Saturday, May 24, 2008

Status report: 24 de Maio

Fui ontem à consulta, com a minha médica a Drª Madalena.

 

Demorei um pouco até perceber quem era a minha médica, depois de tantas semanas no internamento pensei que seria alguém da equipa do Dr. Ernesto, agora a coisa cristalizou e fiquei a saber semana passada que oficialmente iria ser acompanhado pela Drª Madalena.

 

Continuo a esquecer-me do Drª antes do nome com certa frequência e desde que descobri que temos uma série de amigos e conhecidos em comum não é raro chamá-la apenas de Mada … A minha irmã e a minha mãe lá se descabelam todas pela minha falta de respeito, mas não consigo fazer nada, é mais forte do que eu.

 

A consulta correu tipo Kinder surpresa (Andrea, poi me devi pagare per la pubblicità), saborosas noticias a abrir: posso voltar a pegar-me à chapada com a leucemia na próxima 3ª feira, em ambulatório, ou seja levo tratamento de manha e à noite, depois vou para casa à noite. O ciclo será igual ao que já fiz e todos os que faltam fazer também serão iguais, para mim é bom porque consegui superá-los bem e assim tenho a certeza que não terei de enfrentar ciclos com toxicidade superior. A surpresa veio no final: tinha que fazer um mielograma.

 

É verdade, vou já no 5º mielograma. No mínimo terei de fazer mais 3 até ao fim do tratamento. Duas novidades desta vez, pude escolher onde seria feito (não hesitei, externo sff) e apesar de não ter pedido, colocaram-me uma almofada debaixo da cabeça. Dividi-me entre a curiosidade de assistir a tudo de plateia e o receio que aquilo me pusesse mais nervoso … venceu a curiosidade e tive assim a oportunidade de assistir a toda a intervenção. Se estão prestes a fazerem um mielograma e têm pavor a agulhas, será melhor evitarem o próximo parágrafo.

 

Anestesia local e depois foi uma coisa do género fazer furinho com um prego antes de meter a broca, quando se quer fazer um buraco para pendurar algo na parede. Agora substituam parede por pele, carne e osso, substituam prego por uma banal agulha com seringa e para concluir, substituam broca por uma espécie de agulha curta, com seringa curta, com aspecto mais robusto e diâmetro algo superior. Salvo erro é esta ultima que com um certo movimento giratório perfura o osso atingindo a medula … por instantes fica-se com uma agulha cravada no osso, tipo faquir, enquanto o médico vai buscar outra seringa para a acoplar à seringa curta. Depois nada mais simples do que começar a tentar bombar medula para fora. Novamente, tenho dificuldade em falar de dor porque os breves milisegundos em que sentimos alguma coisa de doloroso, a dor é tão fraca e passa tão rápido que volto a dizer que aquilo faz muito mais impressão do que dói.

 

Depois de 2 ou 3 bombadas reparo que a agulha está a recolher sangue, um pouco mais claro do que me é normal. A Drª dá-me a entender que desta feita conseguiram sacar-me uma amostra de medula em quantidade abundante … já com o penso colocado, espreito por cima do ombro dela enquanto ela prepara as lâminas para análise, pescando umas coisas esbranquiçadas ligeiramente mais sólidas que o sangue onde estão imersas. Arrisco perguntar se terem conseguido uma amostra tão grande se é bom sinal, se já estou a conseguir produzir medula … a resposta foi enigmática “Não lhe dei isso a entender” … bem isso também não é um não, por isso fico contente em pensar que sim, até porque nada disso me fará alterar a minha atitude ou conduta face à doença ou ao tratamento.

 

O tratamento será feito no Hospital de Dia … mas não aquele a que tenho vindo a referir como sendo o Hospital de Dia … esse afinal também é, mas não é, Hospital de Dia, sendo que o outro é claramente chamado de Hospital de Dia … apesar de a placa “Hospital de Dia” apontar para o outro … tentaram explicar-me porque motivo duas unidades diferentes tinham a mesma designação, e eu tentei perceber mas não consegui … deve ser uma daquelas coisas nacionais, de querer complicar o que devia ser simples.

 

Aproveitei o dia para visitar os companheiros … uns estão melhor, outros estão piores, outros tiveram alta, outros acabam de chegar de urgência em macas dos bombeiros … enfim. A companheira Manuela está muito em baixo … é uma daquelas pessoas que vale a pena conhecer, uma genuína guerreira e um amor de pessoa. Espero que resista e melhore, perdê-la seria um golpe forte, pelo ser humano que é, pelo carinho que staff e doentes aqui lhe têm e pela falta que fará se as energias se lhe esgotarem … Manuela, espero que em breve consigas ler estas palavras, se eu tenho material para um blogue, o teu combate deveria dar direito a um best-seller internacional.

 

Também me chocou ver outro companheiro que teve uma recaída apenas 3 semanas após ter sido dado como curado. Ter uma recaída é um golpe muito forte na moral de qualquer um, representa um voltar atrás num caminho que já foi espinhoso e longo para depois ter de avançar novamente de encontro a espinhos ainda mais numerosos e aguçados quando pensamos que estamos safos e podemos recomeçar a vida onde a tínhamos deixado.

 

Quem está ainda no primeiro tratamento está melhor não pensando muito nisso, mas uma vez concluído o tratamento irei ter muito medo de uma recaída, pelo risco acrescido que representa e pelo atraso de vida que é. Por ora a única coisa que se pode fazer é dar a esse companheiro todo o conforto e carinho que a 2ª família que encontrou entre o staff e os companheiros dos Capuchos lhe podem dar. Da minha parte conversámos um bocado e disse-lhe à saída “olha deixa estar, vamos fazer isto os 2 juntos, vais ver que vai ser um fartote!”. Força João!

 

Posted by Michael in 16:07:25 | Permalink | Comments (7)

Os 3 primeiros dias depois da noticia

Soube-me bem dormir em casa, na noite em que recebi a noticia. Depois de 2 semanas de hospital, com braços furados a receberem soro e antibiótico, voltar a casa soube bem. É algo muito comum entre os companheiros internados nos Capuchos, esta ânsia de voltar para casa, sair do internamento. Não sei se é por ter começado o tratamento à pouco tempo, não comungo sempre do mesmo sentimento, irei tentar explicar porquê num post futuro (a menos que me esqueça).

 

Acordei cedo no dia a seguir. Estava nervoso. O plano para o dia era ir aos Capuchos a uma consulta e provavelmente voltar para casa, sem ficar internado.

 

Foi exercido o ritual higiénico-alimentar típico das manhãs. Meti-me no carro acompanhado pela minha mãe, irmã e cunhado, que trabalha relativamente perto dos Capuchos, a minha mãe e irmã iriam comigo ao hospital.

 

Entrámos no caos que são os acessos a Lisboa para quem mora na Linha de Cascais … num dia mau é de desesperar … e aquele era um dia mau, começámos em fila em Caxias e assim seguimos o resto da viagem.

 

O dia começava mal, e não iria melhorar. Ao fim de uma hora de trânsito, estávamos ainda apenas na descida de Monsanto para o viaduto Duarte Pacheco, quando os meus intestinos se encarregaram de demonstrar os efeitos do meu estado de nervos: uma casa de banho era precisa urgentemente para a necessidade básica nº2.

 

Não havendo WC’s por perto, entalado no trânsito, não tive alternativa que não fosse adubar a floresta de Monsanto … enquanto me aliviava, mesmo junto à auto-estrada passou uma carrinha prisional, com um guarda prisional embasbacado a olhar para mim. “Vê lá se queres prender-me” pensei. Já aliviado, como sou um finório, em vez de papel higiénico usei lenços de papel … aroma lavanda, super-chique.

 

Chegados ao Hospital dos Capuchos, partimos a procura do Hospital de Dia de Hematologia … foi complicado dar com aquilo, mas ao final de 10 minutos perdidos lá encontrámos o sítio. Escusado será descrever como normalmente são deprimentes os hospitais públicos e respectivas salas de espera … esta não era excepção.

 

Sentia que os nervos continuavam a aumentar.

 

Lá chegou a minha vez de ser atendido por uma médica. Perguntas, mais perguntas, mais perguntas, passar em revista os exames da CUF que trazia comigo, perguntas, mais perguntas. Eu estava meio anestesiado, muitas das respostas eram dadas pela minha irmã que me acompanhou … só despertei a sério quando a Drª se virou para mim e disse: “Ok Michael, acompanhe-me ali que precisamos de fazer um mielograma”

 

Com 2 mielogramas já feitos na CUF, já me considerava um veterano da coisa … nem por isso lhe achava piada. O mielograma, para quem não sabe consiste em ser retirada uma amostra de medula para análise. O processo envolve anestesia local e, ao que me dizem, não tenho a certeza porque o ângulo de visão não mo permite, uma agulha. Um orifício é aberto na pele, carne e osso, a partir do qual se tenta sacar um pedaço de medula para análise. Este processo pode ser executado em várias partes do corpo, no meu caso os primeiros dois foram na zona dos rins, e não conseguiram sacar grande coisa (ao que parece a medula, atacada de leucemia, retraiu-se e não está espalhada pela minha estrutura óssea como deveria estar).

 

Quando me mexem nas costas normalmente não gosto. Tenho a tendência para ficar muito tenso, mesmo a fazer massagens tenho de se relembrado que devo descontrair. Isto faz com que as agulhadas nas costas me sejam, vá, digamos que desconfortáveis. Enquanto seguia a Drª lá ia pensando “já me foram ao rim esqº e ao rim dirº, devem escolher fazer isto noutro lado” … percebi depressa pelo local que anestesiavam que iam mesmo insistir nas costas … vomitei. Não tinha já nada no estômago, vomitei bílis. Se duvidas havia que estava uma pilha de nervos dissipei-as logo ali.

 

Passou depressa a má-disposição. Virei-me de barriga para baixo e começaram a trabalhar em obter uma amostra digna desse nome para análise … novamente não foi agradável a coisa, até porque tiveram que insistir bastante, sem qualquer sucesso … ao mesmo tempo pareceu-me que a coisa custou menos do que noutras vezes … ou a perícia do médico tem vindo aumentar ou à 3ª começo-me a habituar a isto.

 

Com um novo furo nas costas, pedem-me para virar de barriga para cima. “Vamos tentar noutro lado” dizem-me. Apercebo-me que está muita gente à minha volta, 2 médicos e 2 enfermeiros … “estarão com medo que eu fuja?!”

 

Vim a descobrir semanas mais tarde que já houve de facto um caso em que um paciente, um cigano segundo me contaram, que quando sentiu a agulha saiu disparado a correr porta fora, com a agulha cravada nas costas.

 

Nova anestesia, desta feita no externo. Sem almofada a apoiar-me a cabeça não consigo ter ângulo de visão para ver o que estão a fazer, e mesmo que tivesse acho que preferia não olhar. Não quero saber o que fazem, já só quero é que ao 4º mielograma consigam finalmente sacar uma amostra decente. Naquele instante é tudo o que peço do mundo.

 

Ao contrário das costas sinto muito pouco, quase nada, do que me estão a fazer … percebo que a coisa está negra, repetidamente o medico tenta puxar com uma seringa um pedaço de medula que teimosamente recusa-se a aparecer. Ao fim de várias bombadas, com o médico quase a desistir eis que sai uma minúscula quantidade de medula … apercebo-me que o que conseguiram sacar está longe de ser o que gostariam de ter sacado. Com a mão direita agarro firme o braço esquerdo do médico quando me apercebo que ele se prepara para se afastar. Peço “Doutor, não está a doer nada, insista, tire o que for preciso”. Não foi necessário mais, larguei o homem.

 

Se o leitor está em vias de fazer um mielograma, espero que esta descrição de um mielograma não o assuste. O mielograma não implica dor, acima de tudo faz impressão, e fará tanto mais impressão quanto menos descontraído estiver. Por isso descontracção é o que pretende. Ora eu não conseguia de facto descontrair-me porque me preocupava que ao fim de tantos mielogramas não havia maneira de conseguir uma amostra minimamente capaz.

 

Levantei-me da cama e apoiado num enfermeiro dirigi-me para uma marquesa. À minha frente estava uma moça muito novinha, vestida de enfermeira, que recuava. Estava branca como a cal, um olhar de pânico e ia tropeçando num banco … Disse-lhe qualquer coisa do género: “Então rapariga, fizeram o exame a mim, não me digas que vais tu desmaiar?!”

 

E foi assim que conheci a Rutinha, um amor de rapariga, estudante 1º ano de enfermagem. Aquele terá sido o primeiro mielograma a que assistiu. Mais tarde tive a sorte de ser escolhido para ser objecto de estudo da Rutinha e estou orgulhoso de ter participado, ainda que minimamente, na formação de alguém que será sem duvida uma enfermeira notável.

 

Após algum tempo de espera, fui informado que os exames confirmavam o diagnóstico de leucemia linfoblastica aguda. Para saber que sub-tipo especifico iria aguardar praticamente um mês. Não estava à espera que me viessem dizer “epá afinal não tem nada leucemia” por isso a confirmação do diagnóstico não me abalou … abalou mais a noticia seguinte: “O Michael fica internado hoje” … para essa não vinha preparado … senão tinha trazido os chinelos de banho.

 

Algures a meio da tarde tive que responder a um questionário bastante extenso … felizmente a entrevistadora era uma enfermeira com uns olhos verdes lindos, uma simpatia extrema e acima de tudo uma capacidade de corar fora do comum. Portei-me como um simpático canalha, fazendo questão de a fazer corar a cada oportunidade que tinha. Foi óptimo porque por um bocado esqueci-me de estar nervoso.

 

Findo o questionário, puseram-me a soro. Após 2 semanas de internamento, as minhas veias, que já não eram grande coisa e são “bailarinas” (tendem a sair do sitio onde foram sentidas antes da picada, o que obriga a alguma exploração com a agulha depois da picada), estavam uma bela lástima. Ter veias e defender a veia picada, tornou-se uma obsessão para mim ao longo das semanas seguintes.

 

Perto do fim do dia fui transferido para o internamento. Aí é que a coisa começou mesmo a apertar. Aqui há coisa de 20 anos estive internado cerca de um mês no hospital S. José por causa de uma apendicite que complicou, e assumi que pouco tinha mudado em 20 anos, muito menos para melhor. Aquilo que me recordo mais desse internamento eram os gritos de dor nos cuidados intensivos, e que durante muito tempo comi salada de fruta em conserva trazida pelos meus pais, porque a comida do hospital não me passava. Podem imaginar como estava de pé atrás.

 

Para ajudar a festa, eu estava internado na CUF, quarto individual, imenso espaço, janela enorme … passo para ala feminina (era a única que tinha vaga) dos Capuchos, para uma camarata de 4, com uma janela mínima. Entro no quarto e primeira coisa que ouço do companheiro da 1ª cama junto à porta foi a frase “Eu estou psicologicamente arrasado! … Já não durmo há 3 noites!” … fico a saber que o ocupante da cama ao lado tinha falecido na noite anterior … em seu lugar estava agora um senhor de alguma idade, que entre ser madeirense e não ter a placa metida não conseguia perceber um boi do que ele dizia (o que não seria grave se ele não insiste em falar comigo) … na cama seguinte estava eu e finalmente, na cama ao fundo do quarto estava uma senhora idosa, que cuspia os medicamentos, atirava-se para fora da cama, tentava arrancar a algalia e, nada satisfeita, dormia o dia todo para depois pintar a manta durante a noite (a razão pelo qual o companheiro na cama mais afastada dela não dormia há 3 noites) … pensei “Tou f*****!”

 

Como positivo apenas uma coisa, um detalhe da maior importância … senti que por parte de toda a gente naquele serviço, repito, toda a gente, havia amabilidade, sentido de humor, enfim todo um esforço no sentido de fazer com que quem está internado se sinta psicologicamente melhor.

 

As 7 da tarde, vêm trazer o jantar … 19h00 … ninguém janta as 19h00, pelo amor da santa! Há anos que não jantava antes das 21h00 … há poucas semanas, não importa qual o dia da semana, as 19h00 estaria ainda a teclar furiosamente a tentar deixar o serviço controlado. Ainda por cima sentia-me mal disposto … enfim, lá tentei começar pela sopa … 2 colheradas e já me estou a vomitar todo (e a comida não é tão má quanto isso)

 

Tinha-se tornado oficial, o meu estado de nervos era total e completo. Sabia que era importante alimentar-me para que os tratamentos corressem o melhor possível, já estava preocupado porque tinha perdido 4 kgs internado na CUF e estava a ver a coisa muito mal parada. Não estava psicologicamente arrasado (ou estaria?), mas aquela determinação toda que tinha no dia anterior estava agora ameaçada de ruína pela fundação.

 

As 22h00 veio a ceia … consegui beber uma espécie de batido de proteínas para compensar não ter almoçado … tentei adormecer … nisto a senhora da cama de fundo (doravante conhecida como “a velha” e possíveis variações da palavra), que até ai tinha estado relativamente calma / a dormir, começa a pintar a manta.

 

A velhota metia dó de olhar. Algaliada, braço esqº entrapado por ter caído e partido o braço, uma cor estranha. Estava preocupado com a mulher, de maneira que estava atento a todo o ruído que ela fizesse, por duas vezes chamei os enfermeiros por causa dela, a mulher não parava quieta, volta e meia lá abria a cortina para ver que ela fazia e pedia-lhe “Minha senhora, durma, fique quietinha na cama” … entre os barulhos que ouvia e a frase “eu quero ir para casa, eu vou para casa” tive a notória sensação que a mulher estava com ideias de saltar para fora da cama … as grades laterais estavam em cima, portanto pensei “a velhota está feita num oito, não há-de conseguir sair da cama” … nisto ela abre-me a cortina e fica ali embasbacada de pé a olhar para mim … a sorte protege os loucos, não haja duvida, toca de chamar os enfermeiros.

 

Conseguem mete-la de novo na cama, acalmaram-na um pouco, mas eu tinha a certeza que aquilo era sol de pouca duração … não demorou mais de 10 a 15 minutos voltei a ouvir ruídos … abro a cortina, e volto a dizer a mulher que sossegue. Ela insistia que queria ir para casa. Eu cometo o erro de pensar que argumentos racionais seriam úteis nesta fase, e repito uma das coisas que os enfermeiros lhe tinham dito ainda há pouco: “Minha senhora, não vê que não pode ir para casa, está ai com algália e tudo, está lá em condições de ir para casa” … Para quem não sabe uma algália é tipo um tubo que liga a bexiga directamente a um saco, usada para pessoas que têm problemas ou alguma condição que não lhes permita urinar. Vim a descobrir mais tarde que para funcionar, depois de inserido o tubo, o tubo expande-se dentro do corpo, ficando uma espécie de câmara de ar, portanto se alguém arrancar a algalia à má fila aquilo é suposto dar muito mau resultado … ainda não sabia deste pormenor, mas lá calculei que boa coisa não podia vir quando ouvi a velhota a dizer “Vou arrancar isto” e começa a puxar pelo tubo … berrei com a mulher “fique quieta já lhe disse!” enquanto pressionava rapidamente o botão de alarme … entraram enfermeiros, contei-lhes o que ela estava a tentar fazer e desta feita decidiram-se que já não havia espaço para meias medidas … amarraram os braços da mulher à cama e puseram-na a dormir com um tranquilizante qualquer. Foi da maneira que se conseguiu dormir qualquer coisa naquele quarto … nem quero pensar no que teriam sido as 3 noites anteriores naquele quarto com aquela mulher, devia ter sido o fim do mundo em cuecas.

 

Como é habito, alvorada por volta das 07h00 da manha, com os enfermeiros a controlarem temperatura e medirem tensão arterial. Comecei a pensar se havia de vomitar ou não. Algumas horas depois veio o pequeno almoço. Com dificuldade comi qualquer coisa. Continuei a pensar se havia de vomitar ou não. Passado pouco tempo vomitei. Chegou a hora do almoço … nem pensei em tocar-lhe.

 

Lá para as 16h00 veio o lanche e apanhei uma surpresa agradável para variar… o companheiro ao pé da porta pede um gelado e dão-lhe um epá. Não me passava pela cabeça que tínhamos direito a gelado … estupidamente pedi uma maçã assada ou fruta em conserva. Um pouco mais tarde a Drª Joana, responsável pela ala feminina do internamento de Hematologia dos Capuchos, veio ter uma conversa comigo … como estava com o estômago embrulhado, a conversa acabou por ser mais unilateral, eu ouvi a Drª e raramente respondia.

 

A conversa começou com a Drª a dizer qualquer coisa do género “Meu Deus, você está num estado de nervos enorme, veja lá até está branco” e evolui no sentido de me dar informação e motivos para me acalmar e dar motivos para reagir. Ouvi pela primeira frase “Cada caso é um caso”, uma das frases mais frequentemente repetidas por todos quanto frequentam aquele serviço. “Estas cortinas servem não apenas lhe dar privacidade, se quiser servem para ser suas muralhas, tem que se concentrar em curar-se e não no que acontece à sua volta” foi outra frase que me marcou. A que retive com mais interesse e agrado foi esta: “cerca de 85% das pessoas que por aqui passam são curadas” … finalmente objectividade e números em cima da mesa para análise … e ainda por cima bons números.

 

De vez em quando jogo poker com uns amigos, Texas Hold’em, e com 50% de probabilidades já sou menino para fazer um all-in, meter as fichas todas e esperar pelo melhor … 85% seria como roubar doces a meninos, quase nem dá pica … quase … vencer dá sempre pica. Pensei para mim próprio que se em média 85% das pessoas se safavam, haveria razões objectivas para eu conseguir subir ainda mais as probabilidades a meu favor, desde que assumisse a atitude e os comportamentos correctos, e desde esse dia tenho empregue toda a minha atenção em conseguir identificar e manter essas atitudes e comportamentos.

 

A verdade pura, em que acredito cada vez mais, é que o doente de leucemia não é impotente na luta contra a doença, antes pelo contrário. Cabe a cada um de nós que tem a doença, assumir que nessa guerra vamos fazer a parte que nos couber. Não, não seremos nem a primeira nem a ultima linha de defesa, somos é a primeira vaga de infantaria de assalto, tipo os Argonautas em no filme “Tróia”, vamos tomar baixas, vamos sofrer, mas no final do dia somos nós, com a ajuda da quimioterapia e medicação vária, quem vai ocupar o terreno e fazer o inimigo bater em retirada. Porquê? Porque não temos a opção de batermos nós em retirada, não há para onde fugir, não há como virar costas e escapar quando o campo de batalha é o teu próprio corpo e nele se decide o destino da tua vida. Há n casos em que os médicos dizem “você tem x dias de vida” e depois a pessoa dá a volta por cima e vence a doença. Há quem diga “milagre”, eu digo que com determinação, disciplina e uma pitada de sorte tudo é possível, inclusive adiar a data em que partiremos deste mundo.

 

Fez-me muito bem conversar com a Drª Joana, infelizmente a bílis já acumulada no meu estômago não me permitiu comer normalmente … mas senti-me melhor.

 

Não sei até que ponto essa melhoria foi perceptível para a Drª Joana, deve ter sido pouco na medida em que passei a ter incluído na medicação dose tripla de anciolíticos e um anti-depressivo.

 

Chegou a noite e com ela o “Big Show SIC” da velhota da cama ao lado da minha. Ao longo do dia por vezes ela tinha sido acordada pelos enfermeiros e auxiliares, fosse para tomar comprimidos (que os cuspia) fosse para comer (não comia). Fiquei com a nítida sensação que a mulher estava com o juízo perdido e que não se queria curar … não sou um ser humano tão generoso que consiga querer ajudar uma pessoa que não se ajuda a ela própria … pasmava-me a persistência de enfermeiros e auxiliares a falarem com muito açúcar com a mulher para que ela tomasse a medicação e comesse … eu não tinha pachorra, muito menos tinha sabendo que nessa noite ia ter fandango novamente.

 

Chamem-me frio, cruel e insensível, só sei é que disse a mim próprio “rai’s partam a velha, hoje pode até espatifar-se toda no chão, arrancar a algalia, partir o outro braço, rachar os cornos, pode até morrer, eu vou mas é dormir”

 

Assim pensei e assim tentei fazer, ela mexia-se e fazia barulho e eu tentava ainda mais fechar os olhos e dormir … tantas fez que as tantas lá puxei a cortina para ver que raio se passava … a velhota costumava ficar aparvalhada a olhar para mim por segundos sempre que eu abria a cortina … lembrei-me que a tinha visto debater-se com a amarra que lhe tinham colocado na noite anterior, por isso disparei rispidamente: “A senhora deve ter gostado de estar amarrada à cama ontem … não pare ai quieta não que vai ver que os enfermeiros vêm ai e amarram-na na cama e põe-na a dormir!” … tive a nítida sensação que ela me tinha percebido bem … nisto entra um enfermeiro e novamente disparo … “epá esta senhora já está a entrar no mesmo filme de ontem, não pára quieta e ainda se aleija … é melhor amarra-la a cama outra vez!” … ao que o enfermeiro se vira para a velhota e diz “Dona (falha-me o nome) … se a senhora não fica calma e quieta, vou amarra-la à cama outra vez” … Remédio santo … ficou calma e quieta, e lá consegui dormir qualquer coisa. De onde se conclui que todos temos botões de pressão, mesmo aqueles que aparentam insanidade ou demência, basta encontrá-los e pressionar.

 

No dia a seguir o companheiro da cama mais afastada de mim recebeu alta. Tinha alta com sentimentos divididos, por um lado estava farto de hospital, por outro tinha uma bactéria no cateter e tinha de fazer antibiótico em casa (cateter é basicamente um sistema pelo qual a quimio é injectada numas veias de bitola superior mais perto do coração, em vez de vir pelas veias do braço. É mais cómodo, até porque as analises para o sangue podem ser retiradas de lá e as veias dos braços podem ser deixadas em paz, mas também tem as suas desvantagens e riscos).

 

Herdei dele o “bobby” e abandonei o meu … a razão objectiva é que o meu tinha 4 rodas que nenhuma andava e o dele 4 das 5 rodas a rolarem … ter um “bobby” que role é uma coisa tão importante para alguém que está internado que não fazem ideia … a maior parte do pessoal já entra meio debilitado, levamos o soro e depois temos que levar o “bobby” atrás para onde formos … se estamos aflitos para ir ao WC, aquela porcaria mais parece uma ancora. Podemos não cobiçar a mulher do próximo, mas cobiçamos e muito o “bobby” se o nosso não rola, é que quando o “bobby” evolui para “árvore de natal” (para além do soro vários outros balões são colocados, quimio, não sei que de sódio, potássio, magnésio, anti-enjoante, antibióticos, etc, …) a coisa fica negra porque o “bobby” que normalmente é leve – estando ok consigo levantá-lo e carregar com ele, em vez de o arrastar - fica bem mais pesado, e se tens que levar quimio 24 horas por dias levas ainda por cima uma máquina que tem um peso brutal … quem tem azar às vezes leva duas máquinas. Um “bobby “ é uma coisa muito importante, e não consigo que pare de me chocar neste país haver tanto dinheiro mal gasto em “grandes obras” e que se gaste dinheiro a inventariar “bobbies” (esse grande património do estado) que parecem vir direitos dos anos 80, em vez de os abater e substituir.

 

Outra coisa que herdei foi a posição no quarto, a minha cama passou para ao pé da porta. Fiquei contente porque sempre metia alguma distância da velha. “Outro que se preocupe com ela agora” pensei … “rais’a partam!”.

 

Estando melhor do que no dia anterior, voltei a não conseguir comer bem ao almoço. A comida não me sabia bem.

 

À tarde aconteceu algo que para mim mudou definitivamente toda a perspectiva sobre o internamento … Entra uma rapariga de 22 anos no quarto, de seu nome Patrícia, ou usando a alcunha carinhosa que lhe meteram, a Nenuca … A Nenuca vinha directa dos Cuidados Intensivos, onde tinha debelado uma pneumonia que tinha contraído na ressaca do tratamento. Entrou no quarto e estava ainda a oxigénio, notava-se que estava fraca … apenas os olhos pareciam desmentir esta fraqueza … enormes, vivos e intensos. Armei-me em jovial e disse “Bem vinda Patrícia!”, enquanto a cadeira de rodas me passava a frente da cama … da cadeira de rodas sai o seguinte comentário “Bem vinda o caraças, que eu sou da casa!” :-)

 

Pensei para mim próprio “Aqui está uma miúda cheia de garra” … criou-se ali uma empatia e começámos a falar. Falámos sobre várias coisas, ela também tinha linfoblastica aguda. Ela foi preenchendo o vazio de ignorância que tinha sobre o que me esperava com o tratamento de quimio e suas consequências (muita gente faz da quimio um bicho de sete cabeças, penso eu que fundados em ouvirem o testemunho de pessoas que há anos tiveram que receber tratamento com quimio … os tratamentos com quimio têm evoluindo imenso, e salvo excepções diria que passa muito mal com a quimio quem leva grandes doses, por estarem vários dias a receber quimio, entrando na fase de ressaca ainda a levar com ela) e foi-me dando em que pensar.

 

Pensei que eu era um maricas de andar ali a tremer que nem varas verdes há quase dois dias. Pensei que devia ter vergonha por não ser capaz de enfrentar o que tinha pela frente como uma miúda (não te estou a chamar de miúda, Nenuca!) de 22 anos. Pensei que era revoltante estas merdas acontecerem a gente tão nova. Nos meus 33 anos já fiz e vi muita coisa, tenho essa consolação se as coisas correrem mal … o que é que se viveu aos 22 anos de idade?! … Muito pouco, demasiado pouco!

 

Estávamos a conversar quando vejo a Nenuca a debater-se com uma garrafa de agua que não conseguia abrir … abri-lhe eu a garrafa … com aquele simples gesto senti-me muito melhor comigo próprio, senti-me útil. Pensei que podia de alguma maneira ajudar … percebi que no meu internamento, enquanto me sentir capaz, era minha obrigação de ajudar esta rapariga, de ajudar mais gente se puder, mas ajudar esta miúda em particular, porque mesmo fraca, a receber oxigénio, a recuperar de uma pneumonia, combatendo uma leucemia complicada, mesmo assim ela tinha conseguido reunir forças para falar comigo de uma forma inspiradora, incutir esperança, levantar a moral, sem me conhecer de lado nenhum … a camaradagem que se criou ali, e que criei mais tarde com outros companheiros, revigorou-me e permitiu-me voltar a ser aquele Michael que no dia 09/04 disse “esta cabra meteu-se com o gajo errado” e acrescentou-lhe “e ai de ti que te metas com os meus amigos!”.

 

Mais calmo, às 19h00, como sempre, veio o jantar. Pensei nos meus pais, como eles andavam preocupados de eu não conseguir comer … olhei para a sopa e pensei “Nem quero saber a que é que esta merda sabe, vou meter isto no estomâgo e vai lá ficar” … emborquei aquilo como um autentico javardo, colherada após colherada em cadência acelerada, cada vez que metia a colher dentro da taça de sopa parecia que lhe estava a bater. A meio da sopa os meus pais entraram dentro do quarto para a visita, da maneira como comia pensaram que a sopa me estava a saber bem :-). Acabei a sopa, e deitei um olhar desconfiado ao prato … não seria a primeira que levantava o papel de alumínio de uma refeição hospitalar e só com o cheiro me arrancava o vómito. “Vou lá ou não vou?! Já meti a sopa no bucho, arrisco-me a perdê-la” … ainda por cima não tinha escolhido a comida … olhei para a etiqueta e leio “Cacao estufado com puré de batata e esparregado” … “Epá, vão-se todos lixar! Estou entregue a gente doida! … mas quem é que se lembraria de estufar cacao e misturar com esparregado e puré?! … Vão pentear macacos!” pensava eu alguma coisa do género enquanto tentava imaginar o aspecto de uma barra de Pantagruel numa panela de pressão misturada com batata e esparregado.

 

Enchi-me de coragem e pedi a minha mãe para retirar a cobertura do alumínio, mas bem longe de mim … olhei para o prato e não vi sinal de cacao, vi foi uma posta de peixe … “Deve ser cação e não cacao” diz a minha mãe … respirei de alivio … a medo provei o peixe, soube-me bem … provei o peixe com o puré, bem me soube … virei o prato com gosto. Sobremesa, etc … por ai fora … dia 12/04/2008 consegui comer tudo o que me meteram à frente desde o diagnóstico … alimentar-me bem era importante para e foi ultrapassado o medo de não me conseguir habituar à comida do hospital, que hoje por hoje digo que não é nada má e não pode ser comparada com a que comi (ou que não consegui comer) há 20 anos no S. José.

 

Senti que entre a camaradagem dos companheiros, a boa disposição do staff do hospital e sendo capaz de comer bem, estavam reunidas as condições para o internamento me correr bem … e para me pegar à chapada com a doença como gente grande! “Venha de lá essa quimio!”

Posted by Michael in 11:32:11 | Permalink | Comments (3)