Friday, May 30, 2008

Remissão

Da wikipedia:

 

Remissão completa é o termo utilizado em medicina para designar a fase da doença aonde não há sinais de actividade da mesma mas não é possível concluir como cura. O termo é utilizado principalmente em relação a câncer, doenças auto-imunes e infectologia, aonde a ausência de sinais da doença não significa cura completa e há risco de recidiva tardia.

 

Hoje ouvi esta palavra, remissão, aplicada ao meu caso. Oficialmente entrei em remissão. Não dei pulos de contentamento, mas abri-me num sorriso de par em par.

 

Tinha entrado nos segundos ciclos com ideia de ir para um KO, e afinal já tenho a cabra no chão e sem sentidos logo com o 1º ciclo A e B

 

Tens-me aqui entalado que continuo sem poder viver uma vida normal, mas deixa estar que vais-me pagar por isso também.

 

Agora vai ser para a brutalidade, é tirar o arbitro da frente antes que acabe a contagem, que a minha história com a cabra Leucemia ainda não acabou … não te livras assim tão facilmente de mim, isto agora deixa de ser boxe e passa a carnificina generalizada

 

Ora primeiro vou partir para uma cena de wrestling, ir buscar uma cadeira e vou-te dar com ela nos cornos até que nem a tua ordinária mãe te irá reconhecer.

 

Depois, vou arrastar o teu corpo ensanguentado até a um riacho próximo, abrir-te as goelas com uma navalha e lavar do teu corpo todo o teu sangue coagulado até que também tu saibas o significado de ter uma anemia, cabra!

 

Finalmente vou pendurar-te de uma árvore onde os corvos te pudessem comer o teu corpo pútrido e fétido.

 

E se por acaso a meio disto tudo tiveres ideia de voltares a repetir a dose, vêm lá bebé que eu ponho-te com dono outra vez! Agora ficaste a saber quem é o papá, ah pois é!

 

Pronto pessoal, estou meio agressivo, não levem a mal, despeço-me com uma gargalhada sonora e malévola, ao melhor jeito Imperador Ming “The Merciless” … “muhahaha … MUHAHAHA”

 

Até ao próximo post, despeço-me com amizade

 

PS: Repito: remissão não é cura! Guarda em cima companheiros, não afrouxar, não dar trégua, não quebrar a disciplina, a determinação e o querer. Temo-la onde a queremos, pressão em cima até à vitoria final.

 

Posted by Michael at 22:26:25 | Permalink | Comments (9)

Capítulos do 1º Internamento – Hotel Capuchos

Capítulos do 1º Internamento – Hotel Capuchos

 

Bom, a seguir as odisseias na ala das senhoras, vagou cama no lado dos homens e lá fui eu para aquele que muito correctamente é denominado como o “quarto VIP” de Hematologia dos Capuchos … um quarto amplo, maior do que todos os outros, com 4 belas e grandes janelas, com vista para o Bairro Alto (muita noite de loucura lá passei), Jardim Botânico (plantas, bah!) e para a esplanada do restaurante aqui dos Capuchos (olha-me aqueles porcos fascistas a comerem bitoques na esplanada e eu aqui comer dieta neutropénica que me lixo – netutropénica é a dieta das florzinhas de estufa, minimizar todo o tipo de bactérias etc … um pouco demasiado complicado para entender a 100%, muito menos explicar)

 

Como companheiros de quarto tinha o agora falecido Sr. Ornelas e o Aurélio. O Sr. Ornelas era mesmo um senhor … 4 anos a combater a doença, mesmo assim com uma paz, clarividência e presença de espírito para dialogar de uma forma muito esclarecida e agradável. Lá se sentava num cadeirão que com ele lá sentado ganhava quase a dignidade de um trono, enquanto pensativo olhava pela janela nos intervalos de ler uma revista qualquer. Ainda me lembro de o ouvir dizer: “Trabalhei toda a vida, e agora quando fui para a reforma vejam bem a prenda que levei”.

 

Dá que pensar não é? Como nos metemos todos nesta coisa estranha que é o dia-a-dia, nesta ilusão de que as coisas só acontecem aos outros e aqui andamos todos a fazer de conta que não temos consciência que, de um dia para o outro, tudo pode virar-se de pantanas e todos os sacrifícios e opções que tomámos ao longo da vida afinal não valem mais do que um belo por de sol com uma bela companhia.

 

Quando me disseram que tinha leucemia fiz um paralelismo entre o que sentia e o filme “Alice no País das Maravilhas”, em que ela desce por um buraco numa arvore atrás de um coelho, indo parar a uma terra onde há gatos roxos invisíveis, cogumelos que fumam e a Rainha de Copas … hoje por hoje dou-me a pensar se não andam todos vocês por ai fora a viverem essa experiência, ao passo que eu agora tenho a oportunidade de estar na bancada, a ver a vida de loucos que vocês fazem e que eu fazia … e que voltarei a fazer um dia, espero que mais comedida, sensata e humana

 

O Aurélio é do Algarve, pescador, mas pescador a sério, daqueles que vai até Marrocos, com 1001 peripécias no mar para contar de certeza, assim a energia no corpo lhe permitisse conta-las. É um tipo impecável, mesmo sendo um refilão de primeira classe, como ele próprio admite. Faz bem conhecer refilões, ouvir as suas razões, fez-me começar a pensar que aquela minha preferência por me manter ignorante não seria a melhor decisão … ligar as antenas, inquirir, perguntar … ser um doente disciplinado e aceitar o veredicto dos médicos, mas ir questionando e interrogando, o corpo é meu e tenho esse direito, de saber minimamente o que raio fazem com ele.

 

Com o Aurélio também aprendi que toda a batata que nos é aqui servida vem de Espanha … a razão objectiva para esta conclusão é que a batata “não têm sabor nenhum, não vale nada” … logo: “é espanhola”! Já ouvi raciocínios similares ao longo da minha vida a respeito da cebola, do peixe, da fruta e da carne de porco, sem nunca ter ficado muito convencido do fundamento ou mérito científico destas conclusões. Será que não há peça de fruta, legume, carne, etc… 100% nacional, de Norte a Sul do país, ilhas incluídas, que não seja uma valentíssima bosta?! … Assumindo que não vejo aqui as bases para uma moção de censura ao Sócrates, não vale nada é espanhol, rua com ele! Rua também com os que se apresentam como alternativa, não valem nada, são espanhóis! … Falhando tudo isto embora lá sair da UE, fechar fronteiras com a Espanha e ter o cuidado de deixar o Durão Barroso do lado de fora que a boa laranja do Algarve nunca mais a volta a provar!

 

Mas divago …

 

Bem instalado no meu novo quarto, começo a apreciar a qualidade de vida que me está a ser oferecida vs a que tinha dantes, senão vejamos:

- Pessoal que se ocupa de mim, de manha à noite, com simpatia, humor e dedicação vs aturar energúmenos no trânsito e macambúzios por essas ruas fora, carjackings, subidas de preço de combustível etc … (Capuchos 1-0)

- Pequeno almoço na cama, seguido de meio da manha … na cama … seguido de almoço … na cama … seguido de lanche … na cama … seguido de jantar … na cama … seguido de ceia … adivinhem lá se forem capazes … bravo, na cama! … vs yogurte liquido de manha a correr porta fora ou a guiar, café a meio da manha, almoço mais ou menos a correr, lanche quando o tempo o permite e a maquina de vending ainda tem algo de jeito, seguido de jantar género pizza congelada posta a aquecer no forno (Capuchos 2-0)

- Estar calmamente sentado / deitado a controlar se há atrasos nas comidas, nos banhos ou na medicação vs ser controlado a ver se me atraso a entregar seja lá o que for

(Capuchos 3-0)

- Ter analistas / enfermeiros / médicos a picarem-me as veias dia sim dia não para me fazerem analises vs o que são analises?! (Capuchos 3-1)

 

Resumindo, não fossem os diuréticos que não paro de mijar, as rondas dos enfermeiros e as trocas de urinóis a meio da noite que me acordam, as recolhas de sangue em braços já traumatizados e diria que estou num genuíno hotel, o Hotel Capuchos.

 

Já a sentir-me um pouco mais senhor do meu reino, comecei a dedicar-me a uma actividade que me popularizou no internamento … ir passarinhar para a ala das senhoras. Muita vez ouvi bocas e chalaças das enfermeiras, que bem me divertiam, em como andaria a ver se engatava alguém … se me vissem lá fora ai veriam o que é um genuíno leopardo africano … não, não seria nos Capuchos que sem desodorizante, magro que nem um cão, anémico, leucemico, com pijama demasiado largo / curto / deficitário de botões, que me iria dar a propósitos de D. Juan … até porque, com todo o respeito, não sou homem de dar ponto sem nó, e depois o acto seria consumado onde? Só me ocorre uma cena à Fellini, que era haver um quarto, com 3 companheiras com febres a 40º e praticamente KO, para poder fechar as cortinas mais o meu “engate” e rezar por dez minutos de privacidade … demasiado burlesco, não concordam?!

 

Não meus caros, acreditem em mim, se estivesse no Ondeando (a melhor discoteca africana do país), desprovido de relacionamento monogâmico (outra forma de dizer “relação séria” que é frase que sempre me arrepiou … “séria” porquê?! não se pode rir mais?!) a sentir-me fino e começasse a dar uma bela tarraxa, ai sim cuidado comigo … nos Capuchos sou um gatinho, de dente macio e garras bem recolhidas

 

O que é uma tarraxa?! Bom tarraxa só visto, ou melhor ainda sentido … fica link para ouvirem o som http://www.youtube.com/watch?v=gWTKSsTJBSQ&feature=related para quem não percebe um boi de crioulo, e a minha favorita: Neuza http://www.youtube.com/watch?v=zb4sTuJmYWY bala bala, especialmente quando se dança com aquela dama por quem o feeling bate mais forte do que por todas as outras.

 

Falando em Ondeando, ouvi dizer que vai sair da Costa de Caparica e vai para Corroios. Ora ai está uma notícia que me deixou pior que uma barata … o sítio era impecável, no Verão então aquela varanda com vista sobre as praias da Costa era um espectáculo … vou ficar órfão de discoteca, já estou a ver, tudo para quê?! … para umas obras de requalificação do calçadão da Costa?! … se fossem mas é requalificar toda a administração local e central deste país estaríamos melhor.

 

Bom, as genuínas razoes pela quais passarinhava pela ala das senhoras eram:

 

1 – No minúsculo espaço do internamento dos Capuchos, não há muito para onde ir passear. O corredor na ala das mulheres mais quente, o corredor da ala dos homens sendo mais comprido está mais exposto a correntes de ar. Portanto dava as minhas voltas de hamster no corredor das senhoras.

2 – As mulheres são mais faladoras e abertas, deixam-se conhecer mais facilmente, entram em dialogo facilmente … visitava a Patrícia, a Maria Helena e rapidamente conheci outras mulheres encantadoras com quem era/é um prazer falar, a Manuela, a Clarinha, a Patrícia “Demi Moore”, a Irene, a Elsa, a Joana, etc… por ai fora, os nomes vão-se acumulando.

3 – Era-me fascinante ouvi-las, a braços com uma situação limite como a que viviam, falarem de pequenos detalhes e pequenas coisas que realmente só na cabeça de uma mulher podem ter importância. Saia confuso daquelas conversas (onde regra geral me quedava mudo) mas reconfortado por perceber que afinal a doença só muda as pessoas até certo ponto.

 

Com agrado, numa das minhas visitas, lá vi que a tal velhota (acho que se chamava Lucinda) que me tinha desmontado a cabeça nos primeiros dias, já estava muito melhor … Cheira-me que ter a Patrícia ao lado em vez de mim lhe fez bem … já tinha discernimento, já tinha melhor cara e cor e passados poucos dias teve alta. Mais um exemplo de como uma mente mais tranquila e em paz consegue acelerar uma recuperação.

 

Mente tranquila, em paz, rodeado de gente simpática e bons profissionais, apoiado por família e amigos, fiz do meu quarto VIP no Hotel Capuchos a minha fortaleza. Lá iria montar as minhas defesas, rotinas para manter-me física e espiritualmente em cima e a partir dai esperar pela leucemia para o nosso tango, para o nosso show down @ chemio curral.

 

Falarei disso em breve. Este post atalho-o curto porque tenho grandes noticias a dar :-)

Posted by Michael at 20:18:33 | Permalink | No Comments »

Wednesday, May 28, 2008

Onde os bravos vivem para sempre

http://www.youtube.com/watch?v=3-cHVI_UBMs&feature=related

 

“Ali vejo o meu pai,

A minha mãe, as minhas irmãs e irmãos.

Ali vejo a linhagem do meu povo até ao início dos tempos

Eles chamam por mim, para que vá e tome o meu lugar entre eles

Nos corredores de Valhalla, onde os bravos vivem para sempre”

 

É incrível como por vezes às pessoas mais fortes calham os desafios mais inultrapassáveis … quando as coisas apertavam nos meus projectos e ficavam negras costumava dizer para mim próprio “Michael, deixa estar, se isto fosse fácil qualquer um fazia”.

 

A Manuela fê-lo uma vez, combateu uma leucemia complicada e muito rara, sobre a qual muito se desconhece hoje em dia … demasiado se desconhece. Teve uma recaída, voltou aos tratamentos como uma guerreira, motivando e procurando contagiar todos os que a rodeavam com a sua atitude e coragem perante a adversidade, a ansiedade e o medo. Não precisa usar uma espada, nem ter cabelos longos para que fosse visível que era uma grande mulher e um exemplo a seguir.

 

Há quem por opção desiste de lutar, há quem sem opção seja vencido. Para estes algo como Valhalla devia existir.

 

Cabe aos que continuam na luta decidir se vão desistir, ou se como a Manuela irão lutar até ao fim. Eu faço hoje a minha escolha … nem que tenha de endurecer os meus sentimentos, arrefecer as minhas emoções ao ponto de não conseguir verter uma lágrima, vou continuar a fazer aquilo que a Manuela faria no meu lugar, seguir em frente determinado, quase inabalável.

 

A Manuela faleceu no dia 24 ou 25 deste mês … que descanse em paz.

 

Deixou-nos também o Sr. Ornelas, antigo companheiro de quarto por poucos dias, de quem retive a impressão de ser uma pessoa impecável … que descanse em paz.

 

As minhas condolências à famílias enlutadas.

 

Com sorte haverá tempo para chorar os companheiros e companheiras que perdi e vou ainda perder … com azar, como alguém disse um dia, se a morte me sorrir só espero conseguir sorrir-lhe de volta.

Posted by Michael at 18:09:54 | Permalink | Comments (8)

Saturday, May 24, 2008

Status report: 24 de Maio

Fui ontem à consulta, com a minha médica a Drª Madalena.

 

Demorei um pouco até perceber quem era a minha médica, depois de tantas semanas no internamento pensei que seria alguém da equipa do Dr. Ernesto, agora a coisa cristalizou e fiquei a saber semana passada que oficialmente iria ser acompanhado pela Drª Madalena.

 

Continuo a esquecer-me do Drª antes do nome com certa frequência e desde que descobri que temos uma série de amigos e conhecidos em comum não é raro chamá-la apenas de Mada … A minha irmã e a minha mãe lá se descabelam todas pela minha falta de respeito, mas não consigo fazer nada, é mais forte do que eu.

 

A consulta correu tipo Kinder surpresa (Andrea, poi me devi pagare per la pubblicità), saborosas noticias a abrir: posso voltar a pegar-me à chapada com a leucemia na próxima 3ª feira, em ambulatório, ou seja levo tratamento de manha e à noite, depois vou para casa à noite. O ciclo será igual ao que já fiz e todos os que faltam fazer também serão iguais, para mim é bom porque consegui superá-los bem e assim tenho a certeza que não terei de enfrentar ciclos com toxicidade superior. A surpresa veio no final: tinha que fazer um mielograma.

 

É verdade, vou já no 5º mielograma. No mínimo terei de fazer mais 3 até ao fim do tratamento. Duas novidades desta vez, pude escolher onde seria feito (não hesitei, externo sff) e apesar de não ter pedido, colocaram-me uma almofada debaixo da cabeça. Dividi-me entre a curiosidade de assistir a tudo de plateia e o receio que aquilo me pusesse mais nervoso … venceu a curiosidade e tive assim a oportunidade de assistir a toda a intervenção. Se estão prestes a fazerem um mielograma e têm pavor a agulhas, será melhor evitarem o próximo parágrafo.

 

Anestesia local e depois foi uma coisa do género fazer furinho com um prego antes de meter a broca, quando se quer fazer um buraco para pendurar algo na parede. Agora substituam parede por pele, carne e osso, substituam prego por uma banal agulha com seringa e para concluir, substituam broca por uma espécie de agulha curta, com seringa curta, com aspecto mais robusto e diâmetro algo superior. Salvo erro é esta ultima que com um certo movimento giratório perfura o osso atingindo a medula … por instantes fica-se com uma agulha cravada no osso, tipo faquir, enquanto o médico vai buscar outra seringa para a acoplar à seringa curta. Depois nada mais simples do que começar a tentar bombar medula para fora. Novamente, tenho dificuldade em falar de dor porque os breves milisegundos em que sentimos alguma coisa de doloroso, a dor é tão fraca e passa tão rápido que volto a dizer que aquilo faz muito mais impressão do que dói.

 

Depois de 2 ou 3 bombadas reparo que a agulha está a recolher sangue, um pouco mais claro do que me é normal. A Drª dá-me a entender que desta feita conseguiram sacar-me uma amostra de medula em quantidade abundante … já com o penso colocado, espreito por cima do ombro dela enquanto ela prepara as lâminas para análise, pescando umas coisas esbranquiçadas ligeiramente mais sólidas que o sangue onde estão imersas. Arrisco perguntar se terem conseguido uma amostra tão grande se é bom sinal, se já estou a conseguir produzir medula … a resposta foi enigmática “Não lhe dei isso a entender” … bem isso também não é um não, por isso fico contente em pensar que sim, até porque nada disso me fará alterar a minha atitude ou conduta face à doença ou ao tratamento.

 

O tratamento será feito no Hospital de Dia … mas não aquele a que tenho vindo a referir como sendo o Hospital de Dia … esse afinal também é, mas não é, Hospital de Dia, sendo que o outro é claramente chamado de Hospital de Dia … apesar de a placa “Hospital de Dia” apontar para o outro … tentaram explicar-me porque motivo duas unidades diferentes tinham a mesma designação, e eu tentei perceber mas não consegui … deve ser uma daquelas coisas nacionais, de querer complicar o que devia ser simples.

 

Aproveitei o dia para visitar os companheiros … uns estão melhor, outros estão piores, outros tiveram alta, outros acabam de chegar de urgência em macas dos bombeiros … enfim. A companheira Manuela está muito em baixo … é uma daquelas pessoas que vale a pena conhecer, uma genuína guerreira e um amor de pessoa. Espero que resista e melhore, perdê-la seria um golpe forte, pelo ser humano que é, pelo carinho que staff e doentes aqui lhe têm e pela falta que fará se as energias se lhe esgotarem … Manuela, espero que em breve consigas ler estas palavras, se eu tenho material para um blogue, o teu combate deveria dar direito a um best-seller internacional.

 

Também me chocou ver outro companheiro que teve uma recaída apenas 3 semanas após ter sido dado como curado. Ter uma recaída é um golpe muito forte na moral de qualquer um, representa um voltar atrás num caminho que já foi espinhoso e longo para depois ter de avançar novamente de encontro a espinhos ainda mais numerosos e aguçados quando pensamos que estamos safos e podemos recomeçar a vida onde a tínhamos deixado.

 

Quem está ainda no primeiro tratamento está melhor não pensando muito nisso, mas uma vez concluído o tratamento irei ter muito medo de uma recaída, pelo risco acrescido que representa e pelo atraso de vida que é. Por ora a única coisa que se pode fazer é dar a esse companheiro todo o conforto e carinho que a 2ª família que encontrou entre o staff e os companheiros dos Capuchos lhe podem dar. Da minha parte conversámos um bocado e disse-lhe à saída “olha deixa estar, vamos fazer isto os 2 juntos, vais ver que vai ser um fartote!”. Força João!

 

Posted by Michael at 16:07:25 | Permalink | Comments (7)

Os 3 primeiros dias depois da noticia

Soube-me bem dormir em casa, na noite em que recebi a noticia. Depois de 2 semanas de hospital, com braços furados a receberem soro e antibiótico, voltar a casa soube bem. É algo muito comum entre os companheiros internados nos Capuchos, esta ânsia de voltar para casa, sair do internamento. Não sei se é por ter começado o tratamento à pouco tempo, não comungo sempre do mesmo sentimento, irei tentar explicar porquê num post futuro (a menos que me esqueça).

 

Acordei cedo no dia a seguir. Estava nervoso. O plano para o dia era ir aos Capuchos a uma consulta e provavelmente voltar para casa, sem ficar internado.

 

Foi exercido o ritual higiénico-alimentar típico das manhãs. Meti-me no carro acompanhado pela minha mãe, irmã e cunhado, que trabalha relativamente perto dos Capuchos, a minha mãe e irmã iriam comigo ao hospital.

 

Entrámos no caos que são os acessos a Lisboa para quem mora na Linha de Cascais … num dia mau é de desesperar … e aquele era um dia mau, começámos em fila em Caxias e assim seguimos o resto da viagem.

 

O dia começava mal, e não iria melhorar. Ao fim de uma hora de trânsito, estávamos ainda apenas na descida de Monsanto para o viaduto Duarte Pacheco, quando os meus intestinos se encarregaram de demonstrar os efeitos do meu estado de nervos: uma casa de banho era precisa urgentemente para a necessidade básica nº2.

 

Não havendo WC’s por perto, entalado no trânsito, não tive alternativa que não fosse adubar a floresta de Monsanto … enquanto me aliviava, mesmo junto à auto-estrada passou uma carrinha prisional, com um guarda prisional embasbacado a olhar para mim. “Vê lá se queres prender-me” pensei. Já aliviado, como sou um finório, em vez de papel higiénico usei lenços de papel … aroma lavanda, super-chique.

 

Chegados ao Hospital dos Capuchos, partimos a procura do Hospital de Dia de Hematologia … foi complicado dar com aquilo, mas ao final de 10 minutos perdidos lá encontrámos o sítio. Escusado será descrever como normalmente são deprimentes os hospitais públicos e respectivas salas de espera … esta não era excepção.

 

Sentia que os nervos continuavam a aumentar.

 

Lá chegou a minha vez de ser atendido por uma médica. Perguntas, mais perguntas, mais perguntas, passar em revista os exames da CUF que trazia comigo, perguntas, mais perguntas. Eu estava meio anestesiado, muitas das respostas eram dadas pela minha irmã que me acompanhou … só despertei a sério quando a Drª se virou para mim e disse: “Ok Michael, acompanhe-me ali que precisamos de fazer um mielograma”

 

Com 2 mielogramas já feitos na CUF, já me considerava um veterano da coisa … nem por isso lhe achava piada. O mielograma, para quem não sabe consiste em ser retirada uma amostra de medula para análise. O processo envolve anestesia local e, ao que me dizem, não tenho a certeza porque o ângulo de visão não mo permite, uma agulha. Um orifício é aberto na pele, carne e osso, a partir do qual se tenta sacar um pedaço de medula para análise. Este processo pode ser executado em várias partes do corpo, no meu caso os primeiros dois foram na zona dos rins, e não conseguiram sacar grande coisa (ao que parece a medula, atacada de leucemia, retraiu-se e não está espalhada pela minha estrutura óssea como deveria estar).

 

Quando me mexem nas costas normalmente não gosto. Tenho a tendência para ficar muito tenso, mesmo a fazer massagens tenho de se relembrado que devo descontrair. Isto faz com que as agulhadas nas costas me sejam, vá, digamos que desconfortáveis. Enquanto seguia a Drª lá ia pensando “já me foram ao rim esqº e ao rim dirº, devem escolher fazer isto noutro lado” … percebi depressa pelo local que anestesiavam que iam mesmo insistir nas costas … vomitei. Não tinha já nada no estômago, vomitei bílis. Se duvidas havia que estava uma pilha de nervos dissipei-as logo ali.

 

Passou depressa a má-disposição. Virei-me de barriga para baixo e começaram a trabalhar em obter uma amostra digna desse nome para análise … novamente não foi agradável a coisa, até porque tiveram que insistir bastante, sem qualquer sucesso … ao mesmo tempo pareceu-me que a coisa custou menos do que noutras vezes … ou a perícia do médico tem vindo aumentar ou à 3ª começo-me a habituar a isto.

 

Com um novo furo nas costas, pedem-me para virar de barriga para cima. “Vamos tentar noutro lado” dizem-me. Apercebo-me que está muita gente à minha volta, 2 médicos e 2 enfermeiros … “estarão com medo que eu fuja?!”

 

Vim a descobrir semanas mais tarde que já houve de facto um caso em que um paciente, um cigano segundo me contaram, que quando sentiu a agulha saiu disparado a correr porta fora, com a agulha cravada nas costas.

 

Nova anestesia, desta feita no externo. Sem almofada a apoiar-me a cabeça não consigo ter ângulo de visão para ver o que estão a fazer, e mesmo que tivesse acho que preferia não olhar. Não quero saber o que fazem, já só quero é que ao 4º mielograma consigam finalmente sacar uma amostra decente. Naquele instante é tudo o que peço do mundo.

 

Ao contrário das costas sinto muito pouco, quase nada, do que me estão a fazer … percebo que a coisa está negra, repetidamente o medico tenta puxar com uma seringa um pedaço de medula que teimosamente recusa-se a aparecer. Ao fim de várias bombadas, com o médico quase a desistir eis que sai uma minúscula quantidade de medula … apercebo-me que o que conseguiram sacar está longe de ser o que gostariam de ter sacado. Com a mão direita agarro firme o braço esquerdo do médico quando me apercebo que ele se prepara para se afastar. Peço “Doutor, não está a doer nada, insista, tire o que for preciso”. Não foi necessário mais, larguei o homem.

 

Se o leitor está em vias de fazer um mielograma, espero que esta descrição de um mielograma não o assuste. O mielograma não implica dor, acima de tudo faz impressão, e fará tanto mais impressão quanto menos descontraído estiver. Por isso descontracção é o que pretende. Ora eu não conseguia de facto descontrair-me porque me preocupava que ao fim de tantos mielogramas não havia maneira de conseguir uma amostra minimamente capaz.

 

Levantei-me da cama e apoiado num enfermeiro dirigi-me para uma marquesa. À minha frente estava uma moça muito novinha, vestida de enfermeira, que recuava. Estava branca como a cal, um olhar de pânico e ia tropeçando num banco … Disse-lhe qualquer coisa do género: “Então rapariga, fizeram o exame a mim, não me digas que vais tu desmaiar?!”

 

E foi assim que conheci a Rutinha, um amor de rapariga, estudante 1º ano de enfermagem. Aquele terá sido o primeiro mielograma a que assistiu. Mais tarde tive a sorte de ser escolhido para ser objecto de estudo da Rutinha e estou orgulhoso de ter participado, ainda que minimamente, na formação de alguém que será sem duvida uma enfermeira notável.

 

Após algum tempo de espera, fui informado que os exames confirmavam o diagnóstico de leucemia linfoblastica aguda. Para saber que sub-tipo especifico iria aguardar praticamente um mês. Não estava à espera que me viessem dizer “epá afinal não tem nada leucemia” por isso a confirmação do diagnóstico não me abalou … abalou mais a noticia seguinte: “O Michael fica internado hoje” … para essa não vinha preparado … senão tinha trazido os chinelos de banho.

 

Algures a meio da tarde tive que responder a um questionário bastante extenso … felizmente a entrevistadora era uma enfermeira com uns olhos verdes lindos, uma simpatia extrema e acima de tudo uma capacidade de corar fora do comum. Portei-me como um simpático canalha, fazendo questão de a fazer corar a cada oportunidade que tinha. Foi óptimo porque por um bocado esqueci-me de estar nervoso.

 

Findo o questionário, puseram-me a soro. Após 2 semanas de internamento, as minhas veias, que já não eram grande coisa e são “bailarinas” (tendem a sair do sitio onde foram sentidas antes da picada, o que obriga a alguma exploração com a agulha depois da picada), estavam uma bela lástima. Ter veias e defender a veia picada, tornou-se uma obsessão para mim ao longo das semanas seguintes.

 

Perto do fim do dia fui transferido para o internamento. Aí é que a coisa começou mesmo a apertar. Aqui há coisa de 20 anos estive internado cerca de um mês no hospital S. José por causa de uma apendicite que complicou, e assumi que pouco tinha mudado em 20 anos, muito menos para melhor. Aquilo que me recordo mais desse internamento eram os gritos de dor nos cuidados intensivos, e que durante muito tempo comi salada de fruta em conserva trazida pelos meus pais, porque a comida do hospital não me passava. Podem imaginar como estava de pé atrás.

 

Para ajudar a festa, eu estava internado na CUF, quarto individual, imenso espaço, janela enorme … passo para ala feminina (era a única que tinha vaga) dos Capuchos, para uma camarata de 4, com uma janela mínima. Entro no quarto e primeira coisa que ouço do companheiro da 1ª cama junto à porta foi a frase “Eu estou psicologicamente arrasado! … Já não durmo há 3 noites!” … fico a saber que o ocupante da cama ao lado tinha falecido na noite anterior … em seu lugar estava agora um senhor de alguma idade, que entre ser madeirense e não ter a placa metida não conseguia perceber um boi do que ele dizia (o que não seria grave se ele não insiste em falar comigo) … na cama seguinte estava eu e finalmente, na cama ao fundo do quarto estava uma senhora idosa, que cuspia os medicamentos, atirava-se para fora da cama, tentava arrancar a algalia e, nada satisfeita, dormia o dia todo para depois pintar a manta durante a noite (a razão pelo qual o companheiro na cama mais afastada dela não dormia há 3 noites) … pensei “Tou f*****!”

 

Como positivo apenas uma coisa, um detalhe da maior importância … senti que por parte de toda a gente naquele serviço, repito, toda a gente, havia amabilidade, sentido de humor, enfim todo um esforço no sentido de fazer com que quem está internado se sinta psicologicamente melhor.

 

As 7 da tarde, vêm trazer o jantar … 19h00 … ninguém janta as 19h00, pelo amor da santa! Há anos que não jantava antes das 21h00 … há poucas semanas, não importa qual o dia da semana, as 19h00 estaria ainda a teclar furiosamente a tentar deixar o serviço controlado. Ainda por cima sentia-me mal disposto … enfim, lá tentei começar pela sopa … 2 colheradas e já me estou a vomitar todo (e a comida não é tão má quanto isso)

 

Tinha-se tornado oficial, o meu estado de nervos era total e completo. Sabia que era importante alimentar-me para que os tratamentos corressem o melhor possível, já estava preocupado porque tinha perdido 4 kgs internado na CUF e estava a ver a coisa muito mal parada. Não estava psicologicamente arrasado (ou estaria?), mas aquela determinação toda que tinha no dia anterior estava agora ameaçada de ruína pela fundação.

 

As 22h00 veio a ceia … consegui beber uma espécie de batido de proteínas para compensar não ter almoçado … tentei adormecer … nisto a senhora da cama de fundo (doravante conhecida como “a velha” e possíveis variações da palavra), que até ai tinha estado relativamente calma / a dormir, começa a pintar a manta.

 

A velhota metia dó de olhar. Algaliada, braço esqº entrapado por ter caído e partido o braço, uma cor estranha. Estava preocupado com a mulher, de maneira que estava atento a todo o ruído que ela fizesse, por duas vezes chamei os enfermeiros por causa dela, a mulher não parava quieta, volta e meia lá abria a cortina para ver que ela fazia e pedia-lhe “Minha senhora, durma, fique quietinha na cama” … entre os barulhos que ouvia e a frase “eu quero ir para casa, eu vou para casa” tive a notória sensação que a mulher estava com ideias de saltar para fora da cama … as grades laterais estavam em cima, portanto pensei “a velhota está feita num oito, não há-de conseguir sair da cama” … nisto ela abre-me a cortina e fica ali embasbacada de pé a olhar para mim … a sorte protege os loucos, não haja duvida, toca de chamar os enfermeiros.

 

Conseguem mete-la de novo na cama, acalmaram-na um pouco, mas eu tinha a certeza que aquilo era sol de pouca duração … não demorou mais de 10 a 15 minutos voltei a ouvir ruídos … abro a cortina, e volto a dizer a mulher que sossegue. Ela insistia que queria ir para casa. Eu cometo o erro de pensar que argumentos racionais seriam úteis nesta fase, e repito uma das coisas que os enfermeiros lhe tinham dito ainda há pouco: “Minha senhora, não vê que não pode ir para casa, está ai com algália e tudo, está lá em condições de ir para casa” … Para quem não sabe uma algália é tipo um tubo que liga a bexiga directamente a um saco, usada para pessoas que têm problemas ou alguma condição que não lhes permita urinar. Vim a descobrir mais tarde que para funcionar, depois de inserido o tubo, o tubo expande-se dentro do corpo, ficando uma espécie de câmara de ar, portanto se alguém arrancar a algalia à má fila aquilo é suposto dar muito mau resultado … ainda não sabia deste pormenor, mas lá calculei que boa coisa não podia vir quando ouvi a velhota a dizer “Vou arrancar isto” e começa a puxar pelo tubo … berrei com a mulher “fique quieta já lhe disse!” enquanto pressionava rapidamente o botão de alarme … entraram enfermeiros, contei-lhes o que ela estava a tentar fazer e desta feita decidiram-se que já não havia espaço para meias medidas … amarraram os braços da mulher à cama e puseram-na a dormir com um tranquilizante qualquer. Foi da maneira que se conseguiu dormir qualquer coisa naquele quarto … nem quero pensar no que teriam sido as 3 noites anteriores naquele quarto com aquela mulher, devia ter sido o fim do mundo em cuecas.

 

Como é habito, alvorada por volta das 07h00 da manha, com os enfermeiros a controlarem temperatura e medirem tensão arterial. Comecei a pensar se havia de vomitar ou não. Algumas horas depois veio o pequeno almoço. Com dificuldade comi qualquer coisa. Continuei a pensar se havia de vomitar ou não. Passado pouco tempo vomitei. Chegou a hora do almoço … nem pensei em tocar-lhe.

 

Lá para as 16h00 veio o lanche e apanhei uma surpresa agradável para variar… o companheiro ao pé da porta pede um gelado e dão-lhe um epá. Não me passava pela cabeça que tínhamos direito a gelado … estupidamente pedi uma maçã assada ou fruta em conserva. Um pouco mais tarde a Drª Joana, responsável pela ala feminina do internamento de Hematologia dos Capuchos, veio ter uma conversa comigo … como estava com o estômago embrulhado, a conversa acabou por ser mais unilateral, eu ouvi a Drª e raramente respondia.

 

A conversa começou com a Drª a dizer qualquer coisa do género “Meu Deus, você está num estado de nervos enorme, veja lá até está branco” e evolui no sentido de me dar informação e motivos para me acalmar e dar motivos para reagir. Ouvi pela primeira frase “Cada caso é um caso”, uma das frases mais frequentemente repetidas por todos quanto frequentam aquele serviço. “Estas cortinas servem não apenas lhe dar privacidade, se quiser servem para ser suas muralhas, tem que se concentrar em curar-se e não no que acontece à sua volta” foi outra frase que me marcou. A que retive com mais interesse e agrado foi esta: “cerca de 85% das pessoas que por aqui passam são curadas” … finalmente objectividade e números em cima da mesa para análise … e ainda por cima bons números.

 

De vez em quando jogo poker com uns amigos, Texas Hold’em, e com 50% de probabilidades já sou menino para fazer um all-in, meter as fichas todas e esperar pelo melhor … 85% seria como roubar doces a meninos, quase nem dá pica … quase … vencer dá sempre pica. Pensei para mim próprio que se em média 85% das pessoas se safavam, haveria razões objectivas para eu conseguir subir ainda mais as probabilidades a meu favor, desde que assumisse a atitude e os comportamentos correctos, e desde esse dia tenho empregue toda a minha atenção em conseguir identificar e manter essas atitudes e comportamentos.

 

A verdade pura, em que acredito cada vez mais, é que o doente de leucemia não é impotente na luta contra a doença, antes pelo contrário. Cabe a cada um de nós que tem a doença, assumir que nessa guerra vamos fazer a parte que nos couber. Não, não seremos nem a primeira nem a ultima linha de defesa, somos é a primeira vaga de infantaria de assalto, tipo os Argonautas em no filme “Tróia”, vamos tomar baixas, vamos sofrer, mas no final do dia somos nós, com a ajuda da quimioterapia e medicação vária, quem vai ocupar o terreno e fazer o inimigo bater em retirada. Porquê? Porque não temos a opção de batermos nós em retirada, não há para onde fugir, não há como virar costas e escapar quando o campo de batalha é o teu próprio corpo e nele se decide o destino da tua vida. Há n casos em que os médicos dizem “você tem x dias de vida” e depois a pessoa dá a volta por cima e vence a doença. Há quem diga “milagre”, eu digo que com determinação, disciplina e uma pitada de sorte tudo é possível, inclusive adiar a data em que partiremos deste mundo.

 

Fez-me muito bem conversar com a Drª Joana, infelizmente a bílis já acumulada no meu estômago não me permitiu comer normalmente … mas senti-me melhor.

 

Não sei até que ponto essa melhoria foi perceptível para a Drª Joana, deve ter sido pouco na medida em que passei a ter incluído na medicação dose tripla de anciolíticos e um anti-depressivo.

 

Chegou a noite e com ela o “Big Show SIC” da velhota da cama ao lado da minha. Ao longo do dia por vezes ela tinha sido acordada pelos enfermeiros e auxiliares, fosse para tomar comprimidos (que os cuspia) fosse para comer (não comia). Fiquei com a nítida sensação que a mulher estava com o juízo perdido e que não se queria curar … não sou um ser humano tão generoso que consiga querer ajudar uma pessoa que não se ajuda a ela própria … pasmava-me a persistência de enfermeiros e auxiliares a falarem com muito açúcar com a mulher para que ela tomasse a medicação e comesse … eu não tinha pachorra, muito menos tinha sabendo que nessa noite ia ter fandango novamente.

 

Chamem-me frio, cruel e insensível, só sei é que disse a mim próprio “rai’s partam a velha, hoje pode até espatifar-se toda no chão, arrancar a algalia, partir o outro braço, rachar os cornos, pode até morrer, eu vou mas é dormir”

 

Assim pensei e assim tentei fazer, ela mexia-se e fazia barulho e eu tentava ainda mais fechar os olhos e dormir … tantas fez que as tantas lá puxei a cortina para ver que raio se passava … a velhota costumava ficar aparvalhada a olhar para mim por segundos sempre que eu abria a cortina … lembrei-me que a tinha visto debater-se com a amarra que lhe tinham colocado na noite anterior, por isso disparei rispidamente: “A senhora deve ter gostado de estar amarrada à cama ontem … não pare ai quieta não que vai ver que os enfermeiros vêm ai e amarram-na na cama e põe-na a dormir!” … tive a nítida sensação que ela me tinha percebido bem … nisto entra um enfermeiro e novamente disparo … “epá esta senhora já está a entrar no mesmo filme de ontem, não pára quieta e ainda se aleija … é melhor amarra-la a cama outra vez!” … ao que o enfermeiro se vira para a velhota e diz “Dona (falha-me o nome) … se a senhora não fica calma e quieta, vou amarra-la à cama outra vez” … Remédio santo … ficou calma e quieta, e lá consegui dormir qualquer coisa. De onde se conclui que todos temos botões de pressão, mesmo aqueles que aparentam insanidade ou demência, basta encontrá-los e pressionar.

 

No dia a seguir o companheiro da cama mais afastada de mim recebeu alta. Tinha alta com sentimentos divididos, por um lado estava farto de hospital, por outro tinha uma bactéria no cateter e tinha de fazer antibiótico em casa (cateter é basicamente um sistema pelo qual a quimio é injectada numas veias de bitola superior mais perto do coração, em vez de vir pelas veias do braço. É mais cómodo, até porque as analises para o sangue podem ser retiradas de lá e as veias dos braços podem ser deixadas em paz, mas também tem as suas desvantagens e riscos).

 

Herdei dele o “bobby” e abandonei o meu … a razão objectiva é que o meu tinha 4 rodas que nenhuma andava e o dele 4 das 5 rodas a rolarem … ter um “bobby” que role é uma coisa tão importante para alguém que está internado que não fazem ideia … a maior parte do pessoal já entra meio debilitado, levamos o soro e depois temos que levar o “bobby” atrás para onde formos … se estamos aflitos para ir ao WC, aquela porcaria mais parece uma ancora. Podemos não cobiçar a mulher do próximo, mas cobiçamos e muito o “bobby” se o nosso não rola, é que quando o “bobby” evolui para “árvore de natal” (para além do soro vários outros balões são colocados, quimio, não sei que de sódio, potássio, magnésio, anti-enjoante, antibióticos, etc, …) a coisa fica negra porque o “bobby” que normalmente é leve – estando ok consigo levantá-lo e carregar com ele, em vez de o arrastar - fica bem mais pesado, e se tens que levar quimio 24 horas por dias levas ainda por cima uma máquina que tem um peso brutal … quem tem azar às vezes leva duas máquinas. Um “bobby “ é uma coisa muito importante, e não consigo que pare de me chocar neste país haver tanto dinheiro mal gasto em “grandes obras” e que se gaste dinheiro a inventariar “bobbies” (esse grande património do estado) que parecem vir direitos dos anos 80, em vez de os abater e substituir.

 

Outra coisa que herdei foi a posição no quarto, a minha cama passou para ao pé da porta. Fiquei contente porque sempre metia alguma distância da velha. “Outro que se preocupe com ela agora” pensei … “rais’a partam!”.

 

Estando melhor do que no dia anterior, voltei a não conseguir comer bem ao almoço. A comida não me sabia bem.

 

À tarde aconteceu algo que para mim mudou definitivamente toda a perspectiva sobre o internamento … Entra uma rapariga de 22 anos no quarto, de seu nome Patrícia, ou usando a alcunha carinhosa que lhe meteram, a Nenuca … A Nenuca vinha directa dos Cuidados Intensivos, onde tinha debelado uma pneumonia que tinha contraído na ressaca do tratamento. Entrou no quarto e estava ainda a oxigénio, notava-se que estava fraca … apenas os olhos pareciam desmentir esta fraqueza … enormes, vivos e intensos. Armei-me em jovial e disse “Bem vinda Patrícia!”, enquanto a cadeira de rodas me passava a frente da cama … da cadeira de rodas sai o seguinte comentário “Bem vinda o caraças, que eu sou da casa!” :-)

 

Pensei para mim próprio “Aqui está uma miúda cheia de garra” … criou-se ali uma empatia e começámos a falar. Falámos sobre várias coisas, ela também tinha linfoblastica aguda. Ela foi preenchendo o vazio de ignorância que tinha sobre o que me esperava com o tratamento de quimio e suas consequências (muita gente faz da quimio um bicho de sete cabeças, penso eu que fundados em ouvirem o testemunho de pessoas que há anos tiveram que receber tratamento com quimio … os tratamentos com quimio têm evoluindo imenso, e salvo excepções diria que passa muito mal com a quimio quem leva grandes doses, por estarem vários dias a receber quimio, entrando na fase de ressaca ainda a levar com ela) e foi-me dando em que pensar.

 

Pensei que eu era um maricas de andar ali a tremer que nem varas verdes há quase dois dias. Pensei que devia ter vergonha por não ser capaz de enfrentar o que tinha pela frente como uma miúda (não te estou a chamar de miúda, Nenuca!) de 22 anos. Pensei que era revoltante estas merdas acontecerem a gente tão nova. Nos meus 33 anos já fiz e vi muita coisa, tenho essa consolação se as coisas correrem mal … o que é que se viveu aos 22 anos de idade?! … Muito pouco, demasiado pouco!

 

Estávamos a conversar quando vejo a Nenuca a debater-se com uma garrafa de agua que não conseguia abrir … abri-lhe eu a garrafa … com aquele simples gesto senti-me muito melhor comigo próprio, senti-me útil. Pensei que podia de alguma maneira ajudar … percebi que no meu internamento, enquanto me sentir capaz, era minha obrigação de ajudar esta rapariga, de ajudar mais gente se puder, mas ajudar esta miúda em particular, porque mesmo fraca, a receber oxigénio, a recuperar de uma pneumonia, combatendo uma leucemia complicada, mesmo assim ela tinha conseguido reunir forças para falar comigo de uma forma inspiradora, incutir esperança, levantar a moral, sem me conhecer de lado nenhum … a camaradagem que se criou ali, e que criei mais tarde com outros companheiros, revigorou-me e permitiu-me voltar a ser aquele Michael que no dia 09/04 disse “esta cabra meteu-se com o gajo errado” e acrescentou-lhe “e ai de ti que te metas com os meus amigos!”.

 

Mais calmo, às 19h00, como sempre, veio o jantar. Pensei nos meus pais, como eles andavam preocupados de eu não conseguir comer … olhei para a sopa e pensei “Nem quero saber a que é que esta merda sabe, vou meter isto no estomâgo e vai lá ficar” … emborquei aquilo como um autentico javardo, colherada após colherada em cadência acelerada, cada vez que metia a colher dentro da taça de sopa parecia que lhe estava a bater. A meio da sopa os meus pais entraram dentro do quarto para a visita, da maneira como comia pensaram que a sopa me estava a saber bem :-). Acabei a sopa, e deitei um olhar desconfiado ao prato … não seria a primeira que levantava o papel de alumínio de uma refeição hospitalar e só com o cheiro me arrancava o vómito. “Vou lá ou não vou?! Já meti a sopa no bucho, arrisco-me a perdê-la” … ainda por cima não tinha escolhido a comida … olhei para a etiqueta e leio “Cacao estufado com puré de batata e esparregado” … “Epá, vão-se todos lixar! Estou entregue a gente doida! … mas quem é que se lembraria de estufar cacao e misturar com esparregado e puré?! … Vão pentear macacos!” pensava eu alguma coisa do género enquanto tentava imaginar o aspecto de uma barra de Pantagruel numa panela de pressão misturada com batata e esparregado.

 

Enchi-me de coragem e pedi a minha mãe para retirar a cobertura do alumínio, mas bem longe de mim … olhei para o prato e não vi sinal de cacao, vi foi uma posta de peixe … “Deve ser cação e não cacao” diz a minha mãe … respirei de alivio … a medo provei o peixe, soube-me bem … provei o peixe com o puré, bem me soube … virei o prato com gosto. Sobremesa, etc … por ai fora … dia 12/04/2008 consegui comer tudo o que me meteram à frente desde o diagnóstico … alimentar-me bem era importante para e foi ultrapassado o medo de não me conseguir habituar à comida do hospital, que hoje por hoje digo que não é nada má e não pode ser comparada com a que comi (ou que não consegui comer) há 20 anos no S. José.

 

Senti que entre a camaradagem dos companheiros, a boa disposição do staff do hospital e sendo capaz de comer bem, estavam reunidas as condições para o internamento me correr bem … e para me pegar à chapada com a doença como gente grande! “Venha de lá essa quimio!”

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Tuesday, May 20, 2008

Capítulos do 1º Internamento – A preservação da espécie

Antes de arrancar para a próxima narrativa, tenho de partilhar convosco isto: Qual é o problema principal do Nuno Gomes? A sério, não consigo entender, o homem até dá ideia de ser boa pessoa, mas falando por momentos de uma coisa chamada “critério”, ele não parece ter muito.

 

Não me vou referir à história de em tempos ele ter sido casado com a mulher mais feia de Portugal (assim mo asseguram os meus amigos que pessoalmente nunca lhe vi uma foto para fazer a minha própria avaliação) … dizem que o amor é cego, e há a beleza interior e tudo mais, enfim circunstâncias atenuantes.

 

Também não me vou referir aos talentos futebolísticos, porque as coisas bem vistas ele vai ao Euro e eu não, e acho que não é só por causa de eu ter leucemia, é porque nunca soube jogar mesmo. Eu era aquele fulano que no liceu tinha de trazer a bola de casa para me sentar com os suplentes e ainda escolhiam as meninas para jogar antes de mim. Isto desenvolveu em mim instintos meio Oceano / meio Petit, de maneira que quando lá me deixavam jogar havia desgraça e nunca fiz amigos a jogar à bola … agora que penso nisso acho era mesmo mais Paulinho Santos que outra coisa.

 

Vou-me referir isso sim ao anúncio da TMN … mas o que é aquilo? Ensandeceu? Com aquele cabelinho, a gritar pelas trivelas do Quaresma, metam-lhe 15 anos no BI, aparelhos nos dentes e uma camisa do porto fica uma pita tripeira saltitona … pelo amor da santa … homem, tens uma imagem para cuidar, o que é que te passou pela cabeça?! Pessoal da TMN, que passa?! Já não há orçamento para publicidade ou entraram mesmo numa onda de assassínio de personagem? Tá tudo doido?! Qualquer dia até o nosso primeiro desata a fumar em aviões e depois vem dizer que desconhecia a lei que aprovou em Conselho de Ministro e pede desculpa em vez de pagar a multa … ahn ?! … ah ele já fez isso … hmmm então não era eu a alucinar da quimio … ok … acho que até preferia ter alucinado da quimio do que isto ser verdade, mas enfim.

 

Nuno, pá, atina-te rapaz, és boa pessoa, um bocadinho mais de critério e vais ver que tudo melhora. Se precisares de ajuda para consultoria de imagem fala comigo, que eu tou o máximo … senão vê, estou com a barba no sitio onde dantes tinha cabelo, onde tinha barba agora é pele lisinha como a de um bébé, cheio de marcas de borbulhas secas pelo corpo fora, enfim um requinte … ok pronto estou um caco, mas pelo menos não me vês aos pulos com um têlélé a gritar “olé olé quaresma trivela olé olé”, taj a ber?!

 

Não consigo precisar este post no tempo, mas dá-me a sensação que os acontecimentos que a seguir descrevo se passaram algures na primeira semana de internamento nos Capuchos.

 

Ia eu a caminho do meu quarto, quando no corredor me cruzo com o Dr. Ernesto, que me informa do seguinte: “Michael, bla, bla, preservar esperma, bla, bla” … ora bem, compreendam que nas primeiras semanas nos Capuchos a minha capacidade de concentração e retenção de informação foi praticamente nula, de maneira que antes do “preservar esperma” houve informação relevante que não ficou retida ou foi incorrectamente assimilada … sorri, disse ok e fui para o meu quarto.

 

Tentei depois reconstruir a frase, e ficou algo do tipo “Michael, depois de amanha vais à Maternidade Alfredo da Costa para preservar esperma, antes de começarmos o tratamento com quimio”

 

Ora bem, munido da frase, começo a decompô-la … em primeiro lugar pensei “olha grande porra, queres ver que vou ficar estéril?!”. Bom, é uma possibilidade, não um dado adquirido, por isso calma. Se acontecer, hei-de ter esperma congelado para quando o momento for oportuno, ainda bem que os médicos pensaram nisso, por isso calma. Finalmente, se calhar até sou infértil só que não sabia, e sem necessidade nenhuma vou passear e vou fazer um exame que me trará maior prazer que qualquer outro feito no passado, por isso eh eh venha ele :-P

 

Devo confessar que, por motivos diferentes que não partilho convosco neste momento no tempo, tive muito prazer em fazer as duas punções lombares (as “tenebrosas” PL’s, exame que envolve uma agulha espetada no espaço entre discos, de onde se saca um liquido para analises, que é substituído por quimio para equilibrar … dizem que quando corre mal dói, e tem tendência a correr mal quando não se descontrai … a mim não doeu nada. Para completar a info, depois da PL deve-se ficar quietinho durante duas horas, deitado sem almofada)

 

O facto era que eu já andava a pão e àgua semanas antes de ter os primeiros sintomas, quando comecei a ter os sintomas não tinha condições para procurar satisfação a nível sexual de nenhuma forma, tal era o cansaço / dores que sentia, passado um mês de os sintomas me terem aparecido fui internado na CUF onde convenhamos, não estavam reunidas as condições objectivas de privacidade que me motivassem a procura-la, passadas duas semanas recebi a noticia estrondosa que me fez perder a pica e uma semana depois olha, lá me falavam disso quando se tinha tornado um assunto de 5º plano (ainda dizem que os homens só pensam em sexo … digam-lhes que têm leucemia e vão ver como o caso muda logo de figura).

 

Tomei então consciência que estava sexualmente deprimido / oprimido / reprimido / insatisfeito / inibido /deficitário … sei lá qual o verbo / adjectivo a escolher … a 1ª certeza estava em que o pessegueiro precisava ser esgalhado, o pato tinha de ser estrangulado, o wookie precisava ser afagado … muitas outras analogias podiam ser empregues … a 2ª certeza era que tão cedo não teria nova oportunidade para o fazer … a 3ª certeza é que o fazia não por pura libertinagem e contra os ensinamentos da Santa Madre Igreja, antes pelo contrário, fazia-o debaixo de instruções médicas e com intenções de reprodução, portanto legitimado pelos poderes do céu e da terra.

 

Tenho a certeza que foram as 2 primeiras que me vieram à cabeça quando sorri para o Dr. Ernesto … intui rapidamente o trigger do processo de preservação de esperma, o papel esperado da minha parte e a ideia agradou-me.

 

Nessa noite nem dormi bem. O depois de amanhã parecia tão distante, senti-me pela primeira vez impaciente e ansioso desde que recebi a notícia de ter leucemia.

 

Veio a manhã, e uma flor disse-me: “Michael, já sabes não é?! … hoje vais à Maternidade Alfredo da Costa, para a preservação do esperma…”.

 

Oh raios, anteciparam-me a data da estreia para o dia do ensaio geral?! Sem consultarem a estrela do espectáculo?! … não, de todo, eu é que tinha percebido mal o que o médico tinha dito (a sério, não estão bem a ver como se fica baralhado nos primeiros tempos, mesmo sem receber quimio, apenas pouco antes do 1º ciclo B consegui recuperar os meus níveis de concentração e de processamento de informação).

 

Mas as notícias bombásticas ainda não tinham cessado: “Michael, olha que outras pessoas têm dito que aquilo lá não é bem como se imagina, diz que aquilo nem sempre é fácil, falaram-me de uma casa-de-banho …” … [silêncio] … um gajo já está leucemico, em risco de morrer ou ficar infértil, e quer dizer, francamente, metam lá mais um pouco de pressão em cima que isto não custa nada … [silêncio] … “… Michael, se calhar é melhor pegares numa dessas revistas que ai tens e levares contigo, só para o caso de vir a dar jeito.”

 

Sou coleccionador de FHM’s e Maxim … cada vez que fazia uma viagem comprava sempre a FHM ou a Maxim lá do sitio … o ultimo sitio onde tentei comprar foi na Turquia … o homem do quiosque no aeroporto ficou a olhar para mim como se eu fosse um extra-terrestre, afinal qual era a pessoa neste mundo que iria pedir uma FHM turca, não tinha cabimento nenhum a existência de uma FHM turca, e mais estranhou acho quando recusei as alternativas ucraniana e russa. Bom, compreendam a minha posição, tenho por habito só comprar as revistas dos países que visito e a Turquia tem mulheres com beleza mais do que suficiente para justificar estarem numa revista para homens … mas enfim, entre estarmos no Ramadão e o fetiche que os homens turcos têm por mulheres eslavas, lá achei melhor não discutir o tema a fundo com o homem do quiosque.

 

Ora bem, na minha mesa de cabeceira estavam algumas revistas que uns amigos meus, como que adivinhando, me tinham oferecido no dia anterior … levanto-me da cama e rapidamente passo em revista as revistas em busca da “tal” … revista … que iria acompanhar-me nesta expedição. Chegado a página 109 da Maxim americana de Abril de 2008, cessei a minha busca. Senti-me confiante que tinha encontrado o que procurava.

 

www.sofiavergara.com … e depois venham dizer que tenho mau gosto.

 

Mais tranquilo e confortado pela existência da minha “arma secreta”, lá esperei pela minha boleia, que chegou pouco depois. Meti a revista debaixo do robe, e à cautela pedi uma máscara. O trajecto até à Maternidade foi relativamente rápido mas soube-me bem. Chegado à Maternidade também foi divertido ver como as pessoas abriam alas à passagem da minha cadeira de rodas, de facto nada como uma máscara na cara para fazer despertar nas outras pessoas o medo ignorante de serem infectadas por mim :-)

 

Fui endossado às enfermeiras que me encaminharam para o local do crime. Antes de lá chegar consegui reparar que não tinha passado por uma única mulher atraente … deixem-me ser mauzinho, mas é que eram todas feias e mesmo assim tentam reproduzir-se … tive medo, mas há reformas a terem que ser pagas e uma pirâmide etária a ser restaurada. Eles (os maridos) também, diga-se de passagem, não fosse o amor cego não se safavam de certeza.

 

Chegado ao sitio onde tinha de “desempenhar” a minha função, ainda mantinha algumas ilusões de ser surpreendido com uma sala, com um sofá confortável, pilhas de revistas XXX numa mesa, um leitor de DVD, uma TV e uma colecção de DVD’s XXX … vá, por mim até podiam ser VHS em vez de DVD … tipo como se vê nos filmes, lá nos EUA.

 

Tá bem, tá … abrem-me a porta da casa-de-banho … sim uma casa de banho. Tipo lavatório, sanita, mesa e cadeira … mesa e cadeira daquelas de madeira, daquelas que se vê estarem lá desde o principio dos tempos. As histórias que aquela mesa e aquela cadeira contariam se pudessem.

 

“Estão a gozar comigo” pensei. Não estavam. “Ena cum catano” pensei. Passam-me o um copito de plástico para a mão, uma bic e uma série de etiquetas auto-colantes. “Coloque a amostra dentro do copo, feche com a tampa, coloque o seu nome numa etiqueta, coloque a etiqueta no copo, e entregue-nos para fazermos análises” diz-me alguém que sai do WC e se dirige para a porta … “Tenho limite de tempo?” ainda atirei … “Não, esteja à vontade!” e a porta fecha-se. Estar a vontade neste contexto pareceu-me irónico.

 

Ora bem, colocar a amostra dentro do copo, é mais fácil de dizer do que fazer não vos parece … asseguro-vos que é, porque não apenas a envolvente não convida nem estimula, ponto nº1, ponto nº 2 do ponto de visita físico-fisiológico a amostra acabar dentro do copo não é um dado adquirido da ejaculação.

 

Senão vejamos … se me sento na cadeira, arrisco-me a que a coisa funcione tipo morteiro, e vou ter que andar tipo malabarista chinês a apanhar o sémen na trajectória descendente … se me deitar … pois, não há onde deitar, só se for na mesa que ainda se parte e esmerdo-me todo, traumatismo craniano associado a leucemia, não me parece. Se ficar de pé o pénis ainda fica num ângulo superior a 100º, quando o ideal seria uns 60º ou menos, sinónimo que o copo estaria numa posição mais ou menos vertical e não horizontal ou invertida, para receber o impacto de meses de pura abstinência sexual

 

Lá resolvi este tetris ergonómico, que relaciona copo, pénis e restante posição corporal, conclui que o melhor seria apoiar uma pata na cadeira e dobrar o corpo para a frente quando estivesse próximo do clímax, obtendo assim um ângulo de 60º ou menos.

 

Fiquei contente porque não apenas tinha uma revista, agora também tinha um plano. Olhei para o WC à minha volta e senti-me deprimido … “Devem estar a gozar comigo … merda para isto, vamos em frente, quem sabe nunca esquece!”.

 

Pag 109 da Maxim americana de Abril de 2008 escarrapachada em cima da mesa e mãos à obra.

 

Sendo sincero, aquilo ao principio não queria pegar … imaginei que havia de ter espermatozóides à beira da reforma, uns refastelados em sofás, outros a jogar domino, outro rezingão a dizer “enganaram-me, disseram-me que este era um emprego com saída, que havia perspectiva de aqui estar uns tempos e depois sair e evoluir noutro lado, isto afinal é uma prisão, bla bla bla” … entre a leucemia e o WC, a coisa não me estava correr favorável. Fui insistindo no movimento basculante.

 

Decidi que tinha de me abstrair. Olhei bem para a pagina 109 e pensei … “porra, esquece lá o WC e foca-te na foto, uma morenaça como deve ser” … assim fiz, e de repente tive mesmo a sensação que aquela página ganhava corpo e forma humano, e que corpo e forma se trata meus caros amigos e amigas.

 

Na minha imaginação lá demos inicio, eu e a Sofia, a um conjunto de manobras de natureza sexual, que novamente na minha imaginação, deram origem a um conjunto de comentários … reproduzo apenas os meus porque seria indelicado para com a Sofia estar aqui a partilhar os dela:

- “Tens exactamente meia hora para tirares dai a boca”

- “É claro que para a próxima a tua amiga se pode juntar anos, minha maluca”

- “Tens uma maneira ordinária de falar … isso, chama-me de cabrão agora!”

- “Queres o quê?! … Queres o leitinho?! Espera que já vaaaaiiiiiiiii!”

 

Sou um porco javardão, assumo-o publicamente … mas sou divertido à brava :-P

 

De olhos fechados, posição 60 º, toca a enfiar o pénis dentro do copo (coube rés-vés Campos de Ourique … não sei se eu sou dotado ou se os copos, à semelhança das salas de recolha de sémen, estão abaixo dos padrões definidos pela Organização Mundial de Saúde) e tive o meu orgasmo.

 

O plano e a revista tinham funcionado. Olhei para o copo com orgulho e sorri de alivio, mas deu-me a sensação que devia estar mais cheio. Olhei para o chão e reparei que parte da carga devia ter batido no fundo do copo e feito ricochete para fora … “isso são as pressas que dão em vagares meus caros, agora ides todos parar numa qualquer esfregona que vos lixam” … depois lá achei melhor pegar no papel higiénico, limpar minimamente aquilo e meter pia abaixo.

 

Lá trato de tapar o copo, etc… por ai fora, e dirigi-me para a porta. Reparo que nem sequer a tinha trancado “Bonito, que bela cena teriam visto se aqui entrasse alguém”. Espreito lá para fora, para ver se passava uma enfermeira, chamo uma que ia a passar e pergunto: “Chega assim ou precisam de mais?!” mostrando o copo, e agora perfeitamente preparado para dentro de 15 minutos voltar à carga com a Sofia. “Chega perfeitamente” responde a enfermeira e minto “ok” quando na verdade penso “merda, agora até lhe estava a tomar o gosto…”

 

Meto a revista novamente debaixo do robe, e voltei para a cadeira de rodas, onde me foi pedido que aguardasse pelos resultados da análise do teste de fertilidade. Esperei de bom gosto, afinal se era para receber más noticias preferia recebê-las no próprio dia

 

Enquanto esperava passou um casal por mim e a enfermeira perguntou-lhes:

 

Enfermeira – “Então e o senhor entra sozinho ou é acompanhado pela esposa?”

Homem – “Entramos os dois”

 

Lembrei-me imediatamente de uma cena que uns amigos meus assistiram em Carcavelos há uns anos: Estava um pai a tentar ensinar um filho de 5 anos a andar de bicicleta … o garoto cai ou põe o pé no chão. Nisto o pai, uma besta inqualificável, sai-se com esta pérola de frase … preparem-se … “Não tens mãozinhas para nada! És um fracasso!”

 

“Não tens mãozinhas para nada” pensei eu, com algum escárnio à mistura, e continuei à espera pelos resultados das análises.

 

Dirigi o meu pensamento à Sofia. Apetecia-me escrever-lhe um e-mail. Escrevi o e-mail quase todo na cabeça. O princípio era algo parecido com “Cara Srª / Menina Sofia Vergara. Escrevo-lhe este e-mail na esperança de que compreenda as minhas palavras como as de um homem que lhe está profundamente agradecido e não como as de um mero cretino” … e depois desenvolveria uma narrativa adequada a satisfazer as intenções do primeiro parágrafo. Entretanto já vi que no site dela não há endereço de e-mail, por isso olha acabei por não escrever a carta.

 

Ao fim de uma hora e picos lá vieram os resultados … fértil … por enquanto. A próxima geração assegurada no gelo, no pior dos casos. O stock, bem gerido, deve dar pata mudar o ADN de uma pequena ilha da Micronésia, imagino eu.

 

Voltei aos Capuchos com um duradouro sorriso estúpido estampado na cara.

 

Aparentemente dentro de 6 meses repetirei o exame … oh que chatice … bom, é melhor ir treinando, quero estar preparado quando chegar à altura.

Posted by Michael at 22:16:41 | Permalink | Comments (11)

Monday, May 19, 2008

A noticia

Bom, ao contrário dos dois primeiros posts, não sei bem como hei-de meter humor neste próximo. No fundo não me preocupa muito isso, porque combater leucemia não se trata de uma grande comédia … há momentos em que se sofre, se sofre por nós, se sofre pela ansiedade provocada na família e nos amigos, se sofre pelo sofrimento dos companheiros a quem nos apegamos, se sofre por aqueles que não resistem à doença.

 

Aproveito para deixar aqui a lembrança da companheira Maria Helena que sucumbiu recentemente, um ser humano impecável que nesta vida não teve muita sorte … que descanse em paz.

 

Este post trata da forma como recebi e encaixei a notícia de ter leucemia linfoblastica aguda, no passado dia 09/04/2008.

 

Ainda há pouco uma amiga me dizia “Michael, nunca esquecerás esse dia”. Ela claramente não conhece a minha incapacidade de fixar datas de natureza pessoal, para além da minha própria data de nascimento, todas as outras têm de ir parar ao telemóvel senão passam-me todas ao lado … agora que penso nisso a 1ª vez que cabulei foi na Escola Preparatória Roque Gameiro, para um exame de História (onde normalmente tinha óptimas notas), em que era preciso decorar em que ano os navegadores portugueses tinham descoberto isto ou aquilo … lembro-me de pensar “e se tivessem antes ido todos dar banho ao cão, não tinha sido melhor?!”, enquanto fazia a letra mais miudinha que podia num atarracado pedaço de papel.

 

Respondi (à minha amiga): “Não, vou é para sempre recordar o dia em que me disserem que estou curado, será essa a nova data que usarei para festejar o meu aniversário, o meu Dia V”

 

Estava internado na CUF Descobertas há praticamente 2 semanas, quando a Drª Joana me veio dar a noticia … pela cara e linguagem corporal quase que dispensava que ela abrisse a boca, já tinha percebido que o ultimo exame feito (nome técnico: mielograma) tinha sido esclarecedor e que a suspeita de eu ter leucemia se tinha concretizado numa certeza.

 

A Drª Joana foi a médica que me acompanhou no internamento na CUF Descobertas. Excelente profissional e excelente pessoa. Eu volta e meia esquecia-me do Drª antes do nome e tratava-a apenas por Joana … a minha mãe e a minha irmã até se atiravam aos arames com a minha “falta de respeito”. Será desnecessário dizer que não partilhamos a mesma perspectiva de conceito “falta de respeito”, felizmente a Drª Joana também não.

 

Com a Drª Joana desenvolvi o habito de responder à pergunta “Então Michael, sente-se bem?” com a resposta “Sim, obrigado … e a/o [inserir nome] sente-se bem?” … ao principio acho que era por mera irreverência, depois de saber que tinha leucemia faço-o por convicção. Sim, ok, eu tenho leucemia … mas eu sei que tenho e estou-me a tratar … tu podes ter, sei lá, assim de repente vamos dizer “cancro do cólon” e não saberes sequer … ou doença pior, tipo “ser adepto do FCP” ou assim … estão a ver onde quero chegar?!

 

Sou ultra! Sou leucémico! Sou ultra leucémico! Spooooorrting! A taça é nossa! Mas divago …

 

Caindo no lugar comum, receber a noticia foi um violento murro no estômago. Nunca se consegue estar preparado para receber um golpe daqueles, faz mossa, muita mossa mesmo. Quem dizer o contrário ou mente, ou não sabe minimamente o que leucemia quer dizer, ou está desenquadrado com a realidade.

 

Resisti às lágrimas o melhor que pude. Algumas foram saindo. Já não me lembro em que é que pensei, provavelmente em nada de concreto tal era o choque… tenho a certeza de ter pensado “Foda-se! … Foda-se!  Foda-se! Foda-se!”.

 

O meu tio e a minha prima tinham acabado de chegar para a visita, mas não tinha como os encarar sem abrir a torneira e chorar que nem um bezerro desmamado. Pedi que não me vissem, não estava em condições de receber ninguém. Após algum tempo, decidi que devia reagir, caminhar um pouco e alinhar ideias. Peguei na “girafa” (o pendericalho com rodas onde colocam o soro) e fui para os corredores da CUF digerir a noticia passeando como um animal enjaulado … na verdade não apenas digeria a noticia, também minimizava o contacto que tinha com a minha família, que ia chegando e ficando no meu quarto, ao qual não pretendia regressar sem estar calmo.

 

Dizem que para vencer a leucemia é preciso saber ser egoísta à vezes … eu fui nesse dia e vou continuar a ser sempre que necessário. Sentia que precisava de me acalmar, ganhar algum controlo sobre as emoções e essa necessidade para mim teve mais peso do que a necessidade que algum familiar meu tinha de me abraçar, chorar, dizer seja o que for.

 

Durante 2 horas (acho eu, não tinha relógio) caminhei pelos corredores da CUF, para trás e para a frente, apenas com a companhia de algumas lágrimas que iam-se soltando e da minha “girafa” (tive que abandonar a expressão “girafa” nos Capuchos e adoptar a expressão “bobby” … ninguém percebia o que eu queria dizer com “girafa” o que é natural porque os corredores e portas da CUF são bem mais altos - e bem mais compridos - que os dos Capucho, de maneira que o soro estava um metro acima da minha cabeça).

 

Durante essas 2 horas muita coisa me passou pela cabeça … a maior parte da qual já esqueci … também durante boa parte desse tempo acho que consegui não pensar em nada, o que me fez bem. Descobri nestes meses, especialmente no internamento, que sou capaz de estar imenso tempo sem pensar em nada.

 

Passou-me pela cabeça a pergunta “Porquê?” e “Porquê eu?” … calculo que essa seja um clássico nestas situações. Consigo ser extremamente frio e racional, e essa racionalidade entrou em acção rapidamente … em 30 segundos tinha recordado a mim mesmo que este mundo não é suposto ser justo, é o que é, vimos parar a ele sem o pedirmos e cá andamos, a fazer o melhor que podemos. Shit happens. Saiu-me o euromilhões ao contrário, passa à frente. No internamento vi companheiros que quase posso jurar ainda hoje, semanas ou meses depois da noticia ainda se interrogam “Porquê eu?” … é algo que apenas traz desgaste, introduz duvida e insegurança numa mente que deve estar tranquila e repousada.

 

Depois passou-me pela cabeça a pergunta “Como?” … os hábitos de consultor ai ajudaram-me imenso: focar-me no problema apenas para extrair dele as pistas necessárias e suficientes para construir uma solução eficaz, e nem um segundo mais. Ora bem, os meus limitados conhecimentos sobre a leucemia fizeram-me concluir que era melhor perguntar a alguém que soubesse em vez de me por a adivinhar. Quando fiz a pergunta aos médicos fiquei a saber que afinal sobre o “Como?” eu sabia tanto quanto eles … é impossível determinar, há suspeitas disto, daquilo e do outro, mas no fundo é algo que pode acontecer a qualquer pessoa a qualquer momento.

 

Finalmente (acho que não demorou muito) consegui focar a minha mente na pergunta que mais importa colocar nestes momentos … “O que é que eu vou fazer?” … abençoado mau-feitio que tenho, só me veio à cabeça uma coisa “esta cabra meteu-se com o fulano errado”! Vou fazer o que for preciso!

 

Os ingleses têm uma expressão maravilhosa que é “let’s get stuck in”, quem é como quem diz “embora lá entalar-nos” … é uma espécie de jogo mental, quando não tens a hipótese de recuar e tens mesmo que avançar para aquilo que calculas será um mundo de dor, fazê-lo com optimismo, garra e determinação. É nesse momento que passas de ser um mero homem e passas a ser um leão. É uma das coisas que costumo dizer aos meus companheiros, roubada do filme “Tróia” e a única frase de jeito do discurso do Brad Pitt aos Argonautas antes do desembarque na praia de Tróia: “Não somos homens, somos leões!”

 

Perguntaram-me há dias se tive medo de morrer … acho que não. Acho que se tive foi durante muito pouco tempo. Acho que não tenho porque não me passa pela cabeça não vencer esta briga. É a briga da minha vida, rais’ma partam, vou vencê-la!

 

Fiz mais algumas piscinas nos corredores do hospital, repetindo para mim próprio “Queres dançar?! Queres dançar cabra? Vamos lá dançar um bocadinho” … quem já jogou poker comigo saberá que uso por vezes o verbo dançar com um tom e finalidade agressivos.

 

Comecei a sentir-me calmo … descobri mais tarde que afinal não estava calmo, estava era cansado de caminhar … dirigi-me para o meu quarto mandando um último pensamento à minha doença: “Já te atendo, não perdes pela demora”.

 

Estive com a minha família … não me recordo de detalhes. Acho que ao final de 2 horas eles também tinham passado pelo seu próprio carrossel de emoções até estabilizarem um pouco e todos em conjunto nos conseguirmos armar em fortes.

 

Recebi alta, ficando agendado apresentar-me no Hospital dos Capuchos no dia seguinte. Fui com a minha família à Lusitânia comer um dos meus pratos favoritos: alheira. Recebi aí o primeiro sinal que afinal não estava calmo … não me fui capaz de a acabar J

 

Há coisas fantásticas diziam as outras … há coisas de digestão difícil, digo eu.

Posted by Michael at 17:02:37 | Permalink | Comments (13)

Sunday, May 18, 2008

Com a Rainha de Copas no Pais das Maravilhas: 2º internamento

A seguir ao 1º ciclo b, lá fui ao hospital numa 2ª feira como planeado, a sentir-me são que nem um pêro. Faço analises, vou à consulta e não que é que afinal estou anémico e o raio do sistema imunitário estava offline … tipo zero serviço! Achei aquilo inadmissível e pensei logo no Remedy para abrir o ticket (o leitor que não é do meu ramo profissional não vai entender esta ultima frase … passe à frente)

 

Lá me explicaram que não há serviço que aguente online 100% e o meu sistema imunitário a seguir a cada ciclo b vai precisar desta janela de manutenção … ok, tudo bem.

 

Assim olha lá fiquei pelo hospital na 2ª, onde recebi 2 transfusões de sangue (calão leucémico, mais conhecidas por “bifes”) e fiquei internado.

 

3ª feira veio e com ela a consequência natural de um sistema imunitário a zeros, veio uma febre. Ora bem tendo já dado uma grande coça à leucemia nos dois primeiros rounds, ainda estava ok o suficiente para ver a febre a chegar. Comecei a mirá-la de longe, não dava para perceber se era adversário de grande porte ou não, mas fui avisando “olha lá oh pirralha, a leucemia, esse peso-pesado, já tá ali abananada com a carga de malha que levou, para ti chega levares com um antibiótico pelos cornos abaixo que te racho ao meio” … “levas uma catchaporra pelos cornos abaixo que te racho ao meio” é uma expressão colorida que apanhei do meu pai e raramente tenho oportunidade de a empregar.

 

Bom, tendo sido devidamente avisada, lá veio a febre para o ringue, andamos engalfinhados durante 3 ou 4 horas até que ela bateu em retirada. Só cansou um bocado mais do que esperava, ate porque os bifes do dia anterior não tinham sido suficientes para a anemia. Estava a ver que ia ter de tomar banho em cadeira de rodas e com ajuda … em principio nada contra tomar banho acompanhado, mas não por necessidade e absolutamente não sem escolher a companhia :-)

 

Estava entretido nestes pensamentos quando me trazem mais um bife. Ora eis a razão pelo qual tenho os braços com mais furos que um regador, este pessoal que aqui anda de batas brancas a partir das análises lá deviam ter percebido que me ia sentir meio para o cansado e que se justificava dar-me sangue

 

Acordei 4ª feira a sentir-me ok, e lá fui tomar duche sem ajudas. Como diz o outro da Worten a beber chá: “Boa”. Tive na mandria a maior parte do dia. Sentia uma coisa estranha na “válvula de escape”

 

Veio 5ª feira, e acordei-me a sentir um jovem herói de shaolin … como o aço, eu mexia-me e o pijama fazia sons estranhos. Lá consegui ter 5 minutos com o medico, eu sangrar-lhe a cabeça a com alguns pedidos de informação e ele gentilmente a recusar a maior parte deles. A filosofia do serviço de internamento é dedicar tempo a curar as pessoas, dando apenas a info mínima e essencial … o que para um gajo ávido de info e chato como eu sou sabe sempre a pouco.

 

No meio da conversa lá digo ao homem que no duche senti algo estranho lá atrás (esta doença obriga a que um gajo esteja atento a toda e qualquer coisa fora do normal em cada mm do corpo, do cabelo a ponta das unhas). O medico examina o dito cujo e lá me diagnostica “isso é uma pequena hemorróida, betadine e um pouco de pomada e isso passa”

 

Ora hemorróida é uma palavra chata e feia … pelo que me parece, devido aos efeitos nos intestinos provocados pela quimio (fezes demasiado rijas por vezes, diarreia por outras), é frase que hei-de ouvir repetida mais vezes nos próximos meses. Como ter leucemia ajuda a colocar muita coisa em perspectiva, rapidamente penso “olha, menos mal, não há-de haver muita gente a morrer de hemorróidas, venha o betadine e a pomada”

 

Veio sim senhora e fizeram-se acompanhar de 1 enfermeira e de 1 estudante de enfermagem. “Temos festa” pensei.

 

A enfermeira é impecável, uma bonita espanhola, saudavelmente louca como a esmagadora maioria dos enfermeiros deste serviço. A estudante também é uma rapariga atraente e simpática, mas ainda não perdeu parcialmente a posse das faculdades mentais, o que é pena.

 

A lidar com pacientes com doenças tipo a minha, em que a vida fica toda virada do avesso, um enfermeiro aparecer sempre meio louco, brincalhão, etc … faz um bem do caraças, aumentam a boa disposição … essa saudável loucura eleva o enfermeiro à condição de enfermeiros fora de série, mantêm-se profissional a fazer o que tem de ser feito mas ao mesmo tempo injecta boa disposição e manda o moral do doente para cima, mesmo em situações em que o caos esta instalados e as coisas não funcionam como deviam funcionar, no meio daquilo tudo são eles são genuínos heróis de quem pouco se fala mas que eu vou recordar para sempre.

 

Bom, voltando ao tema da pomada e seus adjacentes narrativos, lá assumo a posição e elas lá dão inicio à desinfecção e empomadamento (se a um certo e determinado escritor moçambicano é permitido inventar palavras - Sr Mia Couto - eu também nasci na África do Sul, logo também sou africano também reclamo esse direito). A área geo-corporal (continuo a inventar) em questão é sensível e lá sinto alguma coisa que me faz iniciar um diálogo:

 

Eu - “Eh pá, se é para me andarem a fazer coisas ai atrás o mínimo que me podiam dar era um beijo!”

Enfermeira espanhola (ler com o sentido de um divertido “nem penses nisso”) - “Y adonde queres que te de un beso … aqui?!” em referencia à “válvula de escape”

 

Toma embrulha e leva para casa, saiu-te uma grande maluca na rifa e não estás em posição de sair ao despique e armar-te em engraçadinho :-)

 

Enfim, o dia ia passando entre estes pequenos episódios recheados de humor e loucura, quando às 5 para a 1 da tarde aparece o medico, abre a porta do quarto e me diz “Michael, tens alta! Tens valores bons para ires para casa, só vais fazer plaquetas, e sais hoje”

 

Foi só dar a noticia aos meus pais para ter boleia, fazer uma dose de “batatas fritas” (calão leucemico para plaquetas), esperar para ver se havia reacções, picadela para analisar se a dose era suficiente, vestir qualquer coisa, despedir-me dos companheiros (desta feita sem me desmanchar em lágrimas como aconteceu na alta do 1º internamento) e ala cardozo, ir para casa.


E essa é, de uma forma sintética q.b., como se processou o meu segundo internamento nos Capuchos

Posted by Michael at 21:03:19 | Permalink | Comments (3)

Sobre o blogue

Para quem não me conhece: Olá, sou o Michael e foi-me diagnosticada leucemia linfoblastica aguda no passado dia 09/04/2008 … dai para cá consegui virar a minha vida de pernas para o ar sem a ajuda de qualquer instituição financeira cor-de-rosa … ou como se costuma dizer entre pessoal da Amadora, isto tem sido a p*** da loucura (lá estou eu a substituir letras por *, já me meti alhadas por causa disto antes … mas enfim não quero que descubram que sou um canastrão - para desgosto da minha mãe que tudo tentou em sentido contrário - logo no primeiro post)

 

A pedido de vários amigos, foi-se formando na minha cabeça a ideia de criar um blogue para narrar algumas das peripécias que já vivi e irei viver, nesta maratona que é a luta contra a leucemia. Ao princípio não tinha concentração suficiente para o fazer, depois tive (tenho) duvidas que o consiga manter vivo e com conteúdos … agora penso que tenho tempo livre e que posso dar largas a uma ambição que tinha metido numa gaveta há algum tempo: escrever e ser lido. Finalmente, sem a arrogância de me achar um modelo a seguir, espero que as linhas que aqui colocar ajudem pessoas na minha situação (ou pior) a encarar todos os desafios que têm pela frente com tranquilidade, disciplina, determinação e todo o sentido de humor que consigam arranjar.

 

Tive uma professora na primária que dizia que as minhas composições pecavam por ter parágrafos demasiado longos … não melhorei com os anos, mas entretanto aquele outro senhor é Nobel de Literatura e não usa pontos nem vírgulas. Bom, para além disso, como irão notar, tenho tendência a divagar (também uma característica antiga e não surripiada do estilo Douglas Adams – Hitchikers Guide to the Galaxy) … mas divago.

 

Nesta coisa de blogues sou n00b … e como n00b que sou estou a reescrever este texto, porque o escrevi a primeira vez directamente no blogue, carreguei em preview, mas houve para lá um apache server que achou que aquilo era mau demais e censurou-me … perdi tudo. Eu até tenho muita estima, consideração e respeito pela população indígena dos EUA, seus valores, crenças e costumes, mas acho que o facto de terem sido massacrados, perseguidos e injustiçados durante séculos não lhes dá o direito de andarem por ai a censurarem blogues … e mesmo que desse, vão censurar outro que não o meu … bom, quero acreditar que se calhar aquilo é apenas um apache renegado, que acordou com os pés fora do tipi, mas à cautela agora passa tudo pelo Word primeiro e depois vamos ao copy paste.

 

Escolher um template de entre os vários oferecidos pelo motor do blogue não foi fácil … lá me decidi pela temática dos camelos, pela simples razão de conseguir estabelecer alguns paralelismos entre a imagem e a minha condição. Aqui vão eles, será boa oportunidade para avaliarem até que ponto a quimio que recebi já teve ou não um efeito nas minhas faculdades mentais (ao que alguns de vocês são capazes de dizer: “tretas, este já era apanhado da carola muito antes de qualquer quimio”):

 

- Deserto: Não interessa muito como se olha para a coisa, combater leucemia é uma travessia no deserto, uma maratona de meses, um filme mau daqueles que parece não há maneira de acabar … até que acaba e se respira de alívio … tipo o Titanic, essa bela história de amor entre um cruzeiro e um iceberg

 

- Beduínos / Tuaregs: A travessia do deserto não é feita apenas por quem tem a doença. Em cada passo somos acompanhados por família, amigos e todo o staff do hospital. É uma companhia muito importante em todo o processo, porque nos guia, motiva, dá alento e energia quando esmorecemos. Esta companhia criou em mim uma divida de gratidão que poderei pagar apenas de uma forma: curando-me!

 

- Camelos: Dos camelos retiro duas leituras. A mais séria prende-se o facto de ter a noção de no passado, por vezes ter sido, sem necessidade nenhuma e de forma totalmente gratuita, um camelo arrogante para com pessoas que absolutamente não o mereciam. Pelo facto peço desculpa. Tenho a agradecer a esta doença, pela lição de humildade a que ela obriga, um amadurecimento da minha maneira de ser e de estar, posso sair de todo este processo com algum órgão ausente ou a falhar, mas certamente sairei dele como um ser humano mais completo.

A mais divertida prende-se com a profunda inveja que tenho dos rins de um camelo … ando a beber agua como uma top model, e a urinar n vezes por dia, tudo para minimizar as hipóteses de a quimio forçar o sacrifício de um rim … ora se um gajo tivesse os rins da qualidade de um camelo, nada disto seria necessário. Acho que os cientistas do mundo deviam estar mais atentos a estas oportunidades de investigação.

 

Acho que já ficaram com uma ideia sobre o blogue. Continuem a ler por vossa própria conta e risco.

 

Para finalizar informo que os conteúdos do blogue irão aparecer à medida que sejam feitos, ou seja consoante me dê na bolha e não ordenados de forma cronológica.

 

M

Posted by Michael at 20:27:39 | Permalink | Comments (12)