Tuesday, April 14, 2009

6 Meses depois – reaprendendo a “viver”

Faz pouco mais de 6 meses desde que tive alta da ultima aplasia do tratamento de quimio.

A boa 1ª noticia é que continuo vivo. A 2ª boa noticia é que não tive recaída até ao momento.

Apesar de não poderem ser comparáveis aos meses que passei em tratamento, em termos de risco, dificuldade e dureza, não se posso no entanto dizer que foram simples ou fáceis.

Em primeiro lugar, em Janeiro tive de ser internado novamente com uma pneumonia. Essa é a realidade incontornável que me rodeia nos dias que correm, tenho um sistema imunitário frequentemente deficitário. Com alguma facilidade fico doente, e com dificuldade ultrapasso as doenças.

Com isto vem claramente associadas questões a nível de auto-confiança e de qualidade de vida. Continuo a pensar três vezes antes de sair de casa e de ir a algum lado, são muitos prós e contras em cima da mesa. A minha vida não voltou a ser o que era antes da doença, nem de perto nem de longe. Sinto-me limitado e inibido por regras intuídas (talvez por excesso?) ou aprendidas por erros próprios e não escritas em lado nenhum.

O tratamento de manutenção que faço é uma parte fundamental de toda esta equação de “vida normal”. A quantidade de quimio que continuo a ingerir, seja por comprimidos, seja por via intravenosa é ainda assinalável, e acertar na dosagem correcta não é, de todo fácil. Oscilações de peso, oscilações de nível de actividade / repouso … oscilações de sabe-se lá o quê … têm motivado vários acertos à dosagem. Recentemente andei mesmo muito preocupado com isto, na medida em que os valores do sistema imunitário andaram demasiado baixos … felizmente recuperaram.

A conclusão fundamental a que cheguei é que de todo não poderei reassumir níveis de actividade semelhantes aos que tinha antes da doença enquanto me mantiver neste tratamento de manutenção. Tendo de dedicar mais tempo ao repouso, o problema agora torna-se conciliar uma vida social com uma vida profissional … sendo a 2ª mais intransigente que a 1ª, com tristeza noto que tenho menos tempo para estar com amigos, o que me entristece profundamente.

Entristece-me profundamente muitas coisas que podia fazer e que já não posso.

Não há outra forma de encarar isto, aquilo porque passo neste momento trata-se de um processo de reaprender a viver. Não posso voltar ao que era (poderei alguma vez?). Não posso sonhar com o que sonhava. Não posso agir como agia. Todos os dias vivendo na ameaça da recaída … por mais que tente, é raro o dia em que o meu pensamento não se dirige a essa ameaça.

Uma vez por mês faço analises ao sangue … o nível de ansiedade nessa altura dispara bastante … será que a doença voltou? … se voltou, foi por causa de eu ter exigido demais de mim próprio? … ando as apalpadelas a tentar aprender o que devo fazer para evitar que a doença volte … para além de descanso e medicamentos ninguém parece ter respostas, o que me parece pouco para a quantidade de apalpadelas que dou, nestes 1001 cuidados de que me rodeio e com os quais construo as minhas muralhas, não sei até que ponto meros castelos de areia.

Infelizmente, continuo também a ter companheiros que aparecem com recaídas. Algumas situações parecem bem encaminhadas, outras parecem desesperadas. Uma delas pena-me em particular … é muito duro considerar morta uma pessoa que ainda sobrevive, especialmente quando se trata de um amigo … como visitar e falar com um amigo quando a única coisa que nos passa pela cabeça é perguntar: “sabes que estás fodido, irmão?”

É incrivelmente assustador perceber que, por mais que tentemos, não conseguimos controlar a nossa vida. Viver a vida tendo sentido na pele que todos os planos, sonhos, ambições e capacidades que tens te podem ser retirados de um momento para o outro … é algo muito pesado. Tenho pelo menos mais ano e meio de tratamento de manutenção pela frente. São 18 meses em que as minhas ambições se resumem a não ter recaída e a manter-me minimamente independente. Poucas ambições para quem tão alto sonhou.

Na verdade seria uma vida bem estúpida, se não estivesse nela a minha Marisa. Agora que reflicto nisso com mais calma, constato como é fácil perdermos de vista aquilo que realmente é importante. A nossa relação segue forte, ela com paciência inesgotável para o meu mau feitio, para a minha debilidade física, para os meus períodos de ansiedade … e eu com receio de não conseguir demonstrar como ela é importante e especial para mim. Essa é a minha verdadeira ambição agora … seguir junto com ela pelo caminho que tivermos pela frente, fazendo eu os possíveis para me libertar das ameaças e restrições que me cercam, sem esquecer quem sou, sem esquecer que lhe quero dar tudo aquilo que puder, sem esquecer que o mais importante nisto tudo é fazermo-nos mutuamente felizes.

Em jeito de conclusão, estes 6 meses não foram fáceis, parece-me que os próximos 18 também não serão melhores. A sensação que se tem é que se vive numa prisão. O tratamento da leucemia é assim uma espécie de “cela solitária”, muito duro, muito restrito e confinado. Quando começa a manutenção, a prisão já se torna mais espaçosa, há espaços de convívio, há “saídas precárias” … mas as restrições mantém-se lá, a ameaça de voltar ao buraco também e tens de lidar com isto tudo ao mesmo tempo que te reinventas para a vida, para o trabalho e para a sociedade.

Sem sombra de duvida é que a minha sorte é que faço esta estrada, rumo ao fim dos tratamento, em excelente companhia. Como é bom ter bom vento nas velas e não avançar apenas com base em mau feitio marca “Ferreira”.

“O sonho comanda a vida” dizia o outro … sonho estar curado, sonho ser diferente para melhor, sonho não perder de vista o que aprendi ser realmente importante, sonho não perder o que há muito procurava sem sucesso … sonho com um “pote de ouro” no final desta grande experiencia ou caminhada de humildade … e sonho dentro de 18 meses poder partilhar convosco mais sonhos.

Posted by Michael at 12:03:34 | Permalink | Comments (11)

Thursday, October 16, 2008

A ultima ressaca num deposito de carne

Acabei o ultimo post mencionando que após uma noite passada nas urgências da Hema, foi transferido para o serviço de Gastro dos Capuchos por não haver lugar na enfermaria de Hema para ser internado.

 

Por aquilo que ia ouvindo aqui e ali já sabia que a enfermaria, tal como serviço de urgência estava a abarrotar, e que a probabilidade de ir parar a outro serviço era muito alta.

 

Fiquei muito surpreendido foi pela velocidade com que fui transferido. Autenticamente parecia que queriam salvar o pai de alguém da forca, tal era a pressão e a pressa que revelavam em mover-me da Hema para Gastro. A pressão e a pressa foi tal que não houve ninguém que se lembrasse de indicar à Gastro que medicação devia receber poder receber em caso de SOS, razão pela qual passei esse dia todo com diarreia sem que os enfermeiros de Gastro me pudessem dar seja o que for até que à noite, já sem poder aguentar mais, comecei a ameaçar levantar-me, por o soro as costas e ir bater à porta de Hematologia a reclamar que alguém me acudisse.

 

Nunca como nesse dia me senti tão abandonado e esquecido pelos médicos de Hematologia. A minha médica não estava de serviço e como não estava na enfermaria de Hema parece que me tinha tornado invisível, inexistente ou como diria Douglas Adams, simplesmente tinha-me tornado um SEP: “Somebody else’s problem”.

 

Mediante as minhas ameaças meio tresloucadas, um telefonema providencial da Gastro para a Hema resultou finalmente na recepção de uma prescrição de comprimidos contra a diarreia que me deveria ter sido passada logo pela manhã, quando fui empurrado à pressa para fora do serviço de Hema.

 

A pressa era tal que inclusive tive que me exaltar um pouco e perguntar se podia ao menos tomar um duche antes de ser transferido. Afinal não sabia o que ia encontrar pela frente, todos os companheiros se queixavam que os outros serviços para onde tinham sido transferidos eram francamente maus em comparação com a Hematologia, e preferia ir aviado em terra como bom marujo acautelado.

 

Apercebi-me rapidamente que fiz muito bem em fincar pé em pelo menos tomar um duche, porque o serviço de Gastro deixa muito a desejar e de todo não é local para um doente de Hematologia ser transferido. No serviço de Gastro pude finalmente ter a noção concreta de como o sistema nacional de saúde e os hospitais públicos estão na mais profunda decadência, desinvestimento e desinteresse.

 

Correntes de ar são o pão nosso de cada dia em Gastro. Vá-se lá perceber porque motivo, o acesso ao serviço está permanentemente escancarado e correntes de ar nos corredores são abundantes.

 

Dentro dos quartos idem aspas, basta que se abra uma janela (na Hema as janelas pura e simplesmente não são abertas, a porta do serviço está fechada só abrindo para as visitas entrarem e saírem na hora da visita).

 

A casa de banho e os chuveiros são constantemente varridos com correntes de ar por causa da janela que esta constantemente aberta (na Hema não há janela na casa de banho) … portanto eu sem sistema imunitário estava sempre a ver quando é eu apanhava ali uma gripe que rapidamente podia evoluir para uma pneumonia e pura e simplesmente estragar numa questão de horas o sacrifício de meses e meses de tratamento.

 

Optei por passar a tomar banho apenas de dois em dois dias.

 

Os problemas não se ficavam por aqui no entanto. Ao 3º dia de internamento tomei consciência que não aqueles chuveiros eram uma armadilha potencialmente mortal, o escoamento de agua dos duches pura e simplesmente não acontecia e um companheiro escorregou num lençol ensopado de agua que estava no chão e caiu, não tendo rachado a cabeça por pouco. Com as plaquetas nos mínimos como eu tinha nessa altura, se fosse eu a cair teria ali arranjado um belo 31.

 

As sanitas também eram um espectáculo, não tinham o assento de plástico, de maneira que era só a porcelana que tinha a suportar-me nas várias visitas que lá fiz devidas à diarreia que não me largava. A juntar a isto havia ainda o mau hábito (mau hábito para Hematologia, perfeitamente normal para Gastro) de se colocar nuns cestos ao pé da sanita as fraldas imundas, fedorentas e cheias de micróbios indesejáveis a menos de meio metro de quem procura aliviar-se na sanita amputada de assento.

 

Senti naqueles primeiros dias de Gastro que tinha ali sido deixado para morrer. N vezes me passou pela cabeça ir-me embora para casa morrer na minha cama. Mas resisti a esses pensamentos de ansiedade extrema e tentei habituar-me ao desconforto da situação. A sensação de insegurança também se alargou à possibilidade de ser assaltado, naquele serviço entra-se e sai-se sem controlo, de maneira que entre isso e o estar sem o mínimo de animo pedi à minha mãe que levasse de ao pé de mim o portátil que habitualmente me acompanhava nos internamentos.

 

As horas iam-se alternando, entre diarreia, cólicas e febres … já ansiava pela febre para poder levar o paracetamol para ter alivio das cólicas. O colchão da minha cama estava todo afundado, tendo entre a minha bacia e o estrado de ferro uma espessura inferior ao do meu dedo mindinho. As condições em que estava eram tão más que até a isso me habituei, dando por contente se esse fosse o maior dos meus males. Só ao fim de 3 dias não aguentei mais e queixei-me a sério do desconforto em que estava, tendo-se remediado, à portuga, uma solução de recurso com 2 cobertores a serem colocados entre o colchão e o estrado.

 

A juntar à festa, pouco a pouco fui tomando consciência que aquele serviço de Gastro não era de facto uma enfermaria, era antes uma espécie de UCI polivalente (como ouvi ser baptizada por uma enfermaria do serviço) que recebia corpos de toda a parte, em qualquer estado, pelo simples facto de não haver outro lugar onde enfiarem aqueles corpos. Estava internado num talho, mas respirava

 

No meu quarto chegou um dia, por exemplo o Sr. Zé, que veio as tantas da noite das urgências de S. José. Passadas poucas horas, na madrugada, o Sr. Zé encontrar-se-ia as portas da morte, altura em que os enfermeiros de Gastro se aperceberam que o homem tinha sido transferido sem estar sequer puncionado, altura em que o médico de serviço na Gastro, rapaz novo e com poucos conhecimentos de insuficiências cardíacas acompanhadas de dificuldades respiratórias, se apercebeu que não sabia o que havia de fazer para salvar o homem e teve de pedir ajuda a uma colega vinda sabe-se lá de onde. O Sr. Zé safou-se dessa felizmente, mas não dormi nada nessa noite tal foi o alarido no quarto, horas e horas a fio.

 

Duas noites depois o Sr. Zé voltaria a passar muito mal, tendo passado a noite toda com tosse convulsa, que mais uma vez não me permitiu descansar.

 

Apesar do pouco que dormi nessas duas noites, comecei a sentir pelo velhote um certo carinho. Homem dos seus 80 anos, tinha trabalhado ate aos 79, aos 60 tinha-se habituado a usar computador.

 

Possuía lucidez suficiente para ser extremamente bem educado com o staff do serviço, ao mesmo tempo que se saia com pérolas de sabedoria do género “o Presidente da Republica devia ser enrabado por não fazer nada”. Ora ali estava um velhote exemplar, que merecia ser salvo e bem tratado … era um dos meus, bem educado com quem o tratava com respeito e sem papas na língua.

 

Seria por causa do Sr. Zé, e não por nada que me tivessem feito a mim, que me haveria de pegar com uma enfermeira do serviço de Gastro … lá chegaremos.

 

Não deve ser fácil trabalhar no serviço de Gastro, especialmente para os enfermeiros. As condições materiais não são boas, aparece-lhes de tudo um pouco pela frente sem terem a formação adequada para lidarem com todas as situações, safam situações à esquerda e à direita recebendo doentes de todos os lados, nos estados mais ou menos lastimosos que se possam imaginar.

 

Parece-me um daqueles serviços onde rapidamente se chega à conclusão que dê lá por onde der, vai-se chegar ao final do dia com um elevado nível de stress e muita pouca realização profissional. Junte-se a isso o descontentamento por não haver carreira, por não haver aumentos há 4 anos por haver precariedade no trabalho e estão reunidas as condições para o desastre.

 

Seja como for, neste estado de coisas, existem ainda enfermeiros e enfermeiras que ainda não perderam de vista que o que escolheram para a sua vida é uma missão, e que não estão ali meramente para desempenhar uma função, terem um emprego ou ganharem um salário. Existem ainda na Gastro enfermeiros que mantêm esse espírito de missão e essa disponibilidade mental para em condições muito adversas darem o seu melhor para atenuar o sofrimento dos doentes … são poucos mas existem.

 

Tornou-se para mim uma pratica de sobrevivência estudar quem eram os enfermeiros e enfermeiras a quem valia a pena queixar-me seja do que fosse. Uma vez identificados, não passava cavaco aos outros e esperava que aparecesse um que valesse a pena. É a pena acrescida a quem trabalha bem nesta terra … ter ainda mais trabalho.

 

Se este é o estado de arte a nível de enfermeiros, agora imaginem a coisa a nível de auxiliares e inclusive de empregados do catering … desde doentes encharcados em urina nas fraldas há mais de meia hora a cheirarem mal nas enfermarias, até uma empregada do catering, que após 2 dias maltratar um toxicodepente que ia iniciar um processo de recuperação, ter tido a distinta e impressionante lata de dizer que “quem manda aqui sou eu e não você”, vi de tudo para me por o sangue a ferver.

 

O que a senhora do catering não sabia era que, para além de não ter coração e ser uma daquelas pessoas que só sente bem metendo o pé no pescoço de quem tenta sair da merda, é que o rapaz tinha tomado um brutal injecção de tramal para dormir e suportar a ressaca, e mal se tinha nas pernas … mas era ela que mandava ali, não os enfermeiros, não o chefe de turno, não o chefe do serviço de enfermagem, não os médicos, não o chefe do serviço, não senhora, quem mandava ali, na sua infinita sabedoria, era a senhora do catering.

 

O sangue fervia cada vez mais, mas fui fazendo a minha vida e mantendo-me na minha até que um dia não aguentei mais e mediante o que assisti tive que me insurgir.

 

Havia necessidade todos os dias de tirar o Sr. Zé da cama e coloca-lo num cadeirão. Parece que lhe fazia bem à respiração, acelerava a recuperação. Infelizmente o coitado do homem não se aguentava muito tempo sentado, sentia fortes dores nas nádegas até se deixar escorregar pelo cadeirão abaixo até ter o pescoço todo dobrado sobre o peito, pressionado pelas costas do cadeirão. No primeiro dia não me apercebi disto até aparecerem os enfermeiros para voltarem a colocar o homem na cama. Senti-me mal por ter ali o homem ao lado em sofrimento mas estar absorto demais pelo meu livro e pelas minhas dores para me dar conta que o homem estava a passar mesmo mal.

 

Jurei a mim mesmo que no dia seguinte estaria mais atento.

 

Assim jurei, assim fiz … no dia seguinte quando ao final de algum tempo vejo o homem na mesma posição, chamo uma enfermeira para dar um jeito ao homem, coloca-lo numa posição mais confortável. Era uma enfermeira já de cabelos grisalhos, claramente com muitos anos de casa … era também a coisa mais parecida com um autómato que tinha visto em 7 meses de Capuchos … dava toda sensação que quando mais acumulou em experiência e saber técnico ao longo de anos e anos de enfermagem, mais perdeu a nível de humanidade.

 

Essa sensação foi confirmada rapidamente. Expliquei-lhe que o homem não aguentava com dores nas nádegas, pedi que o colocasse numa posição mais confortável, mas não passou caso e fez menção de apenas voltar a colocar o homem direito no cadeirão, coisa que não conseguia fazer sozinha.

 

Insisti que o homem dai a dez minutos ia estar outra vez muito cheio de dores e na mesma posição pouco recomendável. A mulher a partir daqui lá achou que em vez de tratar do homem se impunha muito mais disparatar comigo … o que ela foi fazer, com quem ela foi-se meter.

 

Posta de pescada para cá, posta de pescada para lá, decidi que seria a família do Sr. Zé a colocar aquilo em pratos limpos, com todo o gosto seria testemunha caso quisessem apresentar queixa. A enfermeira abandonou o quarto deixando o Sr. Zé como o tinha encontrado, sem mais voltar para sequer o recolocar direito no cadeirão.

 

O Sr. Zé, já em abundante sofrimento e plenamente consciente do que se tinha ali passado, já oferecia 50 contos a quem o colocasse na cama e 1000 contos a quem o tirasse do hospital … agora imaginem como o homem passava mal.

 

Teve de ser o tal rapaz toxicodependente em recuperação a dirigir-se a outro enfermeiro, ao chefe de turno, e pedir que acudissem ao homem. Veio esse enfermeiro e outra colega, reclinaram o cadeirão um pouco para trás e remédio santo o homem teve paz ao ponto de ferrar o galho, tendo ficado no cadeirão pelo menos mais uma hora sem se queixar de nada.

 

Chegada a hora das visitas, informei a família do Sr. Zé do que se tinha passado. Com medo de “represálias” decidiram nada fazer. Anos a mais de Salarizmo, de ter calma, de não protestar, de fazer de conta que vivemos num pais do chamado 1º mundo.

 

Decidi que da minha parte, aquela enfermeira não me tocaria mais. Assim, algures na tarde, quando a dita enfermeira veio para me colocar medicação, arranquei-lhe bruscamente as torneiras da medicação da mão e informei-a brusca e agressivamente que em mim ela não tocava mais, nem em mim, nem na minha medicação, nem nas minhas torneiras … tomada de surpresa e ressabiada pergunta-me porquê, ao que eu respondo “porque por aquilo que vi de manhã, na forma como tratou aqui do Sr. Zé, perdi toda a confiança no seu discernimento profissional”.

 

Quer-me parecer que em toda a sua vida nunca ninguém lhe tinha dito nada de parecido. Pior do que uma barata sai do quarto dizendo entre dentes “você e que sabe” e vai ter com uma colega. Essa colega vem ter comigo quase de imediato a perguntar-me qual era o problema, e ai já delicadamente lhe respondi que com ela não havia problema nenhum e que estava a vontade para me administrar a medicação.

 

A jovem enfermeira insiste em me perguntar o que se tinha passado. Quando começo a explicar, reaparece a cusca da ressabiada que claramente se tinha deixado no corredor suficientemente perto para ouvir o que eu ia dizer, em vez de ir trabalhar e justificar o salário para outro lado.

 

“Diga lá à minha frente o que ia dizer nas costas se tem coragem!” diz a mal-amada … já só me apetecia rir, agora ia ouvir tudo o que tinha a dizer … não foi preciso falar muito, foi apenas necessário dizer o seguinte: “aquilo que estava a dizer à sua colega é que ela, e o chefe de turno, tiveram de dispensar por si o tempo e a energia a colocarem um doente confortável, porque você preferiu empregar o seu tempo e energia a discutir comigo em vez de fazer o seu trabalho. Como tal não tenho confiança em si para tratar de mim, logo em mim você não toca mais!” … posta de pescada para cá e para lá, bate em retirada quando finalmente percebe que dali não sairá a ganhar nada. Nunca mais palavra foi trocada entre nós, tenho a certeza que a mandei para casa nesse dia com uma dose infernal de bílis no estômago e eu passei boa parte da tarde a rir-me dessa mini-vingança por indecente e maus tratos a um idoso, que me soube que nem ginjas.

 

Bateu-me a curiosidade em conhecer o chefe daquele serviço de enfermagem. Sempre gostava de saber quem era a pessoa que tinha permitido que o seu serviço fosse tão disfuncional e avacalhado como é o de Gastro (e dizem-me que até não é dos piores). Apetecia-me perguntar-lhe se ainda não percebeu que tudo o que se mantém entre a falência total dos hospitais públicos são os serviços de enfermagem geridos com humanidade, brio e rigor e a manutenção dos mais elevados graus de exigência possíveis mediante as condições existentes.

 

Nesse dia, ou no dia seguinte, a medica de serviço da Hematologia veio ver-me para se tomar uma decisão sobre a minha alta. Antes de chegar até mim esteve durante dez minutos a ouvir reclamações de outro doente de Hematologia, do pouco que percebi parece que tinha havido erros com a medicação. Quando se chegou ao pé de mim ouviu as minhas … estando na duvida se havia ou não de me mandar para casa, mediante o ambiente péssimo onde estava lá tomou a sensata decisão de me mandar para casa, com indicação expressa de regressar caso me sentisse mal ou tivesse febre. Em tempo recorde vesti-me e abalei, firmemente decidido a não regressar mas nem que a vaca tossisse.

 

Estamos entregues à bicharada e não há quem nos salve. Pagamos impostos, somos mal servidos, mas mesmo assim somos cobardes e não reclamamos porque “parece mal”.

 

Não somos governados nem nos deixamos governar. A esmagadora maioria da classe média, protegida atrás dos seguros de saúde achasse a salvo disto tudo, de viver e conhecer esta realidade bem de perto. Um dia que percebam que os seguros não cobrem certos e determinados tipos de serviços e especialidades vão lá bater com os costados nos Capuchos, para internamentos longos e vão finalmente aperceber-se da falsa sensação de segurança em que vivem.

 

Da minha parte já tive a minha dose e agora em vez de passageiro frequente vou virar turista acidental. Tenciono aproveitar bem pelo menos estes próximos dez anos que não me vai suceder nada de grave, daqui para a frente já pouco me assusta, já vi tudo o que tinha a ver.

 

Com este triste e longo relato dou por findo o blog, reservando-me despoticamente o direito de o reabrir se assim me der na real gana. Voltei hoje a sentir o prazer de fazer a barba com uma lamina de barbear … amanha almoço com amigos, com sorte visito a Companheira Elsa que está nos quartos isolados de Santa Maria a fazer transplante … fim de semana revejo família … próxima semana abalo uns dias com a namorada para uma região do Alentejo que nunca tive oportunidade de conhecer. Calma e paulatinamente vou fechando capítulos e abrindo novos.

Posted by Michael at 19:33:04 | Permalink | Comments (11)

“É hoje que me passo”

Há uma série de anos (pelo menos dez), aconteceu-me uma situação que até hoje não sei bem o que pensar dela. Estava com dois amigos e colegas à época, íamos a entrar no meu bogas, junto à faculdade. Um deles estava a acabar de fumar o cigarro no passeio, virado para a estrada, quando decidiu abrir a porta de trás do carro. Nisto vinha uma senhora idosa (teria entre 60 e 70 anos, mas nada de muletas nem nada disso, tinha-se bem nas duas pernas), pelo passeio afora, caminhando, indo à sua vidinha. Raio de sorte ou azar, a senhora idosa passa por trás do meu amigo no milésimo de segundo preciso em que ele abre a porta do carro, escancarada para cima do passeio. Ditaram as leis da física que a minha porta acertasse na senhora idosa de uma forma algo enérgica. Ditou a humanidade que para além do toque que levou da porta, a senhora se terá assustado, tendo-se quedado boquiaberta e muito atarantada com esta aventura.

 

De imediato, mas mesmo de imediato, o meu amigo (vamos chamar-lhe, por exemplo Pedro) pediu desculpas num tom de voz cordato, afável e diria até meigo, de tal forma meigo que fiquei a pensar que raça extraterrestre teria raptado o meu amigo, que sempre tive por gajo profundamente nervoso, conflituoso (se provocado) e com mau feitio (mais do que eu, imaginem).

 

De onde tinha saído aquele tom de voz meigo e apaziguador, que faria inveja ao próprio Dalai Lama?! É que o rapaz tinha mesmo mau feitio, aliás tinha mau feitio ao ponto de ser ter pegado à chapada com outro amigo meu numa festa de aniversário ali na Falagueira (em sua defesa tenho a dizer que ele nada tinha a haver com a rolha de champagne que era arremessada violentamente entre os convivas do canto oposto da mesa, quando esta inusitadamente decidiu viajar uns bons 6 metros e fazer contacto com o olho direito do Pedro)

 

Dessa noite retirei duas lições. A primeira é que as tropas da ONU nunca devem andar ébrias. Um ébrio e enfurecido Pedro passou por mim, na jornada a pé de 6 metros que encetou para se ir virar ao tabefe com o emissor do projéctil (igualmente ébrio e crescentemente enfurecido), e eu, ebriamente sem me conseguir levantar, ebriamente pensei “que se lixe, a coisa já acalma, claro que não se vão pegar ao tabefe” … lição nº 2, duvidar do meu discernimento quando estou ébrio.

 

Ao contrário dos filmes de Hollywood, houve apenas uns socos e pontapés, mas nem mobília da casa nem a louça emprestada foi partida, portando foi uma noite de pouca despesa (como se recomenda na linha de Sintra, porque dinheiro para avarias não havia), o aniversário foi celebrado meio ao estilo sérvio mas no final da noite fomos todos para casa sem problemas de maior (o  Pedro com hematoma no olho da rolha, o meu outro amigo com hematomas nas pernas das botas de biqueira de aço do Pedro), com excepção do tecto do meu quarto que não parava de rodopiar.

 

Mas divaguei ….

 

Quando o Pedro pede desculpas, a reacção da senhora idosa foi de desbloquear do estado congelado em que se encontrava e começar a dizer porcaria do género “os jovens de hoje em dia, bla bla bla” … bla bla bla porque é uma lenga lenga tão clássica de idoso frustrado que já não havia pachorra, de maneira que desenvolvi a capacidade de deixar de ouvir o resto da incontinência verbal que por vezes se apodera da terceira idade em momentos de fúria vingativa.

 

Nisto só ouço o Pedro a levantar a voz e gritar “VAI PÓ C*****O, VELHA DO C*****O!” … o que teve o efeito milagroso de fazer a idosa calar-se e afastar-se com celeridade do local. Neste momento fiquei aliviado que o Pedro não tinha sido raptado por extraterrestres, metemo-nos no carro e fomos embora.

 

Há dias em que acordo e penso que o Pedro estava bastante ao coberto da razão … há outros em que acordo e penso que terá sido demasiado agressivo e exagerado na sua reacção.

 

Poucos dias depois de findo o 4º ultimo ciclo B, em plena ressaca, acordei pensado que o Pedro estava coberto de razão. Isso era sinal que estava de mau feitio … mau feitio reforçado por saber que tinha de ir à consulta nesse dia.

 

Já no hospital, na sala de espera do Hospital de Dia de Hema, ia-me passando à séria com uma velha. Como pessoa civilizada e ordeira, cheguei lá, tirei a minha senha e sentei-me à espera de ser chamado. A sala de espera estava cheia, a arrebentar pelas costuras … seria um dia tão complicado que ao final de 5 horas de espera não conseguiria mais do que tirar sangue e mudar o penso do cateter.

 

Ao fim de uma quinzena de minutos reparo na tal velha que entra, armada em saloia vinda das berças, borrifa-se de alto para sacar uma senha e começa a fazer marcação individual ao guichet de atendimento, intrometendo-se lá entre todos os outros idosos ansiosos, que mesmo tendo senha lá acham que por via das duvidas mais vale fazerem também marcação ao guichet para evitar serem passados para trás por chicos e chicas espertas que abundam neste país piolhoso.

 

Começa-me a ferver o sangue. Estamos no Sec. XXI … aquela velha sabe de certeza que há senhas … só não sabe se não quer, porque se lhe for pedir os resumos das 30 novelas que todos os dias empestam os 4 canais de televisão grátis e poluída de certeza que mos debita melhor do que a tabuada dos dois, devidamente intercalados por todos os mexericos da rua dela e das vizinhas todas.

 

Odeio este género de gente, que permitiram décadas de Salazar, anos de Marcelo Caetano, Ramalho Eanes, Mário Soares por ai fora até chegar ao Sócrates, em quem votam porque tem um sorriso bonito e o cacique lá da aldeia mandou. O voto destas pessoas vale tanto como o meu … esse é o mal da democracia.

 

Irrita-me solenemente que estas pessoas, com este baixo nível intelectual e cultural, tenham tido a lata de criticar a minha geração, que foi a ultima que protagonizou um movimento estudantil cívico contestatário ao ataque que foi feito ao ensino superior publico, tendo nos chamado “geração rasca” … mas quantas dezenas de gerações bem mais rascas do que a minha não poluem esta terra à muito mais tempo do que a minha?

 

O que é facto é que depois dos movimentos estudantis do inicio dos 90, os da “geração rasca” nunca mais se viram movimentos contestatários da sociedade civil que levantassem a voz contra a delapidação do país e dos direitos dos cidadãos … protestar tornou-se sinónimo de algo sujo e indigno … rasca. Na onda do social-porreirismo cabe a cada português suportar os desvarios todos de governantes e compatriotas com doses tibetanas de paciência e resignação.

 

Comigo não … muito menos naquele dia. Quando chega perto da minha vez de se chamado também me levanto e começo a fazer marcação à velha, que fingindo-se de autista se mantém a fazer marcação ao guichet. Poucos minutos passam e quando está o meu numero para surgir já a velha está junto ao guichet a embaciar o vidro … chamam o meu numero e ela tem a distinta lata de meter a papelada dela pela ranhura do guichet … não fui de modas, agressivamente coloquei a minha papelada em cima da dela, acompanhada da senha que me assistia razão, e falei-lhe alto e bem duro “Com licença minha senhora, mas a vez é minha!” … fiquei à espera que houvesse protesto para a poder enviar, à semelhança do meu amigo dez anos antes, para o c*****o, mas de facto a velha deu mostras de ser tudo menos estúpida e refugiou-se atrás de um sorriso amarelo saloio e de um passo atrás.

 

Entre a fase da ressaca, o meu mau feitio, o cansaço do tempo que passei nesse dia no hospital, o stress que lá passei mais uma vez e uma paragem de digestão, estavam reunidas as condições para vir a febre … que me apanhou nesse mesmo dia, a meio de escrever este post e me fez regressar as urgências de Hema à hora do jantar. Com muito malabarismo lá foi possível passar essa primeira noite nas urgências, com uma febre não muito alta mas com diarreia, tendo sido despejado apenas no dia seguinte dali para fora e para o serviço de Gastro … esse episodio merece um post próprio

Posted by Michael at 15:03:59 | Permalink | Comments (2)

Os dias depois do Dia V

Voltar a uma vida “normal” … eh eh … a coisa tem que levar aspas porque já não sei mais o que é normal ou anormal.

 

Primeiro foi o cansaço pos-alta de uma fase de ressaca no serviço de Gastro dos Capuchos, que foi tudo menos repousante.

 

Seguiram-se uns dias bem simpáticos, divididos entre namorar, ver família (missão incompleta até à data) e amigos (missão igualmente incompleta até à data).

 

Mais recentes tive que passar uma quantidade assinalável de horas no hospital, a fazer exames, que confirmaram que a fase de tratamento foi um êxito e que deram luz verde ao arranque do tratamento de manutenção.

 

Descobri finalmente o que seria o tratamento de manutenção … 2 anos a tomar comprimidos de quimio em cima de comprimidos de quimio. Neste momento o máximo é 15 comprimidos de quimio num dia por semana, mais 3 por dia todos os dias, mais quimio injectável uma vez por mês, mais cortizona, mais comprimidos anti-enjoo.

 

Se por um lado neste momento enterrei todas as duvidas que tinham em relação a vir a ter uma ressaca (com tanta quimio e com a nova atitude que tenho em relação à vida não me parece de todo possível que a doença regresse), por outro estou a sentir na pele o peso desta carga química (que provavelmente poderá ter de ser reduzida assim se verifique que me atira os valores do sangue demasiado para baixo) e crescem os receios do efeito desta exposição de 2 anos a um tratamento químico com efeitos por determinar a nível dos meus órgãos internos e da minha fertilidade.

 

Mas nada há a fazer excepto fazer o que tem de se feito, ter juízo e suportar esta semi-pena de prisão domiciliária.

 

Finalmente de assinalar, de um ponto de vista negativo, foi a confirmação que tive esta semana que fui estúpido todos os dias de ter dado à minha actividade profissional a importância que dei desde sempre, que foi tolice total colocar nela a intensidade que coloquei … bastaram 6 / 7 meses de afastamento dela e estão completamente postos de lado todos os planos e objectivos que tinha delineado para mim próprio … cai da carroça e agora vou ter que estar na “corrida das ratazanas”, neste pais merdoso e periférico, a mercê de governantes corruptos e inaptos.

 

O que vale é que o sol ainda brilha e o mar é lindo … apesar de não me poder banhar ao sol …. apesar de não poder velejar. A vida não pára até que se extinga, leva-se socos, encaixa-se, segue-se em frente … em todos os momentos, por mais que custe ou não apeteça ou pareça improvável que algo corra bem, resta-nos ser positivo e dar o nosso melhor para que a vida nos sorria um pouco mais do que sorriu ontem.

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Sunday, October 5, 2008

Dia V – 4 de Outubro

Dia V, dia da Vitoria, foi ontem, dia 4 de Outubro de 2008. Acabou. Acabaram as quimios e as ressacas. Acabaram as febres, os antibióticos, soros, internamentos e afins. Acabou-se a comida do hospital. Desta estou safo, agora é fazer por não me meter noutra, se tal for possível.

 

Como bom republicano, até preferia que fosse a 5 de Outubro, mas por motivos dos quais falarei mais a frente, e em maior detalhe noutro dia, fico satisfeito assim mesmo.

 

Estava precisamente a escrever um post na 2ª feira à noite, quando as febres me agarraram pelo pé e me puxaram até ao Hospital dos Capuchos. O serviço de urgência de Hematologia estava, mais uma vez, apinhado de gente, mas com muito malabarismo e algumas macas, a falta de camas foi superada.

 

Na 3ª feira fui transferido, não para a enfermaria de Hematologia (que não tinha vaga), mas para o serviço de Gastro dos Capuchos. Lá pude testemunhar, em primeira mão, o estado miserável do sistema nacional de saúde. O que passei por lá foi tão bom ou tão mau que tendo tido alta, a única coisa que me ocorreu foi ir para casa, ficar quietinho, deitar-me cedo e dormir 12 horas seguidas para recuperar destes dias passados na Gastro.

 

Assim sendo, a alegria que sinto nem pode ser celebrada efusivamente, restando apenas uma sensação de alivio muito grande que me preenche, por tudo ter acabado.

 

Agora regularmente hei-de ter que ir ao hospital fazer consultas e exames de rotina, hei-de ter que tomar medicação e fazer quimio de prevenção em doses mínimas muito de vez em quando, para evitar surpresas desagradáveis.

 

Quanto à minha vida profissional, a menos que haja uma coisa fantástica onde embarcar, planeio passar um mês de férias ou de actividade profissional reduzida, ao mesmo tempo que vou analisar a melhor forma de voltar à “corrida de ratazanas” do chamado “mundo real” … mas isso de voltar não será assim de forma inocente … vou-me inspirar no Pinto da Costa e tratar de entornar o campo um pouco mais a meu favor antes de entrar em campo … afinal não planeio passar o resto da vida a responder à pergunta “sou um homem ou um rato?!” com um monossilábico “hic!”

 

Queria, por agora, deixar apenas alguns pensamentos e agradecimentos.

 

A todos as pessoas, anónimos, conhecidos ou amigos, que deram sangue por mim, que me deixaram palavras de apoio, que rezaram por mim, que apoiaram a minha família, nesta época que foi a mais difícil pela qual passei (apesar de já ter tido outras bem beras). Agradeço e planeio retribuir sendo uma pessoa melhor do que era.

 

À minha família, em particular os meus pais, não tenho como agradecer, foram essenciais e imprescindíveis no meu processo de recuperação, não consigo imaginar como teria sido possível suportar o que eu suportei sem eles estarem lá para me ajudar. O meu pai é o Homem do século XX (2º lugar para o Che Guevara) e do século XXI (2º lugar por atribuir). Para a minha mãe nem há palavras suficientes para descrever o que ela fez por mim. Diz o povo “desgraçado aquele que não tem mãe”, o povo por vezes é sábio. Acho que ao longo destes 6 meses ela me deu à luz uma segunda vez, só que desta vez dei-lhe coices ainda mais fortes nos meus períodos de mau-humor.

 

Ao meu anjo, à minha flor, à melhor coisa que me aconteceu este ano, à mulher pela qual valeu a pena contrair leucemia para a conhecer, tenho também muito a agradecer e a desejar que nada, nunca, nos separe. Esta é para ti: http://www.youtube.com/watch?v=e7pS7LPzR1g

 

A todo o pessoal do serviço de Hematologia, vocês são uns grandes, já o disse previamente, sou vosso fã e estarei para sempre reconhecido do papel que desempenharam na minha cura … continuo avariado da cabeça mas isso é estrutural, não se preocupem.

 

A todos os companheiros que continuam em tratamento, desejo-vos toda a sorte e muita força. Não sou homem de rezas, se fosse rezava por todos. Esta vida pode ser bonita se assim o quisermos, por isso vale a pena lutar por ela até ao limite das nossas forças. Façam a vossa parte, que médicos e enfermeiros irão fazer a deles, inshallah (“oxalá” para os laicos, “se Deus quiser” para os outros) em conjunto, tal como no meu caso, essa cabra dessa doença vai levar uma coça que até vai andar de lado.

 

Às famílias daqueles que continuam em tratamento, não se esqueçam de nunca perder a esperança num desfecho favorável. Não faltem as forças a quem está internado, não permitam que ela vos falte a vós. Quando as coisas estiverem negras, procurem ajuda, procurem apoio onde sentirem que o podem encontrar. Em cada visita mandem energia positiva a quem está internado, por muito que vos custe. Se custar demasiado, inventem uma desculpa plausível e falhem uma visita ou duas, peçam a alaguem, amigo ou familiar que visite em vosso lugar.

 

Às famílias daqueles que não resistiram à doença ou ao tratamento, posso apenas desejar que o vosso sofrimento lentamente se transforme em melancólicas e bonitas recordações daqueles que partiram. Se são pessoas com uma elevada espiritualidade, religiosa ou outra, e acreditam que de alguma forma a vida não acaba na forma humana, apenas se transforma, então sejam consistentes no vosso sistema de crenças … qualquer pecado deste mundo foi pago nele antes de partirem, os vossos entes queridos estão certamente nalgum sitio melhor. Se, tal como eu, acreditam que a coisa fica mesmo por aqui e a vida é curta, que vos traga conforto saberem que agora quem muito sofreu, não mais sentirá dor nem conhecerá o sofrimento.

 

Tenho um par de posts por colocar antes de dar por encerrado este blog, até lá fiquem bem.

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Thursday, September 25, 2008

Na terra de ninguém, pelo meio do arame farpado

O 4º ciclo B está feito. Levei a ultima quimio na passada madrugada de quarta para quinta feira e estou agora em casa à espera da ressaca. Gostava de dizer que estou em casa tranquilamente à espera da ressaca, mas este é sempre assunto demasiado sério para se conseguir estar muito tranquilo.

 

Estou moderadamente tranquilo. Estou aliviado porque dê lá por onde der, não há volta a dar … “Alea Jacta Est” diria o Júlio, as pontes para trás estão queimadas, logo só há caminho para a frente. Acho mesmo que a tranquilidade modesta que sinto vem mesmo do facto de nestas ocasiões não haver opção, preparar para o pior esperando o melhor e avançar

 

As coisas lá no hospital correram dentro da normalidade, só preocupa é que de facto o serviço continua completamente submergido em doentes, quase todos os dias dei um salto as urgências visitar companheiros, todos os dias deparei com as camas da urgência ocupadas a 100% e doentes em macas.

 

Há doentes de hematologia espalhados por quase todos os serviços do Hospital, o que não ajuda nada em termos logísticos e preocupa bastante porque pelas historias que se contam do tratamento dado nesses outros serviços, desde o desleixo do pessoal até à falta de condições (fala-se em baratas a cirandar pelos cantos, doentes com 40º de febre a quem só são dadas duas garrafas de agua por dia por doente, pensos a serem mudados sem que os profissionais coloquem mascaras, etc…) faz-me concluir que a imagem que tenho dos Capuchos é muito superior à que realmente merece, fui (felizmente até ao momento) muito pouco exposto à totalidade da bruta realidade.

 

Uma das coisas que me chocou foi ter ouvido que há “senhoras” enfermeiras de outros serviços que já se terão saído com comentários do género “os doentes de hematologia são uns privilegiados” … rais’ma partam se não dá vontade de ver lá uma delas ou alguém delas próximas com uma leucemia ou um linfoma meses a fio, entre a vida e a morte, para provarem do próprio veneno e/ou dor de corno.

 

Infelizmente é a mentalidade que temos, de onde deriva a sociedade que temos.

 

Mas não me vou deter mais nisso, é gente que tem o que merece, vivem amargurados e conformados dentro do mundo que criaram e das escolhas que fizeram, à sua maneira também sofrem, estou convencido que se olham ao espelho e não gostam do que vêm.

 

Falemos de coisas mais positivas, falemos de boas iniciativas. Como por exemplo esta http://www.igc.gulbenkian.pt/investigadores2008/index.php?option=com_content&task=view&id=41&Itemid=59 uma caminhada pela Ciência, que irá angariar fundos para a investigação à leucemia a decorrer amanha no CCB entre as 14h00 e as 24h00. Eu sei que é um bocado em cima da hora, mas para quem poder ir lá parece-me bem meritório. Gostava de lá ir mas já entrei na fase da “cagunfa”, nesta fase do campeonato não vou arriscar nem dar a mínima abébia.

 

A semana passada ou lá o que foi a praxe da faculdade de Santa Maria aos caloiros do 1º ano também foi simpática, foram para o Terreiro do Paço tentar angariar dadores de medula óssea. Quando se fala tanto contra e a favor de praxes e se vêm iniciativas destas só apetece dizer que praxes destas venham e muitas.

 

A doação de medula óssea é algo que já devia ter abordado aqui há algum tempo e ainda não o fiz. Ainda ontem soube que um companheiro, um moço impecável de vinte e poucos anos, que já teve uma recaída, não conseguiu colher células suficientes para o auto-transplante. Há outros casos, alguns de pessoas que conheço, a esmagadora maioria não, de pessoas que precisam de encontrar um dador compatível para poderem sobreviver.

 

Não se trata de um dia um de vós estar em posição de ajudar alguém, ou de minorar o sofrimento de outra … estamos a falar de vocês, por dedicarem um momento da vossa vida poderem vir a salvar uma vida humana … não vos falo de uma vida humana qualquer, falo-vos de uma vida de alguém que sem sombra de duvida se têm batido por ela com todas as forças que tem, que merece uma segunda oportunidade na vida.

 

Existem 3 centros (Porto, Coimbra e Lisboa) onde quem quiser se pode tornar dador. Do que me dizem todos eles procuram dar todas as condições e informações para que o processo de registo se efectue de uma forma rápida, bem informada e um mínimo de inconveniente. Deixo aqui o link de um desses centros, com as moradas dos restantes http://www.chnorte.min-saude.pt/ser_dador.php bem como as palavras da Dirª do Centro Histocompatibilidade do Norte:

 

“Ser dador de Medula é antes de mais uma INTENÇÃO DE SALVAR alguém. SALVAR em qualquer sitio do mundo, onde a idade, o género, a raça, a cor, a religião, a condição social, o credo politico ou qualquer outra divergência não fazem qualquer diferença nem dividem os homens.

Porque há valores que se sobrepõem as discrepâncias de opinião e as diferenças que as culturas, as religiões ou a política parecem trazer entre os homens.

Porque a VIDA é um bem sagrado que nos foi concedido e confiado.

A VIDA é o que os homens se empenham em preservar quando, para além das guerras, dos conflitos, das calamidades, se mantêm solidários na doação anónima e universal da Medula Óssea.

A VIDA é a causa da luta e da união mundial contra a ameaça da leucemia. SER DADOR DE MEDULA ÓSSEA é ser combatente, é ser militante em torno da protecção do valor supremo que é a VIDA.

O Registo Mundial de dadores de Medula Óssea é o “Corpo dos companheiros” nesta luta.

Os Registos Nacionais são as primeiras correntes de união destes elos salvadores, que se entrelaçam atravessando fronteiras, esbatendo serras e ligando planuras, cruzando oceanos e unindo continentes, ligando num abraço o mundo inteiro.

Nesta corrente, neste abraço faz-se o colo da esperança, que teima em fugir das famílias e dos doentes.

Quanto maior o abraço, maior será espaço para a esperança. Quanto maior a rede de dadores, maior será a bóia de salvação a quem podem agarrar-se as famílias e os doentes, maior será o espaço para caber mais um, maior será a probabilidade de encontrar algum.

Qualquer dúvida adicional pode ser esclarecida junto dos três Centros de Histocompatibilidade.

Em torno desta luta e, numa solidariedade exemplar têm-se unido em Portugal doentes, famílias, profissionais de saúde, escolas, associações de doentes e de dadores de sangue, paróquias, grupos de escuteiros, empresários, instituições publicas e privadas das mais diversas, grupos financeiros, políticos, autarquias, pessoas das mais variadas profissões e condições, cada um contribuindo como pode para aumentar o número de dadores e a esperança dos doentes que aguardam transplante de medula óssea.

Contribua com o seu esforço, sendo dador ou ajudando a que outros que possam o venham a ser.”

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Friday, September 19, 2008

Como um burro atrás de uma cenoura

Os dias passaram e o telefone não tocou. Continuo sem ser chamado pelo hospital para completar o tratamento e a possibilidade de ter que esperar mais uma semana não está fora de questão.

 

Aparentemente houve uma nova dose de pessoas, inconvenientes como eu, que decidiu adoecer. Essa nova fornada saiu no entanto superior à média, demonstrando quantitativamente aquilo que já era empírico: que o serviço de hematologia dos Capuchos estava a rebentar pelas costuras, há já largos meses (ou anos?!), tendo agora entrado em falência absoluta, mascarada apenas pelo facto de dezenas de pessoas como eu estarem em casa e não acampados em tendas à porta do serviço, como aqueles alienados que queriam estar na primeira fila do concerto da Madonna.

 

Voltámos então claramente ao tempo da outra senhora, da pobreza envergonhada e escondida, como convém para nenhum turista deixar o País pensando que acabou de visitar o 3º Mundo … sim porque nisto o que interessa é mesmo o turista, porque todos por cá sabem que isto está tudo já algures entre a sanita e o cano do esgoto e em tendência decrescente … todos sabemos mas nada fazemos, como sempre, afinal não é por acaso que Salazar teve de morrer caindo sozinho da cadeira e mesmo assim foi preciso esperar anos para haver uma Revolução.

 

Tenho para mim que esta coisa de não haver mobilização para nada deriva do facto de não haver um pingo de espírito de liderança entre os quadros médios deste País. Que os quadros de topo são, na sua esmagadora maioria incompetentes e/ou corruptos e/ou desinteressados, já seria de esperar, afinal o poder total corrompe totalmente e não seriamos nós que fugiríamos a essa regra. Acho que um problema fundamental que aflige este País, é que os quadros médios aspiram a nada mais na vida do que chegarem a quadros de topo, para poderem ser plenamente arrogantes, subservientes e sabujos mas terem um certo e determinado estatuto.

 

No futebol, tantas vezes apontado como não sendo bom exemplo de coisa nenhuma, surgem com alguma frequência bons exemplos, quando certos e determinados treinadores apresentam a demissão por sentirem que não estão reunidas as condições para poderem ter sucesso na função … não sei se será por não aspirarem a ser presidentes dos clubes que treinam, o que é facto é fazem aquilo que muito boa gente dos quadros intermédios da função publica devia fazer neste País: pedir demissão por não estarem reunidas as condições mínimas para desempenharem a sua função.

 

Mas para isso era preciso tê-los no sítio e convenhamos, há falta de tomates nesta terra e os nativos só ficam alvoraçados quando alguém o diz em voz alta

 

Portanto cambada de ovelhas que somos, eu incluído, temos o que merecemos. Mais não digo porque não vale a pena, tantos antes de mim falaram sobre isto, há tanto tempo e tão melhor do que eu que sinceramente chego à conclusão que eu é que devo ser burro e alinhar pelo diapasão geral do silêncio e do comodismo.

 

Aliás, sinto-me mesmo como um burro, a quem acenam uma cenoura à frente que persigo sem conseguir alcançar. Acho que em qualquer altura do tratamento um atraso por falta de disponibilidade de camas seria muito mau, mas quando falta apenas um ciclo para acabar a coisa não é apenas muito má, assume é contornos de crueldade.

 

Estou cansado física e psicologicamente. Estou oficialmente num estado de ansiedade permanente, voo para o telemóvel cada vez que este toca na esperança que seja do hospital. A minha família está psicológica e emocionalmente de rastos. Eu que tenho tentado manter a calma e a serenidade, perdi completamente a paciência com tudo isto e já discuto e me exalto com quem me rodeiam por tudo e por nada. A juntar à festa, entra o medo que este atraso tenha impacto no meu tratamento, o risco existe e será tanto maior quanto maior for o atraso. Finalmente, eu que já andava a planear o meu regresso a uma vida activa, no qual tinha previsto um período de 15 dias entre sair da ressaca e voltar a trabalhar, vejo-me agora na posição de ter que tomar uma decisão bem aborrecida, entre não descansar nada e aumentar o risco de ter uma recaída e adiar o regresso à minha função e arriscar não ter função para onde voltar.

 

Irresponsabilidade é a coisa que me vem à cabeça insistentemente, isto tudo é de uma irresponsabilidade inconsciente a vários níveis. É também estranhamente normal, afinal por cá ninguém nunca é responsável por merda nenhuma. Vamos portanto todos fazer o exercício nacional de todos os dias, toca a fechar os olhos, estender os braços, com as palmas das mão viradas para cima e encolher os ombros repetidamente 4 ou 5 vezes.

 

Ontem fui novamente ao hospital, mudar o penso, fazer análises e ter consulta. Ia em brasa só de imaginar que ia ter de passar uma série de horas naquela maldita sala de espera a ouvir uma cambada a lamuriar-se disto ou daquilo ou insurgindo-se com funcionários, que têm culpa absolutamente nenhuma nas demoras no atendimento e que absolutamente nada podem fazer. Se há sitio onde o português tem dificuldade em ser silencioso e comodista é em salas de espera, para mal dos meus pecados.

 

Na nacional falta de hábito em procurar psicólogos para obter ajuda profissional, todos aqueles que são incapazes de sofrer em silêncio (são tantos caramba) lá acham que devem ventilar as suas desgraças onde têm audiência. Para isso a sala de espera é ideal porque pessoas como eu, que em qualquer outra circunstância as deixariam a falar sozinhas, não têm alternativa que não seja estar ali a ouvir as desgraças dos outros. Um dia destes alguém vai-me apanhar-me virado do avesso e vão ouvir o que não querem … idem aspas para todos aqueles que bufam e resmungam e se exaltam com quem não devem, para depois quando aparece o Sr. Dr ou o Sr. Engº imediatamente voltam a mostrar-se lacaios, mansos como cordeiros e recolherem a língua afiada que têm.

 

Felizmente estava um dia relativamente calmo e não tive de esperar muito tempo.

 

No fundamental, como lição a reter, apesar de ser eu que tenho leucemia, não consigo deixar de sentir imensa pena por todas as mulheres e homens que dão tudo de si naquele serviço. Eu, mais semana menos semana, hei-de me ver livre daquilo, mas eles lá irão continuar a tentar segurar as pontas de uma coisa que está em queda livre e que só irá parar num ponto tão grave que alguém irá ter que começar a tomar decisões sobre quem é para deixar morrer e quem se irá tentar tratar.

 

Agora peço apenas o favor de não me dizerem “tem calma” ou “tem paciência” porque é de termos todos calma e paciência a mais que este planeta está a ir todo pela pia abaixo … e agora vamos todos seguir atentamente o jornal porque não haverá certamente porcaria mais interessante a debater do que o casamento dos homossexuais.

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Tuesday, September 16, 2008

Há-de ser qualquer dia destes, em breve

Um dia destes o telefone vai tocar e vou começar a fechar a porta sobre o tema leucemia … bom, fechar será um exagero, digamos que vou só encosta-la bem encostadinha, já que após a conclusão desta fase de tratamentos haverá um período de “manutenção” que servirá para me recordar que posso ter uma recaída.

 

Numa situação normal já teria feito a quimio na semana passada e estaria agora a escrever-vos na expectativa da ressaca, mas tal não foi possível por duas ordens de razão:

a) Os Capuchos têm a capacidade esgotada para receber pessoas no internamento e eu, tal como algumas dezenas (suspeito) de pessoas estamos à espera de vaga

b) Eu, farto de ser um doente inconveniente, no espírito solidário com o serviço e com o Ministro da Saúde, tive uma desagradável tosse na semana passada que iria impedir levar com quimio seja como for

 

Assim sendo a coisa (leia-se o plano de tratamentos) escorregou uma semana. Dou-me por satisfeito, em 6 meses previstos fazer o tratamento em 6 meses e 1 semana é muito bom, apenas posso esperar que a média se mantenha.

 

Será, se os deuses quiserem (já não sou esquisito e estou numa de agradar a todos, sendo que se tivesse de destacar assim os meus favoritos tinha de eleger Ra e Shiva, por motivos diversos que não cabem aqui ser esmiuçados, até porque o parêntesis já está longo), a ultima vez que visto o pijama azul bebe dos Hospitais Centrais de Lisboa.

 

Mais ou menos por esta altura acho que era suposto instalar-se a ansiedade. Senti um bocadinho disso a semana passada, mas agora acho que me passou. Depois de manter este ritmo de tratamentos, ao fim destes meses todos, a verdade é que me sinto cansado. O corpo tem sentido cada vez mais as panadas da quimio, a minha musculatura cada vez degradou-se mais e neste momento, mesmo com hemoglobina a níveis razoáveis quando subo as escadas dois andares já fico com falta de fôlego e tornei-me um adepto fervoroso da siesta, olé!

 

Assim sendo, apesar de poder parecer-vos que tenho estado de férias este tempo todo, na realidade apenas agora me sinto de férias … estou calmamente a aproveitar estes dias extra com valores de sangue aceitáveis, antes de sair novamente da trincheira e correr como um desvairado pelo meio do arame farpado de uma estranha terra-de-ninguém.

 

Como bom tuga, tenho por estes dias fustigado violentamente o frigorifico e áreas adjacentes … mais ou menos onde quer que haja algo que se trinque, tenho-me detido e demonstrado o poder superior das minhas mandíbulas versus a mais variada gama de produtos alimentares, crus bem como confeccionados. Tendo estabelecido essa superioridade, com intervalos regulares e curtos tenho também demonstrado a resistência superior dos meus ossos do crânio sobre as almofadas, que tenho vergado à minha vontade por meio de cabeçadas.

 

O resultado deste comportamento, mais conhecido como “come e dorme”, é a balança registar um aumento de 3kg nos últimos dias. Nada que não se resolva num dos internamentos que irão seguir-se.

 

Tenho saído pouco, o que é meio aborrecido, mas há algumas atenuantes que ajudam a suportar melhor estes dias:

 

1 – O pavor de apanhar uma corrente de ar e a tosse regressar, forçando novo adiamento do arranque do ultimo ciclo

2 – O facto de me sentir cansado, logo sem grande vontade de passarinhar

3 – O facto de já não ter nem pestanas nem sobrancelhas, que tornam os raios de sol desagradáveis acima da média

4 – Achar melhor aguardar que nas próximas semanas a pequena ladroagem deste país se aperceba que na verdade são uns pilha-galinhas. Estou convencido que, assim que façam umas contas, irão concluir que pelos valores que obtém assaltando as pessoas mais valia trabalhar para ganhar a vida.

 

Portanto tenho deixado os dias rolar, ou usando uma expressão curiosa, tenho deixado correr o marfim … nunca vi marfim que corresse … cheira-me que se corre, fá-lo tão devagarinho que não nos apercebemos. Tenho tido como companhia inseparável vários rolos de papel higiénico, já que tenho de me assoar para ai de cinco em cinco minutos, como resultado dos comprimidos de drenagem brônquica. Tendo já deixado espalhado pela casa várias dúzias de pedaços de papel higiénico sujos, estou agora em vias de fazer o upgrade do papel higiénico para o papel de cozinha, devido à sua superior capacidade de absorção.

 

Tenho também tido muito tempo para ver televisão. Como pouco de jeito se passa nela, acabo por ver acima de tudo o jornal. Duas coisas são referidas com muita frequência na ultima semana: O Cristiano Ronaldo e a Educação. Reagindo à “provocação” de um de vós, caros leitores, vou de seguida debruçar-me sobre o tema educação.

 

Este é provavelmente o único País do mundo, onde alguém do marketing iria ter a audácia de usar a imagem do Cristiano Ronaldo e associa-lo à expressão “Escola Modelo” … quem joga assim tão bem à bola não pode ter passado muito tempo numa sala de aulas, não é compatível. Se duvidas houvesse o Cristiano dissipa-as sempre que abre a boca e fala.

 

Não é uma crítica ao Cristiano Ronaldo, é apenas constatação de factos, falar português não é o forte dele … tal como imagino que ciências ou matemática não seja … não é grave … afinal não foi pela escola que chegou onde chegou.

 

Se essa tal de “Escola Modelo” ensinasse apenas inglês e tivesse aulas de educação física, acho que o Cristiano Ronaldo era bastante adequado e não me desgostaria tanto a desonestidade intelectual da campanha de marketing, que promove a imagem ou modelo errado a centenas de milhar de crianças … mas por outro lado nenhuma delas é minha, logo posso fazer de conta que o problema não é meu.

 

Em favor do Cristiano Ronaldo tenho a dizer que elevou os patamares da exigência, o que é raro por estas bandas e por isso saúdo-o … eu que há alguns anos tinha decidido espancar um filho meu que me dissesse preferir estudar a ser jogador da bola, tenho agora a convicção que o espancarei se se contentar em ser qualquer coisa menos do que absolutamente o melhor jogador de futebol do Mundo … porquê, perguntam vós?! Porque a julgar pela TV, revistas, campanhas de marketing e afins, nada há mais importante do que isso no Mundo … e não basta ser um jogador de equipa e de eleição como Deco ou como o Pepe, isso simplesmente não é o suficiente, há que ser o melhor do Mundo! … a jogar a bola, que ser o melhor em qualquer outra coisa simplesmente não é a mesma coisa, vá-se lá saber porquê.

 

É importante que as crianças da “Escola Modelo” percebam esta mensagem depressa, para não desperdiçarem a sua vida tentando ser felizes ou procurando realização pessoal ou profissional em qualquer outra coisa que não seja serem jogadores da bola.

 

Na verdade, se calhar, sou um hipersensível … afinal convenhamos, será o Cristiano Ronaldo a maior ameaça à educação do futuro do nosso País?! … seria bom acreditar que sim, mas a hedionda realidade é bem mais grave do que isso.

 

No País que quase fez o choque regionalização, que travou bruscamente antes do choque fiscal, estamos quase em vias de atingir o choque tecnológico … o que é que sabemos sobre ele?! Bom, pelo que pude apurar, o plano envolve quantidade x de choque e quantidade y de tecnologia, numa mistura volátil e meio indefinida que anda a ser cozinhada pelo nosso primeiro à medida que vai tropeçando em direcção ao abismo.

 

Num rasgo de clarividência, o primeiro tomou consciência da falência total de ideias de como gerir ou governar este País e atirou-se à bóia de salvação “tecnologia” na esperança (vã) que esta, de alguma forma, resolva este imbróglio em que estamos metidos (não duvidem que estamos num imbróglio de toda a ordem, se não o Durão Barroso não teria feito as malas e zarpado tão depressa como fez)

 

A tecnologia é extremamente importante. A minha experiência profissional tem demonstrado no entanto, que tecnologia por si, não resolve nada. Dai os “gurus” da gestão terem estabelecido (há já algum tempo) que há outras dimensões que têm de fazer parte de uma equação de sucesso, como sejam pessoas, processos e um fetiche particular meu que gosto de destacar: … organização estrutural.

 

Mas nada disto é compatível com o jornal da 8, onde a balela que supostamente vai salvar o dia tem de ser vendida em 2 minutos de noticiário a uma nação ávida de telenovelas … será por isso que o primeiro decidiu encurtar uma trindade de dimensões a um simples “choque tecnológico”?! Infelizmente parece-me que não, como bom engenheiro esta coisa de pessoas, gestão, organização, processos é tudo demasiado pantanoso, sujo e pouco dado a formulas matemáticas para meter em cabulas, por isso temos de dispensar com tudo isso e ficarmo-nos pela tecnologia e pelos números.

 

Não vale muito a pena repetir o obvio, mas como tenho tempo livre, vou faze-lo: No meu tempo chumbava-se no liceu … chumbava-se por não estudar … chumbava-se por faltas … quem se virava a chapada a um professor era um grande maluco … e estava claramente expulso e inibido de frequentar o ensino. Estas realidades indesmentíveis, na minha mente decrépita e provavelmente reaccionária, pareciam de alguma forma dotadas de bom senso e razão de ser … hordas de governos sucessivos têm tratado de fazer com que tudo isto se transforme em longínquas recordações do passado.

 

Eu devia ter percebido que alguma coisa estranha se passava quando comecei a reparar que no liceu da Amadora as miúdas de 15 anos tinham começado a usar fio dental e soutiens wonderbra … ora ai está um claro indicio que os papás destas novas gerações estão a pensar em qualquer outra coisa excepto na possibilidade do insucesso escolar dos seus filhos. Acaba por ser ajustada a medida que tornou o insucesso escolar uma impossibilidade matemática, porque se eu andasse no liceu rodeado de pitas de fio dental e wonderbra não iria querer sair de lá mas nem a tiro de canhão.

 

Acho que neste momento é importante pararmos, reflectirmos e assumirmos que o Sócrates, seus predecessores e sucessores, por mais inaptos que sejam, não são culpados de tudo … afinal, se o insucesso escolar não preocupa os pais destas pitas, que raio lhes passa pela cabeça?! Eu aposto que o que os preocupa é pensarem onde vão arranjar o dinheiro para pagarem a lingerie que a filha adolescente – aquela que sob circunstância alguma querem ver aparecer grávida em casa – usa quando vai para a escola. Portanto eis o primeiro e mais fundamental problema da educação neste País: os encarregados de educação das criancinhas acharem que têm outras coisas em que pensar.

 

Na verdade é esta falta de interesse gritante que permita que este e qualquer outro governo faça a porcaria que bem entender, mas insisto que isto é relativamente insignificante porque se acreditam, como eu, que a Educação começa em casa, ninguém tem desculpa para não a dar aos filhos.

 

Mas vamos voltar a apontar baterias ao Governo que é para o texto ficar mais ligeiro e popular.

 

Do choque tecnológico discorreu que as criancinhas tinham todas de ter laptops com ligação à net por tuta e meia. Esse é o grande esquema das coisas … escolas requalificadas e cada fedelho com net e um laptop para brincar … estudar digo … sim, porque o que mais se faz com net e um laptop é estudar como todos sabemos, mas lá chegaremos.

 

A motivação dos professores ou a sua qualidade pedagógica não são relevantes. A desvalorização da função educativa pela sociedade não é um problema. A manutenção de níveis altos de exigência e disciplina em ambiente escolar são uma maçada contraproducente. O desinteresse dos encarregados de educação um mero efeito secundário dos tempos modernos.

 

Claramente o que a Educação precisava em Portugal era de umas boas toneladas de cimento, tijolo, vidro e de um grandessíssimo choque tecnológico … afinal Aristóteles, Platão, Galileu, Isaac Newton, entre tantos outros, foram uns desgraçados duns desfavorecidos que não receberam educação a sério porque no tempo deles não havia net. É obvio, inquestionável e ao que parece o Ministério de Educação tem os números que demonstram esta teoria.

 

Acrescento que é igualmente falso que os laptops sirvam para jogar e que a net sirva para ver pornografia … isso é claramente falso e de certeza que nenhuma das crianças encantadoras que têm laptop e net por tuta e meia as usem de qualquer outra forma que não seja para potenciar ao máximo o estudo, de certeza que é o que mais fazem é estudar, não é msn, não é jogos online, não é ver porno, com toda a certeza o que os putos mais fazem é estudar.

 

Conhecem South Park? São apenas os desenhos animados mais politicamente incorrectos e sinceros que existem no mundo … hoje cruzei-me com esta pequena pérola de musica desse programa, que é apropriada ao tema em monólogo http://www.youtube.com/watch?v=6J3C6CksyJ0

 

A tecnologia só traz vantagens à educação, aliás, o msn, as salas de chat e os sms transformaram os nossos adolescentes em precoces escritores. Nunca se escreveu tanto em português na historia do nosso país… bom, português com alguns erros é klaro, pk ixto de escrever senas em pitogues n é fássil, afinal tamos a tc e depois temos de assertar nas teclas e o camandro … não se percebe muito mas ao que parece é xupé kido … claramente não vale a pena fazer um estudo entre a crescente utilização das tecnologias acima referidas e a proliferação de erros ortográficos em provas de exame, porque certamente não estarão de todo relacionadas umas com a outra.

 

Mas afinal que importa saber escrever em português correcto?! Ora aí está uma pergunta de um milhão de dólares … é que francamente, a resposta mais sincera que me ocorre é: não sei … provavelmente nada, afinal a coisa mais importante é ser o melhor jogador do mundo de futebol, a língua portuguesa ao pé disso empalidece … por outro lado o que é que há num nome?! E se em vez de Capuleto, se se escreve Kapuleto, Romeu e Julieta teriam tido um fim mais bonito?! É bem provável que sim, o Shakespeare afinal é um careta, onde já se viu uma historia de dois adolescentes suicidarem-se?!

 

Bom seja como for, não há que nos preocupar, porque F7 num editor de texto e pimba, ai estão automaticamente assinalados todos os erros … nem vale a pena perder tempo a aprender com os erros porque em qualquer momento, pimba F7 voilá, problema resolvido … é claro que por vezes os editores de texto não estão à mão e depois se passam vergonhas em frente a patrões, superiores hierárquicos e clientes com calinadas de meter medo ao susto, mas há que ter confiança e seguir em frente porque todos esses gajos pertencem a gerações mais velhas e numa situação normal estarão todos mortos e enterrados num futuro não muito distante, momento a partir do qual o anormal passará a ser norma.

 

De igual modo aqui há uns dias li um artigo que questionava se o próprio Google seria assim uma ideia tão boa … lembro-me inicialmente de pensar “que estupidez, mas é obvio que o Google é fantástico” … depois apercebi-me que de facto o Google, num ambiente de formação, é coisa que talvez não promova nada o raciocínio critico e autónomo nem a criação de hábitos de estudo. Quanto vale puxarmos pela nossa própria cabeça quando todo o conhecimento do mundo é pesquisável em milisegundos? Quanto vale cruzarmo-nos com dezenas de pedaços de informação interessante, mas irrelevantes para a pergunta que motivou a pesquisa original? Estaremos numa posição muito grave o dia que alguém tiver que defender estas perguntas como sendo legitimas … não está longe esse dia neste mundo de velocidade e de resultados.

 

É evidente que as crianças mais precisam é de velocidade. Rapidamente chegar a resultados, assim vão-se habituando para quando forem trabalhar, que interessa se são apenas crianças? Que interessa se têm tempo para aprender? Velocidade é o que conta, afinal mais depressa googlam os trabalhos de casa, mais tempo sobra para ver os Morangos com Açúcar, para jogar online, para ver porno, tudo a um ritmo bem frenético para ver se conseguem chegar ao Xanax uma década antes dos pais.

 

Achei positivo o destaque que deram o outro dia aos melhores alunos do País. Achei a ideia boa, e uma cerimonia bonita. Foi bonito … e económico. 500 euros de prémio a cada um! 500! Ora ai está uma mensagem fantástica a ser passada … um ano inteiro de trabalho e de sacrifícios vale quanto? … neste País vale 500 euros. Claramente incentiva … incentiva qualquer jovem a enveredar por uma vida de crime. A matemática é simples, 500 por gasolineira / restaurante assaltado associado à não existência de pena de prisão para menores de idade, se a ideia é ganhar dinheiro fica demonstrado que não é estudando que se chega lá. Francamente, 500 euros é ranhoso demais para ser verdade, mais valia terem deixado a coisa pelo diploma e pela homenagem publica.

 

Mas está tudo bem e o problema deve ser meu por achar que temos aqui um problema bem grave.

 

Para concluir, no meio deste estado de coisas, escolaridade obrigatória até ao 12º ano?! Acho que sim, claramente vai ter um impacto positivo sobre as estatísticas do desemprego.

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Sunday, September 7, 2008

Darth Vaderismo

Ora boas a todos, cá estou após mais uma ausência prolongada. A razão da ausência é pura é simples, tenho andado com um mau feitio do pior. O meu lado negro apossou-se de mim esta semana e foi trepando pelas paredes até atingir ontem o seu expoente máximo, estive intratável.

 

A sensação de cansaço acima da média no ciclo A veio a confirmar-se nas analises, não apenas num nível considerável de neutropénia (falta de sistema imunitário), mas desta vez inclusive com um nível de hemoglobina baixo o suficiente para pela primeira vez após um ciclo A precisar de transfusões de sangue.

 

Fico sem saber se se deve a ter pouco tempo para recuperar entre a ressaca do ciclo B ou se se deve a fadiga do corpo das pancadas da quimio. O mais provável é resultar um pouco de ambos, tudo bem que tinha valores para começar o ciclo A mas não me sentia em forma.

 

Ter um lado negro nem sempre é mau. Aliás disse na 6ª feira à minha médica, à Madalena, que esse lado negro iria ser a erva ruim que iria impedir-me de ter febres apesar da debilidade do sistema imunitário. Tracei a linha na areia, já estou neutropenico, já estou com a precisar de sangue, rai’s ma partam se vou ceder a febres, não senhor, fora de questão!

 

6ª feira foi um dia longo no hospital, entre quimio, fazer pensos e consulta. Seria mais longo ainda se lá tivesse ficado à espera do sangue, só ia sair do hospital lá para as 24h00 … convenhamos, 14 horas nos Capuchos não estando internado é um pincel de toda a ordem, fora de questão.

 

Combinei as coisas para voltar sábado de manha aos Capuchos e tomar as 2 doses de sangue que me eram devidas. Para meu espanto, em vez das 2 doses só recebi uma. Resultado segunda feira tenho de voltar aos Capuchos, fazer analises e ver se ainda levo a 2ª dose ou não. Isso irritou-me ainda mais (até porque me cheira que na 2ª vou ter os valores a recuperarem e já não vou levar a 2ª dose), mas quando detecto flexibilidade do outro lado procuro ser flexível eu próprio e um compromisso foi encontrado para minimizar o tempo perdido no hospital.

 

Sábado à tarde, cereja no topo do bolo, cortei-me num dedo estupidamente enquanto sem concentração tentava abrir uma …. cena (falta-me o vocabulário … pacote?! Mas é de plástico … pacote costuma ser de cartão …bah, uma cena) … de marmelada. Se um gajo já se irrita quando se corta de forma estúpida, acreditem que se irrita duplamente quando sabe que tem as plaquetas junto ao limite inferior e tem pouco sistema imunitário.

 

Ontem já descarreguei parte da bílis junto de quem me rodeava, a minha família. Hoje o que me sobra, meus queridos, vou descarregar em vós …. Preparados?! Embora lá a isto:

 

Irrita-me ter tido cerca (ou mais de) 200 pessoas a darem sangue para mim, ter 2 doses de sangue pedidas desde 6ª feira, ir no Sábado aos Capuchos e só levar uma, seja lá porque motivo for, até posso compreender, não quer dizer que goste, sou boa pessoa mas não sou candidato a santo.

 

Irrita-me que à pala disto, 2ª feira estou de volta ao hospital, 3ª feira tenho uma junta médica por causa da baixa (onde a minha presença é totalmente inútil face as analises que levo, mas lá vou perder 2 horas da minha vida), 5ª feira estou de volta ao hospital para análises e consulta e no meio disto tudo não tenho tempo para visitar algumas pessoas que queria visitar e não tenho tempo para descansar antes de iniciar o ultimo ciclo.

 

Irrita-me ainda mais que o banco de sangue de S. José, por uma vez se ter queixado que os meus dadores “entupiram o serviço” … ora rai’s vos partam que ninguém que vos entende, ora se queixam que não há dadores, ora se queixam que há a mais, típica atitude portuguesa de se queixar por tudo e por nada.

 

Irrita-me ainda mais quando soube que por duas vezes, nesse mesmo banco, o atendimento a dadores meus foi menos do que cordial … numa das situações em particular tenho pena de não ter estado presente porque ia ter que baixar o nível para uma das funcionárias do serviço e oferecer-lhe 15 minutos de atenção sexual numa qualquer marquesa porque a mulher, pelo que me contaram, só podia estar com falta de amor.

 

Irrita-me saber que o novo Hospital de Todos os Santos (em construção), que irá substituir ao que parece 3 hospitais do centro de LX, terá apenas metade da capacidade de camas oferecida actualmente pelos hospitais que substitui. Diz o Governo que assim haverá “melhores condições” … isto fez-me alguma espécie, deve ser por não ser engenheiro da Univ. Independente e até ter um inglês correcto. Felizmente falei com o Professor Bambo, e percebi o grande plano do Governo … a ideia é cerca de 50% dos doentes actuais pararem de ser inconvenientes e decidirem-se de uma vez por todas se querem morrer ou ficar bons de uma vez por todas … é um golpe de génio, o Ovo de Sócrates a meter Colombo a um canto.

 

A juntar a este pressuposto há um segundo é claro, é que não haverá novos doentes em numero igual ou superior a querer seguir as pisadas dos que morreram ou se curaram. Para esse pessoal novo (esses novos inconvenientes doentes) não se porem já com ideias ficam avisados, o novo hospital terá corredores maiores onde poderão ficar instalados em macas muito desconfortáveis dos bombeiros (que irão ficar com as ambulâncias encravadas por não terem macas para ir buscar mais doentes), o numero de médicos e de enfermeiros de serviço há-de estar calculado pelo numero de camas (não pelo numero de camas mais macas) e calculado já de si por baixo … portanto preparem-se para morrer.

 

Mas no fundo está tudo bem porque ao morrerem sabem que contribuam para o grande desígnio nacional de termos um deficit inferior a 3% do PIB. Emociona-me os cidadãos darem a vida pela Pátria, somos pequenos mas assim somos grandes. É claro que porque é que o deficit tem de ser inferior a 3%, em vez de 4% ou 5% ninguém tem uma explicação cientifica para avançar, sendo que muitos economistas, mesmo os liberais concordam que o numero pode variar, o mais importante é que haja um numero e que seja estável. 3% parece que é o numero que os Alemães gostaram mais.

 

Irrita-me que neste País esteja tudo a descambar, que o governo só olhe para onde possa cortar, mas aos mesmo tempo saber que continuamos a mandar tropas e GNR para Kosovo, Afeganistão, Iraque, Bósnia e Timor ou seja lá onde for onde seja preciso gastar dinheiro que não temos e parar balas com os dentes.

 

Irrita-me que o Presidente da Republica vá a Polónia e à Eslováquia, com um avião cheio de empresários, para aumentar o investimento estrangeiro cá / aumentar o investimento nacional lá fora … escolham o que prefiram, eu cá não entendi qual é a estratégia. Ora bem, se há cada vez menos investimento estrangeiro em Portugal, porque estimular investimento nacional lá fora?! Não era melhor deixar os nossos empresários tomarem a iniciativa de investirem lá fora em vez de cá por sua conta e risco? Por outro lado, se cada vez o investimento estrangeiro sai de cá e se deslocaliza para, entre outros sítios, o leste europeu, a que propósito um empresário de leste iria querer investir cá?! Admitindo que essa possibilidade existia, não era preferível o avião ter partido vazio de cá, ter-se enchido de empresários polacos e eslovacos, traze-los até LX, expormos cá da melhor maneira o melhor que termos a oferecer e pagar umas jantaradas-convivios com empresários nacionais para ver se surgiam dai umas parcerias?

 

Irrita-me perceber que o nosso Presidente não se tenha apercebido que em todo o Leste Europeu os únicos empresários que têm mais dinheiro que juízo são os russos … porque é que não foi visitar a Rússia?! Estava logo ali ao lado … ah, mas a Rússia hoje em dia é inconveniente … lá voltaremos.

 

Irrita-me a União Europeia. Irrita-me que tenha roubado margem de manobra aos governos nacionais (por mais incompetentes que sejam como o nosso) para actuar, eliminando a zero as politicas monetárias e limitando imenso as politicas orçamentais que poderiam ser seguidas para accionarem a nossa economia, desfasada que está do resto da Europa.

 

Irrita-me que algures em Bruxelas alguém tenha decido que o futuro de Portugal e do seu povo passe por ser empregado de mesa, de hotel, de bar, de esplanada ou seja lá do que for que o camone do norte da Europa precisar quando vier cá de ferias de vez em quando. Todo o respeito por todas essas profissões, mas não me lixem, não nos queiram por todos a fazer isso para termos o que comer.

 

Felizmente, já diziam os romanos que os lusitanos “não se governam nem deixam governar”, assim sendo esse agenda oculta de Bruxelas para o nosso País vai ter fraco resultado, na medida em que conseguimos (um pouco a semelhança de alguns funcionários do banco de sangue de S. José) receber e tratar tão mal os turistas (logo a começar pelos taxistas no Aeroporto da Portela) que em breve vai-se tornar claro que Sul de Espanha, Mediterrâneo, Caraíbas, Turquia, Tunísia e Egipto oferecem melhor serviço, com melhores instalações e preços mais competitivos do que este nosso jardim à beira-mar plantado, West Coast Europe pelo que ouvi dizer.

 

Já que falamos de instituições, irrita-me a NATO em conjunto com a UE. Há largos anos que numa província da Moldávia se passa exactamente o que passa hoje em dia na Geórgia, com uma maioria russa na província de Transdniestre se declarou independente da Moldávia, musculados pela presença de 10000 tropas do Exercito Russo, independência essa reconhecida apenas pela Governo Russo. Alguma coisa foi dita sobre o tema?! Zero!

 

Depois vem o Kosovo e reconhece-se a independência do Kosovo. O Kosovo nunca foi albanês. O Kosovo já foi o Kosovo … já foi Otomomano, já foi Sérvio. Nunca foi albanês. Mas alegremente os nossos lideres reconheceram a independência do Kosovo, com base em nada excepto a razão de forças no terreno. Hey qualquer dia, a Damaia é uma freguesia de Cabo Verde, porque não? Partes de Londres passam a ser da Jamaica, da Somália ou quem sabe até do Irão … porque não?! Por mim tudo bem, desde que se pense minimamente nas consequências.

 

Agora a Rússia compõem a razão de forças no terreno na Abkahzia e na Ossetia do Sul, como a NATO compôs no Kosovo … com a curiosidade de quer a Abkhazia quer a Ossetia do Sul já terem sido independentes da Gerogia no passado e de inclusive, pelo que li o outro dia manterem traços nacionais e linguísticos distintos da Geórgia.

 

O que fazem a NATO, EUA e UE? Demoram 5 dias a reunir, fazem um bluff básico de palavras que todo o mundo vê está vazio de musculo por trás, nada satisfeito com uma actuação triste e atabalhoada, ainda se armam aos cucos a dizer que a Ucrânia vai entrar na NATO o mais depressa possível … ora então o mais depressa possível a Crimeia (onde está estacionada frota do russa do Mar  Negro) e mais algumas províncias do leste e sul da Ucrânia, de maioria russa à semelhança da Ucrania, vão mas é passar a ser independentes da Ucrânia, à lei do tanque e da bala russa se for caso disso, e a NATO e os EUA e a UE  vão ficar mas é caladinhos porque não têm estômago para o nível que a parada subiu e para todos os efeitos a Ucrânia não pertencendo à NATO está mais ou menos à mão de semear, a coisa fica arrumada em menos de uma semana.

 

Passa pela cabeça de alguém a Rússia ter a sua frota ancorada em território pertencente a um país da NATO? Querem começar uma guerra? Se a Russia não é um potencial inimigo da NATO, porque motivo não se fazem planos para trazer a Rússia para dentro para da NATO? Os EUA, a EU e a NATO querem coleccionar inimigos da Rússia até ao Afeganistão, passando pela Síria, Iraque e Irão? Como querem fazer face ao poderio crescente da China? Aparvalhou tudo? Pararam de pensar em geoestratégia desde Gorbachev?

 

E tem de ser um leucemico vir explicar estas coisas todas, que são do mais elementar de ser visto, só não vê quem não quer ver, gostem vocês muito pouco ou nada dos russos, que no meio disto só dizem uma coisa acertada: sejam pragmaticos.

 

Irrita-me a RTP1, a SIC e a TVI … as 3 em conjunto ao longo de uma semana não são capazes, nem um dia que seja, de passar outra coisa que não seja novelas. Aqui há não muito tempo ainda davam um filme de vez em quando, a meio da semana para desenjoar, de todo o esgoto de novelas brasileiras e nacionais que são cuspidas como salsichas mal-amanhadas … hoje nem isso. A SIC com os rebeldes ways e a TVI com os Morangos devem estar a candidatar-se ainda a um premio qualquer de baixo nível e de maus serviço à educação dos adolescentes deste País, já a RTP1 não sei quantos “Dança Comigo” diferentes conseguem inventar porque cheira-me voltam os paralimpicos de Pequim vão fazer o Dança Comigo paralimpico e depois fazem o compacto, com um pouco de sorte é um Sábado e Domingo inteiro a mamar com Catarina Furtado e 1001 Danças Comigos, até goblins verdes hão-de aparecer e juntar-se à festa

 

Agora vão voltar a Roda da Sorte na SIC … porque?! A RTP1 anda a dar episódios repetidos do Preço Certo … acreditem em mim, tenho tanto tempo livre que infelizmente já me consigo aperceber que repetem episódios do Preço Certo … aquilo é serviço publico onde?

 

Irritam-me os jornalistas desportivos sabujos, carregados de clubite aguda consoante são do Porto ou de Lisboa, a fazerem entrevistas sabujas e subserviente como aquele individuo inqualificável que entrevistou o Pinto da Costa por altura da renovação daquele campo de treinos … é que o homem foi tão subserviente, sabujo e servil que até o Pinto da Costa estava sem jeito … consigo sem grande esforço imaginar a Carolina Salgado ter mais classe e respeito próprio de joelhos a gratificar oralmente o Pinto da Costa do que aquele individuo que se apelida de jornalista.

 

Irritam-me os locutores de futebol da TV … não há ninguém que seja pago para falar ininterruptamente ao longo de 90 minutos que ao fim de um bocado não esteja a dizer bacorada quando tentam fazer uma análise do jogo. Estejam calados … temos (a maior parte de nós têm) olhinhos para ver que o Pedro passa a bola ao João que avança pela de fundo que cruza para o José Joaquim que atira ao lado por cima à ou a figura do Marco Aurélio, atleta de Cristo … não precisamos que estejam sempre a cuspir para o microfone porcarias que conseguimos ver … acima de tudo não passem é de estar a fazer isto e de um momento para o outro dizerem “o Zé Alberto está ter uma época terrível e está desenquadrado da equipa” e se for preciso passados 15 minutos, faz o Zé Alberto duas assistências e marca um golo de livre e já a conversa é “o Zé Alberto é um jogador notável que pode a qualquer momento sozinho decidir um jogo” … ultimamente já tenho tirado o som da TV de propósito, mas chateia-me não ouvir o som ambiente do estádio. Não tenho respeito nenhum pela profissão de locutor de futebol de TV, se vocês fossem realmente bons iam fazer isso era mas é para a rádio, porque na TV até um gago fazia o que vocês fazem.

 

Estádios esses recheados de cromos que sinceramente, me irritam. Frustados, doentinhos da bola, como o outro “diabo” lá de Gaia que entra pelo campo adentro para dar um calduço no fiscal de linha … eu que duas noites antes estava a ver a Liga dos Últimos, estava longe de imaginar que no Estádio da Luz se ia ver uma cena que só se vê em dias maus em jogos das distritais. Mas está tudo bem, e o homem que eu saiba apesar do que aprontou ainda não foi expulso de sócio do Benfica, mas enfim cada um tem os sócios, em quantidade e comportamento, que acha que deve ter.

 

Irrita-me que critiquem as eleições em Angola … as coisas não correram muito bem, são merdas que acontecem, afinal eleições naquelas bandas são coisa recente. Para alem do mais, continuaram a votação no dia a seguir, ficou mais caro mas hey, os angolanos têm dinheiro e podem, nós não! Tomem, embrulhem e pensem nos 3%.

 

Houve uns jornalistas tugas todos indignados que não tiveram vistos para acompanhar as eleições. Começaram ai a armar-se em chorões e a gozar com alguém que dizia que as eleições em Angola iam fazer um exemplo para a África e para o Resto do Mundo.

 

Faz senão bem o Zedu não os deixar ir lá, porque estão associados ao Pinto Balsemão, logo à SIC e portanto já chega de Rebelde Way News. Foram sim senhor umas leiçoes exemplares para África, afinal não houve ninguém da oposição preso, torturado ou morte, os boletins de voto não tinha numero de serie nem foram endereçados ao eleitor como no Zimbawe, não houve tiros, portanto quem nos dera fosse assim em toda a África.

 

“Ah e tal Michael, mas aquilo foi uma crónica de vitoria anunciada, a oposição está dominada, não há alternativas” … não me lixem que por cá é igual, não temos alternativa e quem vai ganhar as próximas, por incompetentes e mais burros que demonstram ser, já sabemos quem são, porque cá, tal como em África, há caciques e interesses e tachos

 

E se querem saber, Angola e até Moçambique é um exemplo para o Resto do Mundo porque nos EUA o Bush foi presidente devido a trafulhice e com menos de 50% de votos, um dia destes matam o Obama quando for presidente, e só nos andamos a meter em confusões e porcarias que não nos dizem respeito e para as quais não temos estofo, e se virem bem em Moçambique desde que ofereceram uma bela vivenda ao líder da Renamo em Maputo, com uma bela vista para o Indico, paredes meias com o Palácio Presidencial, aquele País conheceu a paz e a concórdia portanto abençoada vivenda e maneira africana de colocar pedras sobre assuntos que não interessam a ninguém.

 

Uffff … já me sinto melhor. Já descarreguei. Agora a ver se me permito receber um pouco mais de amor do mundo e boas vibrações, porque deixar-me irritar por tanta coisa não me faz bem.

 

Afinal estou em recuperação para entrar no meu derradeiro ciclo, não quero entrar nesse ultimo ciclo de cabeça virada, quero entrar calmo, tranquilo e com mínimos de ansiedade.

 

No meu jeito belicoso (que espero conheças tréguas definitivas no fim de Setembro quando todo o tratamento estiver concluído) decidi inspirar-me em George S. Patton e deixar uma frase deste senhor: “Nenhum estafermo alguma vez ganhou uma guerra morrendo pelo seu País. Ganharam, fazendo o outro pobre estafermo morrer pelo País dele!” … Eloquente e muito acertado.

 

Cruzei-me com outra frase atribuída também a este senhor: “Se todo o mundo pensa igual, então alguém não está a pensar” … Estou leucemico, irritado e portanto é natural que no meio desta catarse tenho coisas com as quais o leitor não concordo … eu respeito isso … com excepção de criticas à parte dos jornalistas sabujos e dos locutores de TV não irei apagar os comentários que receber, afinal isto não é uma democracia se gostam dessa laia de gente façam o vosso próprio blog e vão chorar para lá

 

Eu, Darth Vader, exercito de um

Posted by Michael at 23:25:21 | Permalink | Comments (14)

Monday, September 1, 2008

Estou meio Martim Moniz

 

A vários níveis sinto-me hoje comparável a este herói mítico da “Reconquista” do nosso cantinho da Península … a que propósito nos decidimos “reconquistar” territórios governados por uma civilização (à época) claramente mais avançada, esclarecida, tolerante e humana é algo que me ilude … imagino um general qualquer de Afonso Henriques, uma figura desdentada, elmo arranhado, sorriso meio embaraçado, centelhas esparsas de inteligência a percorrerem-lhe os olhos, a atravessar as brumas do tempo até aos dias de hoje e a ver tudo o que aconteceu ao mundo desde as Cruzadas … teria de lhe colocar a pergunta: “Mas … porquê?!” … será que teria a sinceridade de me responder “bem, na verdade pareceu-nos uma ideia bastante bestial na altura” em vez de um lacónico “Deus Vult!”?

 

Divagando, é uma coisa que me irrita nos pacifistas, é que chegaram muito tarde à festa, mas mesmo muito tarde. A sério, no mínimo do tipo 8 a 9 séculos de atraso, é considerável, quer dizer 8 a 9 séculos, que raio andaram vocês a fazer este tempo todo? E agora querem fazer o quê?! Paz no Mundo, agora?! Mas não vêm como isso é inoportuno?!

 

É uma figura admirável o nosso Martim Moniz, um marco histórico numa longa serie de feitos de armas e de navegação, de admirável heroísmo, sacrifício e abnegação, que partilham também do facto de terem sido absolutamente contraproducentes e potencialmente crimes de lesa-pátria bem vistas as coisas, mas pronto, tudo tem de ser visto à luz das circunstâncias, afinal as situações em geral tendem a complicar-se sempre bem mais do que pensamos, não é?! Afinal, quem manda entregar a liderança a híbridos Franco-Castelhanos como o nosso Afonso Henriques, ahn?! Tinha de dar barracada!

 

A primeira razão pela qual hoje me identifico com o Martim Moniz é que me sentia entalado … ele numa porta do Castelo S. Jorge, eu no processo criativo de escrever algo. É notório que estou entalado quando começo a divagar logo ao 2º parágrafo.

 

A segunda razão (meio forçada) prende-se com o “atirar-me à brecha” ao melhor jeito shakespereano do ultimo post … o Martim Moniz pagou com a cabeça, eu felizmente paguei apenas com cansaço. Essa tem sido a nota dominante da semana, cansaço acima da média para um ciclo A. Nada de dramático, em vez de imitar o tigre tenho imitado um belo de um gato persa, bem anafadito, que pouco mais faz do que comer, dormir e largar pelo por toda a casa … e a fazer prrrrrrr se a ocasião se apresentar propicia.

 

A terceira razão (a do alucinio) tem a haver com o facto de apenas faltar talharem-me o pescoço para o picotado de cicatrizes finalmente me cobrir, praticamente do ombro direito até ao ombro esquerdo, sem interrupções … esta coisa de ter pensos e suturas dos dois lados é bestialmente aborrecida e pouco pratica … felizmente conto amanha ir retirar os pontos e o penso do implanto fixo.

 

De resto os dias vão passando, 6ª feira concluo o ciclo A, uma semana depois calculo que esteja internado ou em vias disso para começar o derradeiro ciclo B.

 

Tenho a agradecer ao pessoal da faculdade que veio cá a casa na 5ª feira passada, apesar de estar estourado, de me terem bebido todo o vinho e cerveja que tinha em casa e de terem incomodado os vizinhos todos da rua até à uma da matina, soube-me extremamente bem ter-vos cá e termo-nos rido que nem uns perdidos foi extremamente benéfico para mim.

 

Este fim-de-semana perdi mais um companheiro, o André Campos. Falámos uma única vez, no dia em que os médicos dos Capuchos o informaram de como era desesperada a situação dele. Tínhamos amigos em comum, falámos sobre isso, sobre os amigos em comum e como o Mundo é pequeno. Mais uma pessoa que tenho imensa pena de só ter conhecido numa cama dos Capuchos. No dia a seguir a termos conversado ele foi para Santa Maria, começar a preparação para tentar uma técnica inovadora mas de alto risco que infelizmente não foi eficaz. Nunca mais falei com ele, apesar de torcer por ele e de ir sabendo noticias. Infelizmente a vida não é como nos filmes e as coisas por vezes (demais) não correm bem no final. Se algum dia quiserem fazer um filme sobre alguém que lutou, se sacrificou e suportou coisas horríveis até ao limite da sua resistência para conseguir vencer, podem ter a certeza que o filme se podia basear nele.

 

De resto vou fazendo aquilo que devo fazer, para que com um pouco de sorte em breve encontre um final feliz para o meu filme.

Posted by Michael at 19:09:54 | Permalink | Comments (12)