50% do tratamento feito … esperemos
Depois de alguns dias de ausência deste espaço cibernáutico que temos vindo a construir em conjunto (eu com textos, muitos de vos com calorosos comentários), eis-me de regresso.
A razão da minha ausência explica-se em poucas linhas, fui internado no passado dia 12 para fazer o meu 2º ciclo b de quimioterapia. É uma espécie de marco relevante para mim porque me coloca sensivelmente a meio do processo do tratamento planeado, os míticos 50%, o copo meio cheio pela visão optimista.
Bom, tenho de dosear esta matemática fria com alguma imprevisibilidade bio-orgânica … tenho ainda uma ressaca pela frente, que deve bater no seu ponto mais baixo lá para dia 23. Deve dar direito a umas febres, a mais uns dias de internamento para levar uns antibióticos e umas transfusões de sangue, enfim, o típico nestas coisas
Seja como for, tudo somado (e já andei aqui a fazer umas contas) o processo está a correr dentro do planeamento elaborado pelos médicos, sem desvios, e como dizia o comandante dos “A Team”: “I love it when a plan comes together” … e depois acendia o charuto. http://www.youtube.com/watch?v=2ruV-vVSaHs&feature=related muita hora de TV na adolescência a delirar com este pessoal.
Peço desculpa se este silêncio-rádio causou alguma ansiedade a alguns dos leitores. Até levei o laptop comigo, mas nada escrevi por duas ordens de razões:
1 - O mobiliário de hospital não se compara a mobiliário de escritório, por isso não dá muito jeito escrever
2 – A principal, nunca pretendi que este blog fosse um relato diário do que me acontece … não gosto muito do formato e prefiro reflectir um pouco nas coisas e nos meus pensamento antes de os partilhar, cristalizam-se mais as ideias.
Devo dizer-vos que desta feita o internamento no Hotel Capuchos me desiludiu, aliás vou mais além e direi que passei irritado praticamente boa parte dos 4 dias que estive internado.
Se isto fosse uma crónica género “Sexo e a Cidade” e eu fosse uma cronista leucémica loura com excesso de maquilhagem, poderia dar agora escrever um titulo meio tolo do tipo “Estive 4 dias irritada … será que ando com falta de sexo?!” … ia ser um sucesso, pelo menos entre o publico feminino, não tanto para o masculino porque qualquer homem minimamente esclarecido rapidamente respondia “é bem provável” e mudava de canal para ver o Euro ou seja lá o que for que estivesse a dar.
Nunca fiquei tão saturado tão depressa de estar internado no hospital. Quem já leu o resto do meu blog pode estar a perguntar-se “mas este não era o gajo que dizia que no hospital é que se está bem, que não se devia ter pressa para ir para casa?!” … calma, não perdi a minha consistência de raciocínio … em primeiro lugar, resultado da remissão, sinto-me impecável e tenho bons valores no sangue, atestados por análises, de maneira que não há vantagem nessas condições em estar internado.
Por outro lado há outras coisas que irritam e desmontam a cabeça a qualquer um, já vos conto o quê. Mas no fundo, no fundo, depois de ter uns dias para reflectir sobre tudo isto, há uma razão fundamental que se eleva acima das outras e que vou ter que estar preparado para ela, mas essa deixarei para o final, em jeito de conclusão.
Ora bem, para começar tive um pouco de azar por ser internado numa semana com dois feriados, resultado prático não me foi dado a escolher um único prato nas 7 refeições principais (almoço e jantar) que fiz até ter alta. Menos mal que como tinha valores no sangue bons ainda pude pedir à minha mãe que me trouxesse um Big Mac num dia e uns escalopes ao madeira noutro, para equilibrar a coisa.
Agora imaginem que não apenas não me é dado a escolher prato nenhum, como ainda por cima todos os que me apareceram, com excepção de um, faziam-se acompanhar de arroz seco. Sabendo eu já de ginjeira que esta quimio me prendia os intestinos, a mera visão de arroz branco seco à frente já me punha a ferver … não consigo perceber como é que um serviço de catering para um serviço de hematologia, onde há dezenas de doentes obstipados, serve arroz branco seco … será que o catering tem sociedade com o fornecedor dos laxantes?
Para cumulo, e isto então brada aos céus como um clássico exemplo daquela atitude portuguesa do “pagam-me para trabalhar mas isto no fundo é um favor que faço a vocês todos”, as etiquetas dos pratos vinham marcadas referindo “esparregado” ou “pure de batatata” e uma vez abertas … adivinhem … arroz.
Tive vai não vai para atirar com um desses pratos contra a parede, num valente chilique histérico, mas depois lá me lembrei que no meio daquilo tudo eu ainda era um senhor e as senhoras da limpeza não mereciam que eu tivesse uma reacção dessas.
Também tive um imenso galo com o bobby desta vez. Pura e simplesmente não andava, não andava e tinha um diâmetro de rodas demasiado curto, de maneira que a primeira vez que o arrastei, com o peso dos soros que tinha no topo, ia-o deitando abaixo … havia de ter sido bonito começar logo o internamento a rebentar com uma garrafa de vidro de um litro e qualquer coisa de soro.
Na 6ª feira tive que levar maquina para correr a quimio das 24 horas, de maneira que ai então esquece, a juntar ao peso dos soros e da maquina a minha autonomia ficou mais ou menos limitada da cama até ao lavatório onde lavava os dentes (2 metros), e qualquer coisa mais que isso só se fosse para ir à casa de banho. Falando francamente, se eu quisesse e me esforçasse ate podia ter andado mais que isso, mas a minha experiencia do ultimo internamento lá me alertava que esse esforço de segurar vigorosamente o bobby ia traduzir-se numa muito desconfortável nódoa negra no dedo polegar … ora bem dito bem feito, cá estou a olhar para o valente vermelhão que me ficou no dedo de lutar com o bobby, dentro de 2 dias deve passar a nódoa negra e assim ficará mais algum tempo. Depois de ter feito a quimio das 24 horas e de me terem retirado a maquina, a minha querida estudante de enfermagem Joana lá conseguiu desencantar-me um bobby melhor, mas o mal já estava feito.
Agora gostava que vocês pudessem olhar para alguns daqueles bobbies, e tentassem perceber (que eu não consigo) como é possível um serviço ter material daquele género, material velho e enferrujado com dezenas de anos, que já devia era estar abatido e mais que abatido, absolutamente anti-funcional e contraproducente, mas que infelizmente se mantém ao serviço e pasme-se, ainda por cima está etiquetado, inventariado, catalogado e aparece orgulhosamente como fazendo parte do património do Estado e devidamente contabilizado no seu imobilizado.
Ingenuamente também pensei que talvez desta feita o serviço de cirurgia se iria coordenar com o serviço de hematologia e finalmente, aproveitando que até estava internado e com valores bons no sangue para a intervenção, iriam fazer-me o implanto fixo que está requisitado desde pelo menos Abril, julgo eu.
Esta “ferramenta”, chamemos-lhe assim, é um caso paradigmático de necessidade de coordenação entre hematologia e cirurgia, porque por um lado para poder ser feito o doente tem de ter níveis no sangue mínimos para poder ser intervencionado e porque por outro precisa de dez dias pós-operatorio para poder ser utilizada.
Um implanto fixo é um sistema ardiloso, colocado debaixo da pele, que permite a recepção da quimio, soros e antibióticos por veias de bitola mais grossa do que as das mãos e braços, e permite igualmente que seja retirado sangue para analises de uma forma muito mais cómoda … objectivo fundamental, preservar ao máximo as veias de mãos e braços, tornando muito mais funcional e rápido também toda a administração de medicação e variadas acções de enfermagem, especialmente num cenário de febres durante vários dias em que os antibióticos intravenosos arreiam com os acessos todos, que foi o que me aconteceu na CUF.
Este é o aspecto positivo. O lado negativo é que para todos os efeitos se trata de uma intervenção cirúrgica (anestesia local) com todos os riscos associados a uma intervenção cirúrgica. Aqui há uns dias ouvi inclusive um argumento que a administração da quimio ao ser feita por uma veia mais periférica fazia com que o tratamento fosse mais eficaz do que sendo feita por uma veia mais central e próxima do coração … o quanto mais eficaz será ou não acho que ninguém poderá contabilizar.
Chegado a meio do tratamento, e tendo recuperado minimamente as veias após os primeiro internamento, pergunto-me se ainda valerá a pena fazer essa intervenção, de maneira que sem ter muitos dados para tomar uma decisão por mim, tive que matutar nisto durante o fim de semana, na esperança que na 2ª feira me retirassem o ónus dessa decisão, me fizessem a intervenção e o assunto, para o bem ou para o mal, ali ficasse arrumado. Não aconteceu nada disso. A cirurgia calmamente lá está à espera de um dia destes me ligarem, alheios ao facto de eu ter estado 5 dias internado no piso abaixo do bloco operatório e pronto para a intervenção a qualquer momento
Devem ligar-me talvez lá para 5ª feira, a combinar talvez lá para 6ª, quando já hoje começo a ver pequenas pingas de sangue nos lenços cada vez que me assoo, claro indicio que as plaquetas já começaram a ir por ai abaixo. Dai vou ter de ir propositadamente até ao hospital, fazer analises que vão confirmar aquilo que já sei … não vou ter plaquetas para poder fazer a intervenção e pimba, volta tudo à estaca zero. Por este ritmo, se não tiver febres por ai alem, estou disposto a aceitar apostas que ainda vou fazer o 3º ciclo A sem ter o malfadado implanto fixo instalado ou pronto a funcionar.
Colocando o boné de consultor de gestão por momentos, sem me querer alongar, posso dizer-vos que este estado de confusão e de falta de coordenação é o corolário lógico de uma falta de evolução organizacional da forma como os serviços de saúde são prestados que acompanhe a complexidade e diversidade das inovações técnicas e tecnológicas a nível de procedimentos de tratamento.
Na idade média, com aquilo que os médicos que podiam fazer, entre o médico e um enfermeiro, umas amputações, umas sanguessugas e uns pensos mal amanhados a coisa ficava arrumada. O doente morria ou não, pouco havia a fazer. Quando começaram a aparecer hospitais mais ou menos evoluídos, apareceu a necessidade de haver auxiliares, pessoal da limpeza, pessoal de cozinha. Com a burocracia dos estados “modernos” tornou-se imprescindível haver pessoal administrativo, infelizmente não para ajudar a gerir a melhor as coisas mas acima de tudo para libertar os médicos de preencherem papelada.
Enquanto esta simples estrutura organizacional foi-se paulatinamente montando, a medicina evolui, diversificou-se, tornou-se mais complexa e mais cara, tão cara que nenhum serviço pode ser auto-suficiente no tratamento dos seus doentes. Cada vez é mais raro um medico apenas com os recursos exclusivos do seu serviço resolver as coisas … vários exemplos, é preciso sangue ou plaquetas nos Capuchos, tem de vir do S. José … doente com linfoma precisa de radioterapia … tem sair dos Capuchos e ir até Santa Maria … para ir até lá precisam de ambulância … dentro dos próprios Capuchos, existem várias dependências que existem com cirurgia, raio-x, tac, etc, que funcionam tão mal como se se tratassem de hospitais diferentes.
São décadas e décadas a fio a serem construídas estas dependências, sem existir um único perfil em toda a estrutura organizacional do Serviço Nacional de Saúde que tenha claramente a responsabilidade, as ferramentas, a apetência e o know-how para ter uma visão de conjunto deste imenso imbróglio e poder planear e abordar aquilo que fundamentalmente é um problema logístico e de coordenação … o Serviço Nacional de Saúde é uma autêntica hidra (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hidra_de_Lerna) acéfala, que precisa urgentemente de uma estrutura hierarquicamente autónoma aos directores de serviços e hospitalares, numa rede paralela de comando, gestão e controlo, que se encarregue de receber as necessidades dos serviços e as encaminhar para que sejam endereçadas.
Veja-se o exemplo das Forças Armadas … comando, planeamento, preparação, treino, eficácia e eficiência na acção. A humanidade soube investir em estruturas organizacionais adaptadas a matar o máximo numero de pessoas com o mínimo esforço possível … pasma-me que não se consiga fazer o mesmo para salvar vidas também.
Bom, divaguei … seja como for aqui fica escrito algo que me veio à cabeça a primeira vez há coisa de um mês, estava eu anémico num cadeirão nos Capuchos à espera de uma transfusão de sangue durante 7 horas. Deve ser o que me espera próxima 2ª feira outra vez.
Outra valente fonte de irritação deste internamento foi mais uma vez me ter tornado o campeão mundial da frequência urinária (à falta de melhor titulo invento este). De 30 em 30 minutos lá estive eu a ir ao urinol, não parava (durante a noite era para ai de hora a hora). A juntar à festa, não sei se era do esforço, se da quimio ou se de uma infecção urinaria (duvido), vinha-me um ardor no dito cujo que não vos passa pela ideia. Meus caros, não queiram repetir esta minha experiência, só urinar de 30 em 30 minutos já uma pessoa começa a bater mal, se juntarem dor física ao fenómeno a coisa torna-se oficialmente tortura cruel e desnecessária.
Acho que assim já vos deixei com uma boa ideia do que foi este internamento. Estive com mau feitio e com pouca vontade para poucas conversas, ansiosamente à espera do dia de alta.
Não me vou queixar muito porque mais uma vez não senti qualquer efeito da quimio que tomei, de maneira posso dar graças por isso.
Revi companheiros, nenhum deles com muito mau aspecto de maneira que não espero más noticias nas próximas semanas acerca de nenhum deles, o que me deixa imensamente feliz.
Revi o pessoal do serviço, que pela simpatia, boa vontade e uma imensa capacidade de dádiva conseguem ultrapassar e disfarçar as coisas menos boas com que os doentes de hematologia se deparam na realidade do internamento.
Mais uma vez, sem me cansar com nada disso, lhes presto aqui homenagem publica porque fazem e conseguem muito tendo muito poucos recursos, aguentam as pontas daquilo que têm para fazer, fazendo das tripas coração e ainda assim sobra sempre disponibilidade mental e emocional para mandar o pessoal para cima, injectar alento, esperança e às vezes até absorver mau feitio mal direccionado de alguns doentes desprovidos de critério. É o que vai safando este País, as pessoas especiais que vamos tendo, que dão o passo extra, a milha a mais, apenas porque sim. Heróis anónimos digo-vos eu, contente que estou de conhecer alguns pelo nome próprio.
Conforme o prometido, em jeito de conclusão, aqui fica a reflexão sobre o próximo desafio que me espera. O tratamento está a correr bem … cada dia que passa sinto afastar-se cada vez mais de mim a ideia de que isto tudo pode ainda correr extremamente mal … vim para casa sem receio da ressaca, ela virá e seguirá o seu curso, faz parte do caminho que tenho de seguir … de maneira que “força” e “coragem” já não me são palavras que me pareçam muito … como dizer … preenchidas de conteúdo … Força e coragem são precisas nas horas negras, e dessas ando a ter poucas, no meio da adversidade considero-me um sortudo e um felizardo, acreditem que sou.
A palavra fundamental para mim agora é mesmo ter paciência. Mais três meses de tratamento pela frente, vivendo apenas para sobreviver e recuperar, dependente de terceiros a maior parte dos dias, não é fácil para ninguém, muito menos para alguém como eu. E para além destes três meses fica ainda a incógnita do que vou poder fazer durante os dois anos de “cuidados de manutenção” pós-tratamento, para evitar recaídas. Prefiro nem conhecer essas restrições por enquanto, já tenho restrições que cheguem para me moerem o juízo nestes próximos 3 meses.
O blog tem ajudado, comunicar com outras pessoas também, alguns pequenos contributos que dou a amigos aqui e ali idem, mas no todo não consigo deixar de sentir-me pouco preenchido. É a triste realidade desta sociedade, quando se é saudável e se trabalha uma pessoa é solicitada para milhares de diferentes estímulos e esminfrada até não poder mais … quando arreamos deixamos de ter qualquer utilidade, não há meio termo, tornamo-nos aquela historia lamentável do “gajo tão porreiro, vejam lá o que lhe tocou em sorte”, que até parece que uma pessoa está morta em vida.
Será certamente teimosia ou mau feitio, mas de alguma forma hei-de lutar para dar a volta e ultrapassar este desafio. Isso pode passar até por parar com a criação de conteúdos para o blog, se vir que nada de novo tenho a partilhar, se vir me falta a paciência para manter a doença tão central nos meus pensamentos, eu sei que ela está lá, não me esqueço dela, não mo é permitido.
Se isto acontecer espero que não levem a mal, nada é eterno, tudo começa e acaba, e os blogs não são excepção.