal e porcamente, com receio de olhar para o termómetro e lidar com a realidade … foi uma estupidez, que perdoo a mim próprio porque pensar que já estamos safos do pior e de um momento para o outro virmos que afinal a febre nos agarrou por um pé é um golpe psicologicamente duro … na 5ª feira estava preparado para ela, na noite de 6ª feira julgava-a uma ameaça perdida no passado e sonhava já com poucas restrições, passeios e comida boa.

 

Sábado de manha, dia 16, acordei todo moído. 38,3º graus de febre exclamava o termómetro. Sai da cama e a temperatura baixou um pouco, mas manteve-se nos 38º. Fui para o hospital, desanimado, muito desanimado. E assim começou a minha semana de cão.

 

Nas urgências deram-me paracetamol, a febre que tinha subido aos 38,8º bateu em retirada. O que veio a seguir infelizmente foi desagradável mas não foi novidade, já me tinha acontecido acho que na ressaca do 2º ciclo B. Não acontece a todo o mundo, mas acontece comigo, depois dessa descida inicial da febre, quando a temperatura do corpo dita uns aceitáveis 36,6º, sinto de repente um arrepio de frio e uma ligeira tremura do corpo … a partir dai sei que tenho menos de 30 segundos para chamar uma enfermeira porque a coisa vai ficar negra, muito negra mesmo … em menos de quase nada o frio instala-se por completo e o meu corpo retesa-se completamente e dispara em tremores tão intensos, mas tão intensos que tornam o próprio acto de respirar quase impossível … dá medo de assistir, e também dá algum medo passar por isto, mesmo quando já se é veterano da coisa.

 

Felizmente há uma espécie de paracetamol ou lá o que é especifico para estas situações, o problema é que demora pelo menos dez minutos a começar a actuar … são portanto 10 minutos de alta intensidade, que recomendo a todos aqueles que acham que andar naquelas montanhas russas do tipo “kamikaze-talibomba-vertiginoso” é o máximo e adrenalina é que é … venham experimentar dez minutos disto e depois venham-me falar de “adrenalina” e “emoções fortes”.

 

Sábado foi portanto um dia rijo … os músculos doíam-me imenso por causa dos tremores, os ossos doíam-me também (já não me lembro porquê mas é normal), estava estourado por causa da febre, dos tremores, uma noite mal dormida e uma hemoglobina baixa. Transfusões de sangue, de plaquetas, antibiótico e paracetamol para cima, a coisa foi estabilizando. O implanto fixo é que começou a aparvalhar, falhando numa das suas funções que é a de se sacar sangue sempre que necessário para analises, o que forçou os enfermeiros a voltarem as picadelas nas veias. Este foi o primeiro de 7 dias consecutivos com febres.

 

No dia seguinte por momentos senti-me ok para sair do quarto e ir ao WC. Ao regressar cruzei-me no corredor com a mãe do companheiro Nuno Canhoto … infelizmente, a situação dele tinha-se deteriorado de tal forma que qualquer esperança de sobrevivência tinha já sido perdida. Não o fui ver porque os enfermeiros estavam a tratar dele … devido as febres não voltei a ter oportunidade de o ver, viria a falecer poucos dias depois. Por um lado fiquei aliviado de não o ter visto, não saberia que lhe dizer … lutou tanto aquele rapaz pela vida e sofreu imenso, não há como medir mas foi das pessoas internadas que mais vi sofrer …e o que se diz a uma pessoa que não tem hipótese? … eu que digo sempre “luta, não desistas” não tinha cara para lhe dizer isso, ele sofria demais para eu ser capaz de lhe dizer isso. Era um rapaz impecável, 29 anos apenas, muito inteligente, bom sentido de humor, de certeza que era bom filho. Fez-me lembrar alguém que um dia disse que na guerra os bons são sempre os primeiros a morrer … a enfermaria de hematologia faz-me pensar o mesmo, mas ultimamente tenho tentado pensar que talvez não seja assim, talvez apenas nos toque mais quando a morte leva uma pessoa boa do que quando leva um tinhoso qualquer que ofende a humanidade com a sua respiração. O Nuno agora descansa em paz e a família enlutada sente agora a dor de uma tortura que terminou … e os que ficam continuam em frente.

 

Os dias foram-se passando, as analises ao sangue nunca mais estavam prontas para se identificar o raio do bicho que me afligia, de maneira que as febres eram uma visita regular e os meus habituais 35,8º de temperatura corporal eram pouco mais do que uma memória de um passado recente. A febre desgasta imenso, nunca tinha tido mais de 2 dias seguidos de febre. Só me vem à cabeça a companheira Elsa que teve 18 dias consecutivos de febre, eu com sete já me estava a grizar, ela foi uma valentona na forma como aguentou os 18.

 

Dias consecutivos de febre amolecem corpo e espírito de uma pessoa de tal forma que finalmente aderi à moda de trazer o urinol para debaixo do cobertor quando precisava de me aliviar … tornei-me bastante bom nesse desporto, se algum dia for modalidade olímpica sou capaz de me bater com qualquer chinês … dêem-me um subsidio que verão a bandeira nacional e o hino a tocar, em Londres já se for possível … prometo no mínimo uma medalha … até sou capaz de trazer duas se distinguirem entre a técnica do urinol colocado meio de flanco e a técnica do urinol ao centro … se se fizer a prova de estafeta juntam-se mais três companheiros lá da enfermaria e pode ser que arranque 4 medalhas e começo a fazer um pouco de sombra ao Phelps … ah e sou menino para competir logo de manhãzinha as 8 se for preciso … alias recordo-me de garbosos eventos olímpicos relacionados com urina (alimentada a cerveja) com os meus brothers da Amadora, a altas horas da madrugada numa certa e determinada estrada nacional, algures no Alentejo, onde deixámos inscritos a “dourado” os nossos nomes e estabelecemos recordes mundiais de extensão de rasto de urina, interrompidos apenas por um ou outro inoportuno camião que teimavam em usar a estrada que tínhamos eleito para a nossa pequena competição.

 

Isto de urinóis e arrastadeiras dá pano para mangas … estava eu a ver o Sporting-Porto, aquela soberba e merecidíssima vitoria na Supertaça Cândido de Oliveira, quando se instalou uma necessidade profunda de ir ao WC … infelizmente estava com a tensão baixa, e entrei ali numa teima com os enfermeiros que me sugeriam arrastadeiras em troca de uma deslocação ao WC … “mas eu estou bem para ir ao WC” dizia eu, “a maquina de medir a tensão diz que não estás” diziam eles … “a maquina tá avariada” dizia eu, “avariado estás tu da cabeça” diziam eles …convenhamos que usam argumentos de peso, mas estavam a lidar com uma mula que por semanas respirou ar sul-africano, reconhecidamente saturado de teimosia persistente e crónica.

 

Sugeriram-me uma arrastadeira … recusei peremptoriamente, por motivos que não eles não perceberam e que não estive na altura para explicar mas que daqui a nada partilharei convosco. De seguida sugeriram levar-me de cadeira de rodas ao WC … recusei novamente, afinal sentia-me em condições de ir pelo meu próprio pé. Decidi comprar tempo, a ver se com o jogo me subia a tensão … infelizmente ou não, o jogo estava a correr de tal maneira que não me conseguia irritar logo a tensão não subiu … eventualmente na segunda parte, depois do 2-0 lá acedi contrariado a ir de cadeira de rodas ao WC, não tinha como resistir mais ao chamamento da natureza.

 

O problema das arrastadeiras, explico-vos desde já e em primeira mão para que saibam, é que é um raio de uma coisa desenhada para mulheres … não, não é machismo a falar, ergonomicamente aquela bodega está desenhada para a anatomia feminina. “Mas Michael, qual é o defeito ergonómico da arrastadeira para o seu uso por humanóides do sexo masculino?” perguntam vocês! … e eu fico contente de vocês perguntarem isso porque mais uma vez tenho a ilusão de ter descoberto uma coisa absolutamente obvia que tem iludido o resto da humanidade … a resposta é que lhe falta profundidade!

 

Falta profundidade à arrastadeira, mas antes de elaborar aviso-vos que se estiverem em vias de ir comer qualquer coisa vou-vos colocar uma imagem desagradável na mente … sou um homem de proporções absolutamente normais, não acredito que tenha testículos desmedidos nem descaídos … com aquela profundidade não há forma de não os ter a boiar no meio de urina e fezes numa questão de segundos … caso nunca tenham experimentado, não experimentem e acreditem em mim … tê-los a boiar em urina e fezes é profundamente, mas mesmo profundamente … desagradável.

 

Lanço aqui um apelo aos engenheiros portugueses que desenvolvam uma arrastadeira masculina, é todo um mercado à escala global que está órfão e ávido de oferta. Podemos tornar-nos o maior exportador de arrastadeiras versão masculina e assim resolver o problema do desemprego e talvez da fome em Portugal. Fico a aguardar pelo convite do Presidente da Republica para ir jantar lá a casa (na condição de não me cuspir bolo-rei para cima) e receber uma qualquer medalhita de uma nação agradecida e até pode ser que o Mr Nelson “Triplo Salto” Evora me venha a pedir o autografo.

 

Estou neste momento a tentar resolver o outro grande problema da nossa nação, o de arranjar um cérebro para o nosso primeiro ou uma alternativa credível na oposição, mas quer um quer outro está mais custoso do que possam supor … se bem que o Jardim com a sua ideia de um Partido Federal fez renascer em mim uma velha ideia que venho acalentando há algum tempo … uma Republica Federal Ibérica! Espanha deixa de ser uma monarquia e todos os povos irmãos da Península Ibérica se unem de uma forma espontânea em prol do benefício comum, não subjugados à tirania centralizadora e prepotente castelhana … hey, no mínimo havíamos de ganhar muitas mais medalhas nos Jogos Olímpicos, já que claramente isso é um assunto muito mais sensível e mobilizador do que por exemplo o estado (miserável) da saúde neste País.

 

Mas divaguei …

 

Voltando à crónica do internamento, 4ª feira foi um dia psicologicamente desgastante. De manhã recebi uma excelente noticia, já estava identificado o bicho que eu tinha, o antibiótico que me iam passar a dar era especifico para a bacteriazita … fixe, pensei eu, amanha já estou ok, 6ª o mais tardar estou em casa … à tarde veio a má noticia … o sacana do implanto fixo estava infestadinho de bactérias e o antibiótico não ia conseguir remove-las … mais uma vez, caso raro um implanto-fixo sub-cutaneo infectar, aqui o do vosso amigo infectou … o mais depressa possível devia ser retirado.

 

No dia seguinte lá estava eu ao meio-dia estendido na mesa de operações … isto depois de ter ido o caminho todo a barafustar ir de maca até ao bloco de operações quando podia perfeitamente ter ido e voltado pelo meu próprio pé … 30 minutos depois lá apareceu o cirurgião acompanhado pelo júnior … quem era o júnior? Presumo que seja um maçarico acabado de sair da Faculdade de Medicina, porque nem direito a nome tinha e quero iludir-me que os 30 minutos de atraso do cirurgião devem ser explicados por ele repetidamente ter questionado o júnior se iria ou não vomitar-se / cair para o lado ou de alguma outra forma perturbar a cirurgia quando visse sangue. O júnior foi um valentão e não perturbou nada, há-de se fazer dali bom cirurgião.

 

Se por acaso tens um implanto fixo, e estás com esperança de ler que tirá-lo é ainda mais fácil do que colocar, permite-me desde já que te desengane, é que não é! … custa no mínimo, três vezes mais, quer em dor quer em tempo de recuperação. Não se trata apenas de uma questão de anestesia (apesar de o cirurgião ter sido forreta na anestesia, tema ao qual voltaremos), a questão é que a porcaria do corpo ao fim de um mês já se habituou a acomodar aquela coisa estranha e inclusive já criou “laços” com o objecto … ora se colocar se trata de talhar e empurrar com cuidadinho, remover já implica talhar e arrancar para fora à bruta … é mau e acreditem que dói … essa é a má noticia …. a boa noticia é que mais dia menos dia vai ter que sair … ok, não será uma boa noticia necessariamente mas é um dado adquirido. No global e apesar da infecção continuo a recomendar que façam o implanto fixo se tiverem a oportunidade, é extremamente cómodo e bastante seguro e faz por merecer as dores que provoca ao remover.

 

Médicos forretas na anestesia não são novidade … porque motivo são forretas ilude-me, mas não vou explorar essa via, quando existe uma outra muito mais x-fileiana a ser investigada … a das perguntas que os médicos colocam quando no fundo se estão a borrifar para a nossa resposta. Não sei se se recordam disso mas já falei disso noutro post, pois então o fenómeno voltou a acontecer com este cirurgião.

 

Chegados a fase da sutura, uns bons 20 minutos (pelo menos) depois da anestesia inicial, o homem lá começa a cravar agulha e passar linha … ora bem, aquela merda doeu. Sendo um gajo da Amadora, faço os possíveis por evitar gritar com dor, afinal é todo um concelho que estou ali a representar. Aquilo que não dá para controlar é esgares de dor e espasmos de dor pelo corpo fora quando as coisas doem …e aquilo estava a doer. Doeu à primeira cravadela, doeu à segunda e à segunda lá vem a “pergunta” do cirurgião: “Então, está a doer?!” … primeiro achei curiosa a pergunta, porque só uma pessoa de elevado autismo não teria constatado isso sem ter de perguntar. De seguida, como fui bem-educado pelos meus pais, achei por bem responder ao senhor: “Sim!” …  logo ai construi a ilusão que ia receber mais anestesia … acto continuo à minha resposta o cirugião remete-se ao silêncio, dá a 3ª cravadela, pouco depois seguida da 4ª … ilusão desfeita, lide concluída, soltem o cabresto e recolham o doente aos curros. Ora bem vejamos, sigam o meu raciocínio … se ele já tinha decidido que eu ia levar os pontos a frio, para quê parar a meio para colocar aquela pergunta inútil?!

 

Desenvolvi, enquanto devorava um bife da Portugália ao jantar, uma teoria que talvez responda este mistério ou condição anómala que parece afectar parte do corpo médico nacional … a teoria é esta (não vou arranjar amigos com ela): Sindroma de Cabeleireira … há médicos que sofrem de sindroma de cabeleireira, ou seja, no fundo gostavam, ou precisam, ou sentem necessidade de estabelecer com o cliente dos seus serviços, um mínimo de conversa de circunstância enquanto efectuam os procedimentos necessários à satisfação do serviço … alguma coisa equivalente a uma cabeleireira perguntar “então, já viu o tempo estúpido que estamos a ter este Agosto?”, que como todos sabemos é uma pergunta perfeitamente plausível e que motiva ali uns bons 30 segundos de conversa com o cliente, se for homem, ou chegando mesmo a uns bons 15 minutos de conversa, se for mulher, sendo que se for mulher tem a vantagem adicional de a conversa naturalmente evoluir para um assunto em nada relacionado com meteorologia, ad continuum até que o serviço está feito, senta-se na cadeira vaga uma nova cliente e a cabeleireira pode novamente perguntar: “então, já viu o tempo estúpido que estamos a ter este Agosto?”

 

Ora bem, o problema é que os nossos senhores doutores e doutoras, lá devem achar que andaram a estudar demasiado e que têm um estatuto na sociedade que não lhes permite colocar perguntas de circunstância sequer remotamente comparáveis aos de uma cabeleireira … ora isso é problemático à brava porque convenhamos, as cabeleireiras são mestres na área das perguntas e conversa de circunstância, aquilo com elas já evolui até uma forma de arte que mais ou menos açambarca tudo o que seja mundano. Portanto os senhores doutores e doutoras colocam-se a eles próprios numa posição ingrata de se saírem com uma conversa de circunstância que nunca ocorreria a uma cabeleireira, dai se saírem com pérolas do estilo: “Então, está a doer?!” … “Sim!” vem a resposta e depois instala-se a duvida na cabeça do médico “porque raio é que uma pessoa inteligente como eu acaba de fazer uma pergunta tão otária?!”

 

Falando para a classe médica em geral, pela qual, ao contrário do que algumas coisas que aqui tenho escrito possam dar a entender, não nutro uma antipatia inata (alguns de vós já me salvaram a vida inclusive, por mais de uma vez, portanto obrigado bacanos!) tenho isto para vos dizer: eu estou apenas aqui a dar pistas e iluminar caminhos alternativos … parte de vocês mesmo pararem, reflectirem, reconhecerem que têm um problema e a partir dai procurarem ajuda. Força ai, não desanimem, deve haver uma cura … algures!

 

Esta crónica já vai extensa e sinto que estamos avançar demasiado depressa na resolução dos principais problemas da nossa sociedade, o que por si só deveria dar direito a eu receber uma multa, então daqui a nada vou mas é dormir que amanha de manha vou ter que colocar um cateter e depois iniciar o 4º ciclo A … pois é, tive alta no Sábado e amanha estou de volta à carga … não, não me sinto 100% confortável porque a ultima dose de hospital está demasiado recente e voltar às restrições após um tão curto tempo de liberdade relativa não é fácil, mas os médicos dizem que tenho valores ok e se depender de mim não vou atrasar uma semana o plano traçado pelos médicos, especialmente tratando-se de um simples ciclo A. Cerra-se os dentes e como diria o Henrique número não sei quantos, volta-se à brecha mais uma vez, imitando a pose, a ferocidade e o fulgor do tigre.

 

Despeço-me com uma dica e uma explicação

 

Dica: Como não cair no chuveiro … ok, pode haver vários motivos pelos quais um tipo cai no chuveiro, não consigo resolver todos, mas sempre me pareceu que o maior factor de risco está quando um gajo tenta calçar as calças do pijama. Ora bem, a técnica correcta a ser empregada é a seguinte: a) colocar primeiro a camisa do pijama; b) aproveitando que é suficientemente grande a camisa para evitar que o rabo sinta a humidade do azulejo, encostar o rabo à parede; c) enfiar uma perna nas calças; d) enfiar a perna remanescente … voilá!

 

Explicação: Foram vários dias sem dar noticias, alguns de vós terão ficado preocupados, gostaria de ter podido escrever algo mais cedo mas no dia em que tive alta estava ainda demasiado fraco para poder produzir uma crónica digna, e nos dois dias seguintes tive que repartir o meu tempo entre dormir, comer, tomar a medicação e ser feliz … fiel à minha nova filosofia de vida, a parte de ser feliz roubou-me imenso tempo, tanto que tive que vos deixar no suspense mais alguns dias … é que fui feliz à brava, durante bastante horas que me pareceram minutos, fazendo coisas absolutamente simples e naturais que já não fazia há um porradão de tempo, que me revigoraram a alma para mais esta etapa desta maratona que em breve terminará … atentem que isto é uma explicação, não um pedido de desculpa, se no meu lugar procedessem de outra maneira lamento informar-vos, com carácter oficial, que os prezados amigos e leitores seriam  uns autênticos e genuínos asnos.

 

Fiquem bem

PS: Não me perguntem porque motivo a fonte está a 16, o blog.com parece ter evoluído tecnologicamente mas incompatibilizado com a capacidade de aceitar ordens deste utilizador, que freneticamente tentou reduzir a fonte por varias vezes ao habitual 12 até ao ponto que pensou “aaaaah … que ça f***!”

Posted by Michael at 00:06:53 | Permalink | Comments (19)

Sunday, August 10, 2008

Status report: 10 de Agosto


Este vai ser curtinho … acabei de ter alta do meu 3º ciclo B, uma vez ultrapassada a ressaca ficarão a faltar 25% apenas desta longa maratona … Um danoninho portanto :-).

Foi um internamento tranquilo, não me dei muito mal com a comida (apesar de estar cada vez mais saturado), nao tive desconforto de maior, bons companheiros de quarto, pessoal muito tranquilo.

O implanto fixo funcionou muito bem e nao tive que me ralar com veias nem colheitas de sangue. À cautela começei já a fazer laxantes para ver se não me volta o abcesso, por enquanto tem dado bom resultado, as fezes apesar de ainda sairem duras saem menos do que duras do que era normal

Revi imenso pessoal do serviço, de vez em quando dá saudades porque é pessoal impecavel. Revi uma série de companheiros, a maior parte dos quais estão com boa cara, alguns poucos já perto de estarem livres desta

O livro que comprei aqui há coisa de uma semana, um calhamaço de toda a ordem, tenho-o devorado … “chama-se 8 lanças contra Solimão” notavelmente bem escrito por um tal de Tim Willocks … agora é uma porra encontrar outro que me apeteça igualmente ler será um sarilho … se conhecem bons romances historicos, epocas japao feudal, cruzadas, secs 16 e 17 mediterranico, vikings etc … mandem links  sff

Tudo tranquilo portanto, a ver se me aguento em casa até 5ª feira sem ter febres

Beijos e abraços, consoante :-)

Posted by Michael at 15:14:39 | Permalink | Comments (22)

Wednesday, August 6, 2008

Porque há coisas que merecem um post

Acabaram-me de enviar isto … a ultima aula de um professor americano que sabia ter apenas semanas de vida devido a um tumor no cerebro … 1h16 que vale muito, mas mesmo muito, a pena de escutar e ver

http://www.youtube.com/watch?v=ji5_MqicxSo

“Don’t bail: the best gold is at the bottom of barrels of crap”

Posted by Michael at 13:43:51 | Permalink | Comments (6)

Monday, August 4, 2008

Filosofia barata … vá … grátis, digamos

“Se o teu conselho fosse bom, tu vendia!” dizem-me ser uma expressão popular no Brasil. Sempre a achei extremamente colorida e divertida, especialmente porque sendo de profissão consultor de gestão, estou careca de vender conselhos meus, entre outros serviços.

 

Ligaram-me à pouco do hospital, amanha vou ter consulta, calculo que os valores já estão em alta, portanto o internamento para o decisivo 3º ciclo B deve acontecer ainda esta semana, o mais tardar no inicio da próxima.

 

Parece-me portanto oportuno partilhar um pouco convosco como estou a encarar isto tudo e depois vou divagar em termos abstractos (e potencialmente presunçosos) sobre o que eu penso da Vida e da Morte e de todas as coisas que vão acontecendo pelo meio … restritas ao que me conseguir ocorrer ate as 19h e picos, que quero ver o Benfica-Guimarães, estou com vontade de me rir.

 

O ponto de partida é que eu sou um fatalista tendencialmente optimista … isto consiste em acreditar em duas coisas: em primeiro lugar, acreditar que no fundo o destino de cada um de nós está traçado, a traços de pincel grosso. A única coisa que é objectivamente reconhecida é o limite desse traço, o fatídico fim que há-de chegar, sendo que se mantém em discussão, ou envolto em bruma, as tonalidades, sons, cheiros e sabores alternativos dos diferentes caminhos que mais ou menos escolhermos até atingirmos esse limite. Em segundo lugar, acreditar que apesar de o fim ser inevitavelmente trágico e triste, apesar de este Mundo estar a ir pelo ralo a grande velocidade (levando atrás … ou será à frente?! … o tecido social e humano e a mais elementar noção de Decência), o instinto de auto-preservaçao humano irá de alguma forma conseguir que a auto-destruição da espécie humana, individuo a individuo ou em grande estilo grossista, alguma vez se venha a materializar.

 

Faz sentido?! … Provavelmente ainda não, vou portanto insistir, usando-me como exemplo: Do ponto onde estou hoje na vida, até ao meu fim neste mundo, acredito que existem um conjunto de caminhos já mais ou menos pré-estabelecidos aos quais não vou poder fugir … que caminhos são esses que serão percorridos dependem, até certo ponto das decisões que tomar, com muito do que se segue a ocorrer em consequência ou como efeito da causa que o precedeu. Muito é substancialmente diferente de tudo, logo a mais ínfima margem de manobra dada à aleatoriedade é o suficiente para que o caminho pelo qual acabamos por seguir raramente ser aquele que escolhemos, sendo que não nos apercebemos disso. São as chamadas “surpresas da vida”.

 

Felizmente nem todas as “surpresas da vida” são más … e por vezes mesmo as más “surpresas da vida” vão desembocar em novos trilhos ou ramificação, onde uma boa decisão (ou um bom conjunto de decisões), em conjunto com alguma aleatoriedade favorável, podem levar uma pessoa a um sitio na sua vida ainda melhor do que pensava possível dez passos antes.

 

Todos tomamos dezenas de milhares de decisões por dia, a esmagadora maioria delas sem pensarmos que o fazemos. Como escrevi noutro post, senti isso claramente quando voltei a casa depois do meu primeiro internamento, em que a minha desabituação a estar “em casa” e o meu estado fragilizado a nível de sistema imunitário me deixaram de tal maneira perro no crânio que sentar, deitar ou estar de pé, estar na sala ou no quarto ou no computador, virar a cabeça à esquerda ou à direita, tudo isso era alvo de uma decisão consciente.

 

Ora, se tomamos dezenas de milhar de decisões por dia e, em paralelo, temos discernimento e o nosso melhor interesse como foco, não há má sorte que possa durar a vida toda. Dai o fatalismo tendencialmente optimista.

 

Isto tudo para dizer-vos que eu, por exemplo, estou neste momento num ponto da minha vida em que sinto posso vir a ser ainda mais feliz do que imaginava possível mesmo quando era saudável … chego ao ponto de dizer-vos que já não lamento a minha leucemia linfoblastica aguda, ela veio porque assim mo estava destinado, com ela trouxe um período de reflexão interior, trouxe uma revisão e apuramento das minhas prioridades, trouxe uma maior abrangência de sentimentos e sensações, trouxe um amadurecimento emocional, trouxe de dezenas de novas pessoas, fantásticas e excepcionais cada uma à sua maneira, que conferem à minha vida actual e restante uma riqueza e um potencial incomparavelmente superior ao que imaginava possível.

 

A minha doença evoluiu assim de uma cabra odiosa para uma cabra inconveniente, algo a despachar para canto à primeira oportunidade mas que ao mesmo tempo me desbloqueou uma avenida incomparavelmente mais maravilhosa do que o trilho pesado e sinuoso por onde seguia a minha vida pré-doença. Pode parecer uma loucura mas é verdade, se um génio da lâmpada me dissesse que me curava hoje desde que eu passasse uma esponja por todas as recordações destes meus meses leucemicos, iria gentilmente declinar o negócio.

 

Boas decisões, discernimento, um pouco de sorte e a ajuda de muita gente boa, foi o que bastou … ora ou sou completamente louco ou então aceitam que é possível que isto aconteça a uma pessoa que luta contra uma doença potencialmente terminal … e se pode acontecer a uma pessoa na minha situação, pode acontecer a qualquer um, seja qual for o problema ou problemas que vos aflija ou que achem demasiado poderoso, opressor ou terrível para lidar, basta que não queiram abdicar das rédeas da vossa vida.

 

Deixem-me reforçar que não estou louco … se estou, “não façam pouco desta loucura” já dizia o poeta. Por exemplo, entendo que não estou a lutar contra a Morte. Para mim a Morte faz parte da Vida. A primeira, tal como a segunda, está entre nós, a toda a nossa volta e um dia estará dentro de nós, nós é que escolhemos fazer de conta que não sabemos que ela está lá. Não, não luto contra a Morte, ou no limite não luto nem mais nem menos do que tu e todos os outros seres vivos deste planeta. Não há como lutar contra ela, é demasiado poderosa, quando quiser a nossa companhia podemos apenas a aspirar a conseguir sorrir na hora em que aceitamos o seu convite, esse pró-forma absolutamente desnecessário.

 

Eu luto contra a doença, não contra a Morte. Tenho uma profunda divergência em relação ao meio e ao timing que me poderão conduzir à recepção do tal convite funesto. A Morte é incontornável e invencível, a doença não. A Morte é eterna, a doença pode ela própria falecer … trata-se apenas de matar todas as putazinhas (sem menosprezo pela classe profissional) células cancerígenas antes que elas ou o meu tratamento me matem a mim …. e caramba, eu sou um osso duro de roer, já terão reparado.

 

Estou portanto substancialmente calmo e confiante nas vésperas daquela que elegi como sendo a batalha orgânico-quimica decisiva do meu tratamento, uma espécie de shakespereanos conjuntos de dias de S. Crispim.

Não estou completamente calmo. Apesar de o meu estado de espírito ser altamente positivo, ao sentir cada vez mais próximo o ultimo dia de tratamento começo a permitir-me tomar consciência de mais coisas, de mais opções, de mais actividades que vou poder voltar a desempenhar em breve. Já não me é possível estar completamente focado no meu processo de cura, o espírito já está desassossegado pelo que virá depois.

 

É um risco, mas é um risco calculado, não me era possível fazer a plenitude do tratamento sem em algum momento colocar as vistas para além do objectivo fundamental … curar-me mantêm-se como objectivo fundamental, mas já não é o único, começo a querer mais do que isso … afinal, se pensarem bem, nada é mais natural do que estarmos insatisfeitos com o que alcançamos, caso contrário não teríamos nunca saído das cavernas. É essa a nossa bênção e ao mesmo tempo o nosso calvário neste Mundo, aquilo que nos mete em alhadas e faz sentir infeliz, e aquilo que nos faz sair das alhadas e conhecer momentos de felicidade e realização pura.

 

Notas relevantes dos dias mais recentes (listagem não exaustiva):

 

- Ao fim de vários meses comprei e estou a ler com agrado um livro

- Revi um amigo com quem já não falava há anos

- Dancei uma kizomba e um funana, como não fazia há meses … ia perdendo o fôlego, como sempre … a “febre” de Domingo à noite do leucémico :-) não perdi os meus talentos bailarinos

- Deitei-me na relva, como não fazia há anos … estava húmida e cheirava a excrementos de cão, mas mesmo assim soube bem.

 

17h00 … abdico de continuar a dispensar filosofia grátis em favor de um refrescante duche … ou uma sesta?! … Decisões, decisões …

Posted by Michael at 17:10:12 | Permalink | Comments (11)