Eis-me de volta, e com um titulo de post digno de Quentin Tarantino … aliás faltam-lhe os cojones para realizar um filme com um titulo destes … isso ou um pedaço de quimio ou morfina nas veias … mas não nos adiantemos demasiado, ando a tentar fazer uma serie de coisas sem me precipitar, este post é apenas mais uma dessas coisas, de longe a mais importante.
Pensará o leitor, será este um daqueles posts estranhos de um daqueles gajos estranhos meio para o gótico ou de alguma outra forma afectados por alguma espécie de fetiche? … respondo desde já que não, mas não resisto a dar um pouco de publicidade ao ultimo trabalho dos Moonspell, que são tugas e dão cartas no mercado deles, aqui vai: http://www.youtube.com/watch?v=ZQnnws9sq9I
Voltando ao tema central, eis senão que na noite do dia em que escrevi o ultimo post tive uma bela duma febre e fui de charola para os Capuchos … apenas passei 2 dias em casa depois de ter alta a seguir ao 2º ciclo B, tendo depois ficado 15 internado nos Capuchos para recuperar da ressaca da quimio.
Podia ser portuga e dizer “epá que galo, nada me corre bem, sou um desgraçado” mas não faz o meu género e acho que fui responsável por isto … ou se não fui cometi alguns erros na noite em que me veio a febre que devo partilhar convosco
Bom, como já devem ter percebido tive febre na noite de 17 para 18 de Junho. Esta febre pode ter tido duas origens:
A – Tinha uma infecção urinaria, que não foi detectada pelos médicos durante o internamento, nem debelada pelo meu sistema imunitário antes de ele ter ido ao ar (e foi ao ar bem cedo desta vez)
B – Lembram-se nas dicas de eu ter dito para não se forçar a coisa quando se está na sanita? Pois é, mea massima culpa, forcei e arranjei um belo sarilho que explorarei mais a frente e que inspira o titulo do post
Lições aprendidas com estes acontecimentos:
1 – Esta sacana desta doença é mesmo imprevisível, depois do 1º ciclo B aguentei em casa 7 dias ate chegar a zeros no sistema imunitário, desta feita aguentei apenas 4 dias ou lá o que foi. A matemática não funciona muito direita com esta cabra, deve ser de a axiomática ter sido definida Amy Winehouse ou coisa que valha, essa grandessíssima bêbeda e drogada (curtia conhece-la, deve ser uma chavala fixe para umas gargalhadas, assim apenas entre em overdose ou coma alcoólico ao pé do manager dela que é não eu para não ter de stressar com isso, já não tenho pachorra para pessoal em modo de auto-destruição)
2 – A seguir a um ciclo B é má ideia pedir à minha mãe para não dormir lá em casa. Andava para ter esta conversa há algum tempo com ela, afinal ao fim de 6 anos a viver praticamente sempre sozinho como um solteirão boémio, ter de encaixar voltar a viver com a mamã durante pelo menos 6 meses é algo que custa mais do que podem imaginar, por mais útil, prestável e quase invisível que a minha mãe tente ser, precisava de lhe dizer que, entre internamentos, precisava (preciso) por vezes de estar sozinho e de ter a casa toda para mim, para estar à vontade e fazer o que me dá na telha. A conversa, como imaginam, não foi fácil, deu direito até a algum stress, mas tinha de acontecer. O timing é que foi uma bela bosta, é que tive a febre quando não tinha ninguém em casa para me ajudar.
3 – Como da 1ª vez, vi a febre a chegar quando me fui deitar e controlei 37,8º no termómetro. Armado em parvinho, em vez de me vestir e chamar um táxi ou alguém e pôr-me a caminho do hospital, deitei-me. Fui-me controlando de hora a hora … 38.1º … 38.3º … e o tonto enroscado na cama a ver se por alguma arte magica a febre descia (afinal já sabia que ia ficar internado e não me apetecia nada que isso acontece apenas tendo estado em casa 2 dias) … 38.4º foi o meu limite, as 4 da matina liguei à minha irmã e ela veio-me buscar para me levar ao hospital. Estupidez pura e simples da minha parte … ainda por cima não sabia mas ao que parece quanto mais tempo temos febre mais as plaquetas vão ao ar.
Lá a meio da madrugada dei entrada nas urgência de hematologia, procedimentos habituais em vigor, esperar para ser observado pelo medico, levar raspanete por ter metido um ben-u-rom em casa para baixar a febre antes de me por a caminho do hospital, sacar sangue para hemoculturas (agricultura de bichezas estranhas que se passeiam no meu sangue), agulha no braço para receber soros e antibióticos … valentes horas de espera pela manha, tremores, suores frios, desconforto generalizado, sentado num cadeirão praticamente o dia todo ate que uma cama vagasse no SO para meter o pijama azul bebe hospitalar e instalar-me na rotina hospitalar novamente.
Má sorte não gostar de canja, por isso passei o dia a comer papo-secos e pão-de-leite, o que não ajudou em nada o estado de prisão de ventre que tinha começado a desenvolver.
Conheci o companheiro Augusto, alentejano de 50 e muitos, tipo porreiro e simples, mais um que andou meses a ser enrolado num centro de saúde qualquer a levar transfusões de sangue antes de ter aparecido alguém com 2 dedos de testa para escalar o caso para um hospital onde fizessem uma biopsia ou mielograma ao homem.
Lá vi a Seleção levar na pá da Alemanha, mas novamente não caio aqui na vulgaridade tuga de criticar só porque perderam, afinal não jogaram nada mal, correram, e não fosse o “empurrãozão” do Ballack e do arbitro germanófilo a coisa no mínimo ia para prolongamento e ate os comíamos. Foi chato, mas como eu já descobri há muito tempo que não há justiça no mundo, pela maior variedade de razões não existirá também no mundo do futebol, essa suposta “escola de virtudes” … e seja como for eu tenho leucemia, estou-me bem a borrifar para a Selecção, se ainda fosse o Sporting, que esse é sempre de Portugal todos os dias da sua existência, ao passo que a selecção só é nacional nos dias de jogo, que depois é cada um por si, venham os contratos milionários.
Só me chateia que tinha combinado ver o jogo com amigos, por isso ainda pensei em iniciar uma petição à UEFA para repetirem o Euro2008 e fazerem uma espécie de Euro2009, pode ser outra vez lá na Suíça/Áustria que é bonito e verdinho e mija chuva todos os dias no Verão que é uma maravilha … em vez disso fui dormir, afinal enquanto o seleccionador nacional não for homem do agrado do Pinto da Costa ele nunca irá enviar “fruta” da boa aos árbitros dos jogos da Selecção para ver se ganhamos uma finalmente.
Duas noites passadas no SO e abre vaga na enfermaria … yupiiii … vantagens da enfermaria sobre o SO, várias:
- Não se atura o granel e o barulho das urgências o dia todo
- Uma mesinha de cabeceira para as tralhas todas (laptop incluído) porque no SO só se tem direito a um banco onde pousar o telemóvel, o carregador, lenços e aguas
- Camas que sei manobrar para poder estar mais sentado/deitado consoante me apetece sem ter que chamar uma enfermeira ou auxiliar
- Last but not least, a possibilidade de escolher que raio se come … é que adivinhem lá, mais uma vez, em 3 refeições possíveis, 2 eram com arroz, e a 3ª era um peixe espada grelhado, com batata e brócolos, ao qual se esqueceram de acrescentar os brócolos … comi só o peixe, porque usando as palavras imortais do falecido companheiro Aurélio “a batata nã vale nada, é espanhola” … pois meus caros espanhóis, até podem ser campeões da Europa, mas a vossa batata não vale nada.
Antes de passar para a enfermaria o nutricionista passou pelo SO e prometeu que a senhora do catering que toma nota do que o pessoal pretende comer durante o fim de semana ia aparecer no SO e anotar as minhas opções … ainda bem que não sustive a respiração à espera que ela aparecesse!
Quando passei para a enfermaria pedi o livro de reclamações, tinha queixas a fazer sobre o catering do internamento no ciclo B e do internamento no SO. Não há livro de reclamações no serviço (o que achei meio estranho … ou será que devia achar naturalíssimo? Floribella mode, estou tão confuso) mas em compensação a enfermeira-chefe veio falar comigo, expus a situação e estou convencido que aquilo de alguma forma há-de ter servido para alguma coisa.
Desta feita, à semelhança do primeiro internamento, fui parar à enfermaria das mulheres. Fiquei na mesma cama onde já tinha estado, a cama onde por acaso também faleceu o companheiro Aurélio. Sei que não quer dizer nada, mas não consegui não pensar nele de vez em quando nestes 15 dias.
Comigo no quarto estavam as companheiras Teresa (3ª recaída, uma veterana e das valentonas), Isabel (recentemente internada) e Matilde (uma veterana do internamento, já não me consigo lembrar há quantas semanas aquela senhora ali está internada, lembro-me dela do tempo do meu primeiro internamento, façam as contas). Boas companheiras todas elas, infelizmente por um motivo ou outro, todas vomitavam varias vezes ao dia, todos os dias. A D. Isabel acho que era por causa do sistema nervoso, tal como eu estava nos primeiros dias do meu primeiro internamento. Passados uns dias acalmou-se e não voltou a vomitar.
Perdi mais um companheiro desta vez, o João Martins. Tipo impecável, era modelo do Nuno Gama, o estilista. Conheci o João por intermédio da amizade que as nossas mães travaram enquanto esperavam pelas horas de visita. Falei mais tempo com o João no dia em que ele soube que tinha tido uma recaída, tentei anima-lo o melhor que pude, mas ele psicologicamente estava muito na merda … não é de admirar, fez o tratamento todo, que lhe custou e muito, ao fim de 3 semanas depois de ser dado como curado a cabra voltou para o atacar. Acho que no fundo ele estava consciente que a toxicidade da quimio ia aumentar e sentia que não ia aguentar o tratamento.
Quando fui internado e ainda me conseguia mexer fui vê-lo no primeiro dia, mas nos seguintes já ele estava tão mal que ia vê-lo à mesma, mas optava por deixa-lo descansar e preservar as forças para falar com a família e amigos próximos. Até que houve um dia em que os enfermeiros me disseram que era melhor não o ir ver, pouco depois disso foi transferido para S. Jose, onde faleceu. Puta crueldade o que lhe aconteceu.
De positivo no meio disto tudo é que fiquei a saber que o Sr. Nuno Gama, para alem de patrão / cliente era um amigalhaço de primeira, perto do fim se não me engano todos os dias foi ver o João, um amigalhaço e um Senhor com S maiúsculo..
Fora o falecimento do João, os dias foram passando mais ou menos sem historia … passei o fim de semana a comer o que se lembravam de me trazer, não fosse a Xi (uma senhora do catering de origem macaense que é uma jóia de pessoa) ainda a ter o cuidado de me oferecer alternativas quando existiam e acho que não tinha comido nada feito pelo catering durante o fim de semana … minto, o Bacalhau à Zé do Pipo estava uma classe, recomendo. Na TV como é habito, nada de jeito, fora o futebol. Na PSP (não é a policia, é aquela consola pequenina, de jogos) joguei muito FM2008, simulador de estratégia de futebol e levei o Sporting ao título nacional. Não sei porquê não me preencheu muito esse feito.
Entretanto a prisão de ventre mantinha-se. Laxantes para cima e nada. Cada tentativa que fazia para ir ao WC, mais me doía o esforço de evacuar. Um belo dia acordei com uma bela dor no rabo, que de bela não tinha nada, mal me podia sentar. No duche passo mão pelo rabo e sinto um alto … pois é, tinha um sacana de um alto dentro do ânus que, sem fazer favor devia ser do tamanho de um ovo de tartaruga … se os tivesse, teria pensado para os meus botões “puta que pariu, só me faltava mais esta” … mas como estava nu, não tinha botões com os quais pensar, logo devo ter pensado apenas “ora bolas, que maçada” por isso escuso de passar por javardão neste blog outra vez, proferindo palavrões e obscenidades sem necessidade.
Lá informei os enfermeiros, que lá informaram a medica de serviço, que lá veio ver-me. Já não me lembro o que ela fez, sacana da morfina é do pioro para memoria (esperem la chegaremos). Deram-me uma pomada que devia aplicar internamente duas vez por dia … “porreiro, cenas para enfiar pelo rabo” pensei eu … não fez absolutamente nada a porcaria da pomada. Também fiz gelo, que fundamentalmente fez-me ter frio no rabo, sem efeito visível no alto que eu tinha … se calhar estou a ser mauzinho, afinal estava neutropenico e aquilo manteve-se sempre mais ou menos do mesmo tamanho, de maneira que gelo, pomada e antibiótico em conjunto sempre conseguiram manter a infecção controlada.
Vieram varias vezes perguntar-me se queria algo para as dores mas recusei sempre, não queria ir ao WC anestesiado e pôr-me a força como um animal e rebentar aquela porcaria. Acabei por aceitar apenas uma pomada anestesiante para aplicação externa, para estar menos desconfortável na cama.
Cada vez que me tentava sentar era umas dores que não podia. Dava-me um arranque para ir ao WC era umas dores que desistia logo de fazer qualquer tipo de esforço para evacuar. Passou um dia e o cenário repetiu-se. Alguém, deve ter sido a médica de serviço, prometeu-me que um médico especialista (proctologista) havia de me ir ver nesse mesmo dia … novamente dei-me por contente não ter sustido a respiração à espera do fulano.
Nesse dia, ai a meio da tarde aparece uma auxiliar com uma cadeira de rodas para ir tirar um raio-x. Só uma alma esperta é que se lembra de mandar um doente que não consegue sentar-se, ir de cadeira de rodas ate ao raio-x, esperar um boi de tempo sentado na cadeira de rodas que o raio-x esteja livre e depois regressar de cadeira de rodas, ainda por cima neutropenico logo a ideia de andar a passear pelo hospital e expor a ainda mais bactérias um doente, que não tem tosse nem expectoração, para um raio-x de rotina ao tórax, ainda mais de gente esperta parece.
Disse e repeti à auxiliar que não ia fazer raio-x nenhum sem um medico vir falar comigo a respeito disto. Nesse dia nunca mais vi a auxiliar, nem médica nenhuma, nem a cadeira de rodas. Acho que fiquei com fama de ser um doente “difícil”, que não “obedece” ao que o médico diz … guess what, se o médico é um abrunho a ponto de mandar fazer um exame daqueles na condição em que eu estava, sem sequer se dignar a vir explicar-me minimamente a que propósito ia fazer aquele exame, não obedeço não senhor que não sou um cão, sou leucémico mas não sou estúpido e sou um homem, e como homem digo a todos os médicos que acham que deve ser feito tudo como bem entendem, sem explicarem a ponta de um corno a um doente (lúcido e na posse das suas faculdades mentais), por mais desmiolada que a coisa soe ao doente: ide todos enfiar a merda do canudo de medicina onde o sol não brilha, seus bois/vacas de merda! E já que estão nisso, aproveitem para aprender a tocar uma gaita de beiços … pronto, tá dito, venham as consequências!
Prosseguiu o dia com mais laxantes para cima e nada, vinha-me a vontade de ir ao WC, fazia só um pouco de nada de força e sentia logo umas dores de parto, varias vezes vi-me quase a desmaiar na sanita com dores. Já noite dentro volto a ter dores, lá se convencem a dar-me Microlax. Pedi logo uma arrastadeira, já sei que o Microlax comigo demora pouco a dar efeito e que não ia conseguir chegar ao WC sem me borrar nas calças. Com imenso desconforto e outros pormenores que escuso repetir, não vá alguém ler isto e perder o apetite (deixo apenas como dica que ter aqueles toalhetes de limpeza dos bebes por perto dão um jeitão do catano), lá consigo fazer meia dúzia de caganitas … muito pouco para 5 dias ou lá o que era que levava sem conseguir evacuar.
Dia seguinte, repete-se o filme, vou ao WC, dores imensas, quase desmaio, volto ao quarto, paro no corredor perto de uma enfermeira, dobrado com as mãos apoiadas nos joelhos e as pernas a tremer ainda das dores que sentia da ultima tentativa frustrada de evacuar. Acho que comecei a alçar o tom de voz, acho não, levantei mesmo, a pedir um clister e a perguntar pela porcaria do medico que me tinham prometido no dia anterior … a sério, estava num estado que ninguém naquele serviço me reconhecia, nunca tinha levantado a voz para ninguém mas já não podia com dores.
Felizmente os enfermeiros, ao contrário de certos e determinados médicos, têm sensibilidade para perceber quando uma pessoa chegou ao limite. Não sei, mas cheira-me que deve-se a passarem mais do que 2 minutos por dia a falar com o doente e a perceber como ele se sente … não sei, desconfio. Isso, não terem egos do tamanho de Saturno e conseguirem ver para além do próprio umbigo.
Aplicaram-me o clister, precedido por um bocado de pomada anestesiante aplicada internamente e toque rectal (o primeiro de vários neste internamento) a ver se havia fezes sólidas a bloquearem a saída. Mesmo com o clister, que devia ter um efeito mais ou menos imediato, a coisa demorou imenso a actuar. Quando actuou já não senti tantas dores e consegui evacuar um pouco mais do que o habitual … mesmo assim muito pouco para tantos dias de prisão de ventre.
Ponto de reflexão sobre o toque rectal … não me embaraça falar sobre ele, fiz o primeiro aos 13 anos, salvou-me a vida com o diagnostico correcto de uma peritonite (apendicite em estado avançado, com perfuração do intestino e consequente risco iminente de morte) quando o medico que anteriormente me tinha visto tinha-me diagnosticado uma gastroentrite.
Há muito homem que vive por ai meio assustado com este fantasma de um dia, Deus nos livre, lhes enfiarem um dia um dedo no cu … são tolinhos, coitados, porque se safarem a hemorróidas, colonescopias etc …, quando chegarem ali aos 40 e qualquer coisa, em qualquer check up digno desse nome, não se safam do toque rectal para controlar volume da próstata, é um dado adquirido, a menos que não queiram saber se têm cancro da próstata até ser tarde demais, como acontece a muito infeliz.
A todos esses homens digo, epá no máximo tenham medo é de gostar, porque de resto, se acham que a vossa masculinidade está presa por um fio tão pequeno, é porque nunca foi grande coisa para começar.
A minha mãe comprou-me uma daquelas almofadas para conseguir estar sentado com um mínimo de desconforto, chamam-lhe as “sogras”, não necessariamente por causa do grau de parentesco, mas porque já aquela cenas de por na cabeça para as velhotas lá nas aldeias transportarem agua e mais não sei o que na cabeça já se chamavam “sogras”, portanto cenas almofadas em forma de donut são chamadas “sogras” independentemente da função … vendo a historia tal como a comprei, acredita quem quiser.
Abençoada “sogra” que me permitiu ir de cadeira de rodas ao encontro do médico proctologista, com 24 horas de atraso mas lá me mandaram ao especialista. Tipo simpático, até bastante meigo para medico … acho que o truque está em ser muito meigo antes de nos enfiarem um dedo no cu e nos porem a a chiar que nem porcos.
Reparei numa cena particular nos médicos, que é o de por vezes fazerem perguntas perfeitamente inúteis, às quais respondemos mas que eles desvalorizam por completo. O primeiro exemplo foi o Dr. Ernesto (tipo impecável), no primeiro dia de internamento na ala dos homens, depois de transferido da ala das mulheres. Vai-me examinar pela primeira vez e pergunta-me assim, naquele tom calmo e solene que o caracteriza “O Michael por acaso tem hemorróidas?” … Eu respondo “Não doutor” … ao que ele responde “Vire-se de lado e baixe as calças, quero dar uma espreitadela” … francamente doutor, se de qualquer maneira ia “dar uma espreitadela”, porquê fazer a pergunta se tenho hemorróidas?!
O 2º exemplo foi com este proctologista. Lá estou eu de 4, rabo espichado, calças em baixo, com todo o esplendor da minha base lunar alpha exposta aos elementos, vira-se o doutor e pergunta “então diga lá mais ou menos, onde tem o alto?” … começo a responder “olhe é mais do lado esquerdo” e ia a virar-me para apontar o sitio quando ele me diz para me manter na posição em que estava … ok … a cena seguinte é surreal, só vista porque contada acho que não vão acreditar … toca a enfiar o dedo e só o ouço a dizer “então está-me a dizer que o alto é mais para este lado” e acto continuo mexe o dedo contra a parede esquerda do meu cólon … começo a urrar que nem um urso “sim … fffffffoda-se …é ai mesmo” ainda digo … volta o medico à carga “então para este lado nada, certo?” e mexe o dedo para a direita … “não, ai não dói” digo eu enquanto penso “não dói em termos relativos porque estás-me abrir o olho todo do cu oh meu cabrão!” … volta ele à carga só por descargo de consciência “então é mesmo para este lado que lhe dói, certo?!” e volta a mexer o dedo para a esquerda … mais urros meus, mais altos desta vez que parece que ele não tinha percebido a dica à primeira.
Sai dedo, respiro de alivio, mas apenas por segundos porque ouço o medico virar-se uma medica e dizer “oh colega venha cá ver isto” … mas ver o quê porra?! Não está mais que visto?! … dedo no cu e o medico vira-se para a medica “parece-me um abcesso instalado no lado esquerdo” … foi tipo laser a teleguiar o míssil ao alvo, dedo vira logo à esquerda, o Michael urra e chia que nem um porco … “para a direita não tem nada” … dedo para a direita … valha-nos a sensibilidade das mulheres que achou desnecessário voltar outra vez à esquerda, percebeu a minha chiadeira de suíno à primeira.
Pensava que já estava safo, mas não estava, faltava darem uma olhada com uma câmara … “fantástico”, pensei, “mais merdas para me enfiarem na peida” … a câmara pareceu-me ser menos grossa que um dedo, mas vibrava de uma forma desagradável. Imaginei que a médica estava a fazer aquilo tudo mais ou menos como eu faço zapping cá em casa nos 4 canais aberto … merda … zap … mais merda … zap … ainda mais merda … zap … olha fixe, um abcesso … bom na verdade o mais frequente é dizer merda 4 vezes de rajada e vir para o PC, temos uma televisão muito fraquita mesmo.
Voltei a falar com o médico, diagnostico formal: abcesso interno … procedimento normal, lancetar e drenar … como eu estava neutropenico essa opção estava fora de questão, sob risco de a infecção, que estava contida, alastrar.
Opção b) cerrar os dentes e aguentar-me à bomboka, ou que os valores subissem para me lancetarem, ou que o antibiótico, pomadas e gelo resolvessem ou que o abcesso drenasse por si próprio no belo dia em que lhe apetecesse … em resumo viver com a dor, por tempo indeterminado
Bom, isto vai já longo e acho que só vou a meio. Parte II segue em breve. Vou dormir muito contente por causa de um sms que recebi, mas que não vou partilhar convosco. Saibam apenas que estou muito feliz